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«O sangue pode pesar tanto quanto a pedra»

Avisos de Conteúdo: doença, violação, morte, manipulação

O amor é feito de infinitas identidades, podendo manifestar-se de maneiras muito distintas. É por isso que tão depressa nos agrega, como nos mantém reféns - a alguém ou a algum lugar -, porque tem elos indeléveis, que nos movem. E no mais recente livro de Susana Amaro Velho, acompanharemos, então, uma das suas essências mais poderosas.

«Afinal, ver bairros do céu era, para mim, coisa de pássaro e, por mais asas 

que eu costumasse dar à minha imaginação, a verdade é que nunca consegui voar»

O Bairro das Cruzes é uma história ficcional, com personagens construídas para aquele contexto. Porém, guarda acontecimentos tão plausíveis, que se torna intuitivo senti-la como se fosse parte da nossa realidade, quer enquanto seres autónomos, quer enquanto país. Além disso, atendendo a que atravessa o período histórico da ditadura, é fácil alimentarmos essa sensação de pertença, mesmo que nos magoe e que nos pese. Porque, lá no fundo, são a prova de uma união que não se quebra, sobretudo, quando há laços familiares a amparar cada passo.

«Eu tinha muito medo (...) mal eu sabia que os meus maiores receios, e outros 

com os quais nunca me tinha sequer deparado, me bateriam à porta em poucos dias»

A escrita da autora é envolvente, viciante. E eu dei por mim a fazer uma caminhada compulsiva, para desvendar os mistérios, as incertezas e a complexidade das relações interpessoais, ao mesmo tempo que procurava prolongar a leitura. Porque a despedida seria dura. Afinal, cruzei-me com protagonistas carismáticos, daqueles que queremos manter sempre por perto. Num bairro onde a vida dos seus habitantes parece fundir-se com a lenda local, é percetível a pobreza, a escassez de oportunidades, a imprevisibilidade do destino, a dor, a dinâmica familiar frágil e a tragédia que se cimenta fora do nosso alcance.

«Há sempre mais, muito mais, escondido do que aquilo que as pessoas mostram»

Há caminhos que seguimos e outros que evitamos percorrer. No entanto, ainda que as nossas escolhas afigurem levar-nos para longe, arranjamos maneira de regressar, pois há algo que nos atrai, impedindo que nos desenlacemos do passado e das nossas raízes. Portanto, neste meio tão caricato, conhecemos o Bairro e as pessoas numa simbiose permanente. Mas já nada é igual. Nem pode ser. Porque crescemos, gerimos emoções antagónicas e aprendemos a questionar até que ponto conhecemos aqueles que nos rodeiam. Pior, aqueles que são sangue do nosso sangue. Ainda assim, nada disso importa, quando o parentesco pesa mais que tudo o resto. E quando continuamos a pertencer ao lugar de onde saímos.

«(...) ela tem duas caras. Ou quatro ou cinco. Tem as que lhe convém»

O Bairro das Cruzes podia ser a nossa história. Porque demonstra as cruzes que carregamos uma vida inteira, condicionando todos os nossos sonhos. Até ao dia em que, num misto de coragem e nostalgia, elas acabam por ruir. Permitindo-nos, finalmente, recomeçar em liberdade.

«E tentamos, a todo o custo, guardar as memórias felizes»

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