Mouschi, O Gato de Anne Frank

Prenda da querida Paula, precisamente em vésperas de viagem à Holanda.


Anne Frank e o seu diário não precisarão de qualquer introdução; é um dos livros mais lidos no mundo, e está traduzido numa miríade de línguas. Não aprecio particularmente o Diário de Anne Frank, por motivos vários, mas aprecio José Jorge Letria (um dos melhores escritores portugueses para crianças e jovens, se não o melhor) e acredito que este seja fã de gatos - afinal, comprei, na Festa do Livro de Belém do ano passado, o seu livro Versos com Gatos, que ainda não li. Ou então, é só coincidência ter escrito também sobre Mouschi.

Mouschi existiu mesmo, tendo sido levado para o anexo onde os Frank viviam por Peter van Pels. Este pequeno livro mostra, pelos olhos de um gato, o dia-a-dia das famílias que durante dois anos se refugiavam da guerra e esperavam pela liberdade no anexo. Assim, em 36 páginas apenas, resume, numa terceira pessoa, o Diário de Anne Frank, mencionando as ajudas externas, os estudos que Anne, Margo e Peter fizeram por correspondência, os sonhos, paixões e ambições de Anne.

Como simples animal de estimação, Mouschi gozaria de uma liberdade com a qual os outros habitantes do anexo podiam apenas sonhar - sonho esse espelhado nas menções à Westekerk que, do outro lado da rua, era uma miragem distante.

Eu, como era gato, e ainda por cima um gato jovem, tinha dificuldade em compreender que aquela menina tinha perdido tudo o que contara para ela - os amigos, a escola, o sonho, a liberdade - e que aquele diário era um postigo que se abria para o exterior e a iluminava por dentro como uma vela que o vento não conseguia apagar ou uma estrela distante mas infinitamente amiga.

O livro de José Jorge Letria cruza-se, assim, com o Diário - é o gato que nos conta como Anne Frank e os seus companheiros de refúgio viviam, numa homenagem à rapariga que viria a morrer em 1945 em Bergen-Belsen, sem concretizar os seus sonhos de ser jornalista e escritora, mas que se viria a tornar num símbolo de todos os que perderam a vida no Holocausto.

É um livro bonito, com forte cariz ideológico contra a guerra, e ideal talvez para quem seja demasiado novo para ler o Diário - por demonstrar, ainda que indirectamente, os horrores da guerra, e poder preparar para uma leitura futura -, ou para quem goste tanto do Diário que queira ler mais. Ou simplesmente para quem, como eu, adora um bom livro infantil.

Se eu soubesse chorar, mesmo transformado em personagem deste livrinho de memórias, teria sempre duas lágrimas guardadas: uma para Anne e outra para o meu amor por ela. Quem matou esta menina merece ser castigado eternamente por todas as estrelas que há no céu.

Pobre Mouschi.

5/5

O livro encontra-se esgotado, mas poderão ter sorte em alfarrabistas e lojas de segunda mão.