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| Fotografia da minha autoria |
Tema: Um livro sobre irmãos
Avisos de Conteúdo: Morte, violação, cenas explícitas
Um dos meus maiores sonhos de criança era ter um irmão, talvez pela relação próxima com os meus primos, que sempre foram companheiros de aventura. Embora nunca se tenha concretizado, permanecendo filha única, foi uma dinâmica familiar que não parou de me fascinar. E, por isso, fiquei tão entusiasmada com o tema deste mês, para o Uma Dúzia de Livros, escolhendo um exemplar de Maria José da Silveira Núncio.
«Não quero saber! Não quero ouvir. Não
aconteceu nada. Não deixes que aconteça nada!»
Brincadeiras de Irmãs é um testemunho perturbador e, ao mesmo tempo, enternecedor. Porque mostra-nos não só a fragilidade da relação entre duas irmãs - e os seus pais -, mas também a dicotomia da interpretação perante as mesmas situações e comportamentos. E é essa fragilidade que nos toca, atendendo a que humaniza a descrição dos acontecimentos e das emoções. No entanto, à medida que avançamos na leitura, há um medo que se manifesta, porque as hipóteses que vamos formulando, com o intuito de compreendermos os contornos, pesam-nos e inquietam-nos. Porque há questões mal resolvidas e silêncios que escondem traumas.
«Os olhos que deveriam chamar-me e não me chamam, que deveriam
procurar-me e não me procuram, que deveriam abraçar-me e não me abraçam»
O discurso alternado é a maior prova que existem sempre várias versões da mesma história, mas não deixa de ser desconcertante o abismo entre todas elas. Além disso, orienta-nos para realidades complexas, para contextos disfuncionais e para o quanto o viver de aparências ainda tem poder; ainda é aceitável. E são estas camadas que tanto no fazem refletir e estar atentos a sinais que desconstruam o que se expõe à nossa frente. Portanto, neste enredo, fica claro que ninguém é intocável, que todas as fachadas quebram e que carregamos fantasmas.
«E quanto ao cinismo, reconhecerás que é um atributo de família
que todos, mas todos, nos temos esforçado muitíssimo por apurar!»
Brincadeiras de Irmãs oscila entre o amor e a raiva, entre o medo e a culpa, entre a vingança e o perdão. Focando a distância emocional, porque há um passado obscuro doloroso, divide-se pela família, pela sociedade e pela política. Nem todas as brincadeiras são inocentes e há omissões que têm repercussões nefastas. Mas, embora seja uma narrativa revoltante, há uma hora em que o amor fala mais alto, dando voz a tudo o que se foi calando. Por medo, por inveja, por desconhecimento. Assim, este livro é uma homenagem e um alerta para combater atitudes abusadoras, que se escondem em falsas promessas.
«E juro que, ao vê-la nessa solidão e nesse
desamparo, quase me apeteceu abraçá-la»
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