Uma Dúzia de Livros // Maio | Entre Margens
literatura contemporânea, narrativa de superação, trauma e resiliência feminina, simbolismo botânico na literatura, identidade e auto-descoberta
Fotografia da minha autoria Tema: Um livro relacionado com flores A primavera - a par do outono - é a estação que mais me aquece a alma. Muito por causa da leveza dos dias. Dos raios de sol que aparecem timidamente. Pelo chilrear dos pássaros à janela. Pelo manto de cores que se estende nas paisagens. E pelo doce nascer das flores. Por isso, não é difícil compreender o meu entusiasmo em relação ao tema cinco de Uma Dúzia de Livros, cuja escolha literária ganhou asas quase de imediato. Ainda ponderei selecionar outra obra, mas percebi que a minha jornada teria que ser diferente. E respondi, então, à forte curiosidade acerca deste título tão sugestivo. As Flores Perdidas de Alice Hart revelou-se um desabrochar intenso e inspirador, pois ficamos a conhecer um testemunho doloroso e belo na mesma medida. Além disso, é tão humano que é praticamente impossível não nos envolvermos no seu desenrolar, sobretudo, quando nos consente acompanhar o crescimento da sua personagem principal - Alice -, desde que era uma criança de nove anos, até se tornar adulta. Nesta linha temporal, foi, primeiro, criada pelos progenitores: um pai instável e uma mãe que procurava manter-se de pé no caos - e com quem a menina mantinha uma ligação de enorme ternura. Mais tarde, após uma tragédia que virou a sua vida do avesso, é acolhida pelas Flores: uma família peculiar, com um papel preponderante no seu desenvolvimento individual, social e enquanto mulher. E por mencionar o género feminino, tendo em conta o seu papel de destaque, este livro não deixa de ser uma valorização às mulheres e às suas histórias [por vezes, desconhecidas], retratando problemáticas e lutas atuais. A capa elegante não permite antever o turbilhão de sentimentos desta narrativa. Porém, somos confrontados por cada detalhe. Porque a descrição próxima e cuidada e a própria abordagem dos vários temas é feita com bastante veemência. Em simultâneo, encontramos um enredo imprevisível, misterioso, com histórias dentro de histórias, onde o passado se consegue sempre intrometer, porque há assuntos pendentes, medos inconscientes e decisões menos acertadas que condicionam as ligações interpessoais. No entanto, apesar de toda a amargura das circunstâncias, é incrível como é possível prosperar. Todos nós precisamos de um sítio onde pertencer, de alguém que cuide de nós e que nos faça sentir em casa. São as nossas raízes. E nesta obra de arte, semeada por Holly Ringland, há muito mundo a florir. A contextualização dos acontecimentos é preciosa, uma vez que cada capítulo é dedicado a uma flor, cujo significado justifica os traço da ação. E assim se cria um dicionário mágico e uma linguagem capaz de comunicar diretamente com o coração, pois não esconde a fragilidade, as crenças e a coragem de quem a abraça e interpreta. O caminho de Alice foi longo, complexo, conturbado, mas sempre com um propósito. Embora pudesse ter razões para encarar a vida com acidez, tornou-se doce. Matura. Consciente de si e do que pretendia alcançar. Também se perdeu, fraquejou e questionou o rumo dos seus passos - e o amor dos seus laços -, mas não desistiu de se encontrar. E de escrever o seu futuro. Por essa razão, As Flores Perdidas de Alice Hart proporciona-nos uma viagem de reconciliação. E de auto-descoberta. A violência, a culpabilização da vítima, o repetir de um ciclo, a ligação umbilical, o aprisionamento, o renascer, a morte, o trauma, a liberdade, a sobrevivência e a complexidade humana são tudo partes de uma identidade em construção. Há pontas que parecem ficar soltas. Contudo, no tempo certo, todas as memória são desvendada, como se assistíssemos ao brotar de várias novas flores. E este manuscrito é mesmo surpreendente. Não só pelos motivos anteriores, mas também por transportar uma certa poesia nas palavras; um toque delicado e encantado em cada transição, provando que há luz para lá das trevas. Holly Ringland conseguiu criar uma narrativa a transbordar qualidade. Profunda. Com personagens sólidas. E este seu primeiro romance é um excelente cartão de visita para a sua escrita, porque nos desarma. Porque nos toca. Porque «nos faz vibrar». Porque nos faz sentir na pele cada momento. Com uma carga emocional, sentimental e espiritual eletrizante, vivenciamos o sofrimento. O renascer. E o compasso entre ambos. Intemporal, apaixonante, inteligente e marcante, assim descrevo esta obra maravilhosa. Só queria ter o dom de prolongar a leitura. Mas fico com a certeza de que não mais sairá de mim. Que livro especial! Deixo-vos, agora, com algumas citações: «[...] a vida acontece para a frente, mas só pode ser entendida para trás. Não é possível apreciarmos a plenitude da paisagem onde estamos enquanto fazemos parte dela» [p:19]; «- Por vezes sinto-me precisamente assim - disse, por fim. - Como se não passasse de uma semente das estufas dela. Como se não pudesse sair de debaixo da sua proteção, do seu teto. Como se o meu futuro estivesse escrito» [p:179]; «Por isso, cresce. Por favor. Expande a tua vida aqui dentro. - Lulu apontou para o coração. - Não dês tudo aquilo que tens a alguém que não o merece» [p:274]. Nota: O blogue é afiliado da Wook. Ao adquirirem o[s] artigo[s], através dos links disponibilizados, estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥
Texto originalmente publicado em Entre Margens