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Dez14

Patrícia

          

Um desabafo de que fiquei“em estado de choque” quando acabei de ler este livro e que talvez nunca meapetecesse falar sobre ele acicatou a curiosidade de alguns. No nosso país,onde o prémio LEYA tem um destaque imenso (devido ao montante do prémio e aomarketing envolvido) é inevitável que haja uma imensa curiosidade relativamenteàs obras vencedoras.

Parti para esta leiturasem sequer ter lido a sinopse do livro e sabia apenas que era um livro sobre arelação de dois irmãos. Um tinha síndrome de down, o outro não.

Quando comecei a ler olivro (em versão eletrónica e ainda antes da versão em papel estar à venda –parabéns LEYA por ter posto à venda a versão eletrónica antes da versão física)não ia à espera do que encontrei.

Para poder escrever sobrea minha relação com este livro não consigo evitar SPOILERS, pelo que, se aindanão leram o livro, sugiro que parem de ler aqui, reclamações posteriores nãoserão aceites.

Num livro cuja açãosaltita entre um presenta numa aldeia do interior de Portugal e vários momentosno passado conhecemos, na primeira pessoa, a relação de um homem com o seuirmão que sofre de síndrome de Down. É inevitável estabelecermos uma ligaçãodiferente com os dois irmãos. Ao longo da maioria das páginas do livro duaspersonalidades distintas vão-se dando a conhecer e Miguel, com todas aslimitações inerentes à sua doença, é uma personagem fascinante. O seu amorincondicional por Luciana, as suas reações que fazem absoluto sentido no seumundo, a sua relação com os pais e com o irmão são tudo aquilo que esperavadeste livro. Não conheço de perto esta síndrome mas gostei do que li.

Mas foi a personagem donarrador que me fascinou. O percurso escolhido, as reações, os sentimentos aolongo do crescimento numa família que, necessariamente, vivia em redor daqueleque mais necessitava e que acabou por condicionar (ou no mínimo ajudar amoldar) irremediavelmente a personalidade deste homem foram-me deixando cadavez mais desconfortável.

A espiral de loucura foio que mais me chocou.

O que está escrito e oque não está (nunca me esqueci que aquela era a versão do narrador) e que melevou a questionar o poder da loucura, da inveja, do ciúme, da maldade e doamor.

Esta é, como sempre, umavisão muito pessoal de um livro que gostei de ler e que não me foi, de todo,indiferente. Acho que esta minha dificuldade em escrever sobre o livro é omaior elogio que lhe posso fazer. Afinal nunca gostei de livros muito fáceis.

(e notaram que conseguiescrever tudo sem referir a idade ou a família do autor? É que, sinceramente,isso não interessa mesmo nada)