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| Fotografia da minha autoria |
«Quando alguém se torna uma pedra do caminho da especulação imobiliária, tudo pode acontecer»
Avisos de Conteúdo: Morte, Orfandade, Referência a Suicídio, Luto
A lista de autores para o Alma Lusitana, deste ano, foi pensada com antecedência e sofreu reformulações, mas um dos nomes que surgiu de imediato foi o da Susana Piedade. Já me tinha cruzado com algumas críticas maravilhosas sobre a sua obra e a minha curiosidade pendeu para o seu lançamento mais recente (2022).
PORTO, FAMÍLIA & ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA
Três Mulheres no Beiral transporta-nos para a Baixa do Porto, para «uma rua icónica com uma fiada de prédios» e para a história da família de Piedade, o elemento que agrega cada vínculo, mesmo que a ausência e a distância condicionem parte da sua convivência. E é, também, graças à octogenária que ficamos a conhecer o filho José Maria, a neta Madalena, a bisneta Catarina e o neto Eduardo: todos eles tão diferentes, tão concentrados em objetivos divergentes, como se fossem divisões de uma casa antiga a degradar-se.
«(...) à medida que lhe falava de amor por palavras tão leves
como as nuvens que se desfaziam lá fora. E depois sorriu»
É extraordinário perceber como é que a cidade e as personagens se interligam, como é que as vidas de várias gerações ficam condicionadas por medos, por segredos, pela perda que tem tantos rostos e emoções. Há muitas sombras a interferir com as vivências desta família, mas também existe muito amor. E mesmo no meio da crueldade evidente, influenciada por interesses mesquinhos, percebe-se que, lá no fundo, existe um resto de dignidade, que só o amor pode reconhecer - ou procurar resgatar, para que não se repitam desgostos.
«Havia memórias e saudades espalhadas pela casa, dores e alegrias que não
se podiam palpar ou reter em caixas e que pertenciam às pessoas que ali viviam»
Em simultâneo, acompanhamos os efeitos da especulação imobiliária, pouco benéfica para antigos inquilinos, que passaram toda a sua vida no mesmo lugar, construindo memórias e alicerces, para, na reta final, ser imperativo abraçarem a mudança. Aliás, a pressão é tão desleal, que fica apenas uma sensação: estas pessoas não pertencem à cidade que as viu nascer (ou quase), embora sejam as pioneiras da sua identidade.
«Julgamo-nos donos do tempo, das pessoas, da vida,
mas a perda torna-nos humildes num instante»
Neste cenário tenso, a protagonista ganhou o meu coração: pela fibra, pela resiliência, pela vulnerabilidade que nunca escondeu e por ser o rosto de uma alma portuense que não quebra. O Porto Antigo demonstra o seu potencial, há quem procure reestruturá-lo, mas também continua a existir quem se recuse a baixar os braços. Piedade é essa voz de presença, é o exemplo de perseverança, que nos inspira a continuar a lutar.
«Cada um mantém vivos os seus mortos conforme entende»
Fiquei encantada com a escrita sem floreados, mas com um toque poético, com a construção verosímil das personagens, com o drama familiar e com as inúmeras camadas presentes nas entrelinhas. Foi a minha estreia nos livros de Susana Piedade e já só quero descobrir os anteriores - sinto que descobri outra autora-casa.
🎧 Música para acompanhar: Porto, Emmy Curl
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