A rodinha do capitalismo simplesmente não está girando como antes, e os empresários sabem

Isabella Marzolla*, colaboração para Fina

E a carta dos economistas, empresários, banqueiros e poderosos? “O país exige respeito; a vida necessita da ciência e do bom governo”. A carta que começou a circular no domingo (21), surgiu de um grupo de economistas no WhatsApp e até o momento conta com mais de 1.500 assinaturas. São eles profissionais do mercado financeiro, de empresas e da academia dos mais diversos espectros políticos. 

Entre os nomes de peso estão: Alexandre Schwartsman (ex-diretor do Banco Central, 2003-2006), Felipe Salto (diretor executivo da Instituição Fiscal Independente), Ilan Goldfajn (ex-presidente do Banco Central, 2016-2018), José Olympio Pereira (presidente do Credit Suisse no Brasil), Octavio de Barros (ex-economista-chefe do Bradesco), Pedro Moreira Salles (copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco), Pedro Parente (ex-presidente da Petrobras, 2016-2018, e presidente do conselho de administração da BRF) e Roberto Setubal (copresidente do conselho de administração do Itaú Unibanco).

A carta foi redigida por cinco integrantes do grupo, Cláudio Frischtak, Marco Bonomo, Paulo Ribeiro, Sandra Rios e Thomas Conti e enviada ao Ministério da Economia, ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso Nacional na segunda-feira (22). Nela, se expressam a preocupação com a rápida piora da pandemia no país, sugestões de soluções no combate à doença e, de forma sutil, críticas à gestão do governo federal nesta crise sanitária. A carta é publicada quando temos uma média móvel de 2.400 óbitos diários no País, atingindo na sexta-feira (26) 3.600 mortes em 24 horas, o pior dia pandemia, até agora.

Inicialmente, admito que fiquei feliz com o manifesto da classe mais poderosa do país. Sabíamos que o empresariado tradicional, o mercado financeiro e os faria limers faziam, até pouco tempo, parte da base de apoio incondicional ao presidente. De acordo com o Datafolha dos dias 5 e 6 de outubro de 2018, dois dias antes do 1º turno das eleições presidenciais, a maioria dos votos viriam de pessoas com renda familiar de mais de 10 salários-mínimos e em parte do empresariado. O mundo deu algumas voltas e pelo último Datafolha – realizado entre os dias 15 e 16 de março deste ano – Bolsonaro bateu recorde de rejeição com 54%. Afinal, quem quer ficar dentro de um barco afundando em chamas, que carrega mais de 300 mil mortes?

A inflação está em alta, 2020 fechou a inflação oficial em 4,52%, a maior desde 2016. Os preços dos alimentos acumularam aumento de 14,09% no ano, taxa mais  alta desde 2002. Após quase 6 anos, a Selic voltou a subir, tendo um aumento de 0,75% no primeiro trimestre. A intervenção de Bolsonaro na presidência da Petrobras repercutiu na queda de seu valor na bolsa e na alta do petróleo, influenciando inclusive a taxa de desemprego, hoje em 14%. Como isso afeta o mercado, será que isso é agradável para seus negócios?

O auxílio-emergencial volta em meados de abril com um valor médio de R$ 250, mas que pode variar entre R$ 150 e R$ 375, a depender da composição de cada família. Será que isso é suficiente para sustentar uma família com pais desempregados na pandemia? Isso também não cai bem para o bolso dos empresários, que perdem seus consumidores. A rodinha do capitalismo simplesmente não está girando como antes. Mas então, será que o repúdio dos empresários, acionistas e economistas ao governo é pela vida do povão?

Não quero soar mal-agradecida, independentemente de quais são as puras intenções da carta, ela pode ter colaborado, entre outros fatores, com alguns resultados positivos. Na quarta-feira passada (24), após um ano da chegada do Coronavírus, Bolsonaro anunciou a criação de um comitê junto aos Poderes Legislativo e Judiciário, governadores, ministros de Estado e outras autoridades para implementar medidas de combate à pandemia. Além dessa medida, o governo sofre pressão de aliados do centrão; “Os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável”, afirmou Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados indicado por Bolsonaro ao cargo e que guarda na gaveta cerca de 69 pedidos de Impeachment aguardando análise. Lira afirmou isso à imprensa depois da reunião de quarta em que foi criado o Comitê.  

Em 2020 morreram 200 mil brasileiros, em novembro do ano passado o estado do Macapá ficou quase um mês sem energia elétrica. Em janeiro deste ano o estado do Amazonas, especialmente a capital Manaus, ficaram sem oxigênio causando a morte evitável de dezenas de brasileiros. Por que só agora essa classe quis expressar críticas ao governo?  

Nas palavras de um dos redatores da carta, Thomas Conti (Doutor em economia, cientista de dados e professor do Insper), “Eu acho que uma carta nesses termos poderia ter sido escrita muito tempo antes, as informações que estão lá já eram conhecidas há bastante tempo”. Pois é, Thomas.

*É jornalista, também escreve para o Blog Inconsciente Coletivo, hospedado no Estadão