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«As crónicas estão para um romance como as canções para uma sinfonia»

Os pequenos nadas da vida assumem uma proporção considerável no nosso quotidiano, mesmo que de um modo subtil, porque são o impulso que nos move, incitando-nos a desfrutar da caminhada e de tudo aquilo que nos acrescenta. É por essa razão que, para além da música, aprecio tanto regressar à escrita de Miguel Araújo.

«A criatividade parece vir acompanhada por uma força vital qualquer que não se apaga»

Seja o Que For tem uma melodia que nos faz levitar. E, à semelhança de uma música, fica no ouvido. Neste caso, na parte da memória que acolhe passagens que nos edificam; que nos leem e nos permitem descobrir mais um recanto da nossa identidade. Porque cada texto tem o dom da proximidade, concedendo-nos a possibilidade de recordar experiências semelhantes ou adaptadas ao nosso contexto. Além disso, «em doses de três minutos», soam-nos a conversas rápidas, que nos deixam com vontade de as retomarmos mais tarde.

«As palavras já têm um sentido lato, lasso, bambo que chegue, já permitem muita folga 

no entendimento entre as pessoas, que fará se a sua grafia for, também ela, dúbia»

Da mesma forma que o manuscrito anterior - Penas de Pato -, interliga capítulos de crónicas com contos de cordel. E é fascinante como há uma certa poesia na sua abordagem e na maneira como observa o mundo. Saboreando a realidade, concentra-se em detalhes, aparentemente, banais, mas que nos reservam sempre inúmeros pontos de reflexão, porque é o modo como os vemos que dita a sua pertinência. No fundo, é saber tirar partido do que nos envolve, compreendendo que há sempre novas camadas para serem exploradas.

«Desconfio das almas que se entregam às coisas moderadamente 

misturo-me com as que se entregam às coisas demoradamente»

Alguém escreveu que «são as situações rotineiras que criam espaço para que encontremos o que de mais importante há na vida», o que me parece ser a melhor definição desta obra, atendendo a que nos inspira a desacelerar, a estar e a desfrutar dessa alma leve que coabita tão perto dos nossos passos. E, ainda que seja uma leitura descontraída, prática, não deixa de se dividir por temas centrais para a convivência intra e interpessoal. Através de observações e análises intimistas, incentiva-nos a procurar por novas perspetivas.

«nunca parti»

Seja o Que For é um convite para nos reencontrarmos, para nos abstrairmos do que nos consome e para vivermos demoradamente. Para que, na pressa de chegarmos ao destino, não percamos a beleza da viagem.

«Eu tento controlar a minha obviofobia. Faço um esforço. Tento vencê-la»

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