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| Fotografia da minha autoria |
«As vidas de um grupo de pessoas que vive debaixo do mau tempo»
Gatilhos: Morte, Suicídio
O primeiro livro que li do Afonso Cruz foi A Boneca de Kokoschka. Embora não referencie este título quando me perguntam qual a melhor obra para o descobrir, sinto que foi um ótimo ponto de partida, porque houve algo no seu estilo que me desarmou. A partir desse momento, assumi o compromisso de ler tudo da sua autoria.
ABAIXO DA LINHA MÍNIMA DA DIGNIDADE
O Cultivo de Flores de Plástico é um livro de 2013, em edição limitada e numerada, cujas receitas revertiam para a associação CASA. Descobri a sua existência demasiado tarde, portanto, andava há anos para o encontrar. Quando já começava a perder a esperança, encontrei-o na Trade Stories e, agora que o li, valeu completamente a espera. Felizmente, foi reeditado pela Companhia das Letras e poderá chegar a mais leitores.
«Há muitas portas no mundo, mas prefiro olhar-lhes para dentro das janelas»
O texto é belíssimo, com diálogos simples, mas sem serem simplistas, abrindo portas (ou janelas) para inúmeras camadas. Através destas conversas, percebemos que há pessoas que se tornam invisíveis, como se existissem cidadãos de primeira ou de segunda classe. Além disso, percebemos o quanto é ténue a linha que separa uma vida confortável de uma vida de miséria, a facilidade com que a nossa realidade muda, deixando-nos sem chão. No fundo, este livro mostra-nos que basta um passo em falso para transpormos essa fronteira.
«(...) somos sozinhos como os desertos, mas então. Cheios de céu aberto,
pessoas cheias de ar livre. É assim. Há muitas portas no mundo»
Tecendo uma crítica ao consumismo, ao individualismo, à desigualdade, ao lado artificial da nossa existência e, inclusive, aos estereótipos sociais, acompanhamos quatro personagens tão distintas entre si, mas que partilham o facto de serem sem-abrigo. E é interessante ver como cada uma delas luta pela sua sobrevivência.
«É uma linha muito fina, não é?»
O Cultivo de Flores de Plástico é um exercício de empatia, para aprendermos a olhar o outro sem indiferença.
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