Zozô parecia sempre distraído e esse era seu jeito de estar atento Sibélia Zanon Zozô vivia feliz para sempre nadando em lagos, rios e igarapés. Pantaneiro de escama e coração, depois do almoço gostava de descansar em barrancos banhados de sol. O calor na pele dura forjava sua couraça de verdes fechados e casuais listas de verão. Zozô parecia sempre distraído e esse era seu jeito de estar atento, ginga de se fazer desapercebido e saciar a fome com seus bocados de peixe. Quando anoitecia, Zozô tinha gosto por perder-se no brilho das águas. Fazia do alagado um espelho estrelado ao abrir seus olhos amarelos de sol. Na penumbra, Zozô só via vantagem. Com a vista assertiva, imprimia grande velocidade em suas manobras de exímio caçador. Tudo ia muito bem para Zozô e seus amigos. Porém, fogos depois, desatinos depois, devastações depois… o peixe já se tornava raro, os alagados demasiado rasos e a paz se escoava do chão de Zozô. Ele pensava em se mudar. Talvez Miami. Talvez Cuba. Pesquisava novos lugares, um banhado gentil, o calor do sol e a ternura de um rio. Até que uma peste rara, com alto poder de transmissão, começou a ameaçar a sua espécie e a de outros conterrâneos seus. Já não havia êxito em imaginar rotas de fuga e Zozô tentava se proteger como podia. Depois de uns dias, seus amigos começaram a noticiar a chegada de uma vacina que seria a salvação. Havia, contudo, um risco. Ao tomar a vacina, Zozô poderia virar gente e isso era assustador… a mais pesada das metamorfoses. Zozô tinha muito medo. E se ele se tornasse um humano incendiário, terraplanista, agropecuarista? E se tivesse problemas de lateralidade? Ora iria para a direita, depois titubearia para a esquerda e por fim seria atropelado por um trânsito interminável de desideias irracionais. Zozô tinha medo de ter a lua em câncer e de não sobreviver à revolução da Era de Aquário. Zozô tinha medo de perder a visão noturna. Com tanta escuridão nessas terras, como seria enxergar com olhos humanos? Ou seriam tais olhos desumanos? Porque do ponto de vista de Zozô, a escuridão se calava quando ele acendia o lago e as estrelas se faziam cadentes. Com os olhos aguados, Zozô tomou sua decisão. Ele não se arriscaria. Se preciso fosse, morreria feliz para sempre. Sibélia Zanon é jornalista e escritora, autora de Espiando pela fresta.