Estive muito ocupado nos últimos tempos e com dificuldades para atualizar o blog com meus textos, que continuam saindo por aí. Mas agora a situação está mais calma e vou postar as novidades.
Na coluna que escrevi para o Medium da Dublinense em 31 de maio, eu tratei da minha dificuldade crônica em escrever minibiografias. Cada vez que preciso fazer uma auto-apresentação é um indizível sofrimento – até por não saber direito o que sou.
Mas também aproveitei para contar algumas dúvidas que tenho quando preciso me descrever; falei do Super Homem em “O Cavaleiro das Trevas”, da minibio de Daenerys Targaryen, de Edgar Degas se aproximando da obra como se fosse um assassino e fiz uma leve brincadeira com Descartes; falei do motivo engraçado pelo qual Gabriel García Márquez começou a escrever e também de Rainer Maria Rilke explicando quando e por qual motivo alguém deve contar uma história; falei de escritores como encantadores de cobras e encerrei com a melhor – e mais curta – minibio que eu poderia fazer a meu respeito e que, infelizmente, nunca será possível.
Boa leitura!
A arte de se apresentar ao público
A essa altura do campeonato, é fato quase de domínio público a minha dificuldade crônica em escrever textos de auto-apresentação ou minibiografias. Infelizmente também, para meu azar, é algo exigido em todos os eventos. As pessoas possuem o direito de saber quem vai lhes falar e, assim, uma das primeiras determinações em qualquer lugar é “por favor, envie-nos uma minibio de, no máximo, cinco linhas”. Mal suspeitam os organizadores que passarei dias, talvez semanas, torturando-me sobre o que devo escrever a guisa de apresentação. Serão as cinco linhas – um latifúndio enorme de espaço a ser preenchido – mais excruciantes que escreverei, as que sairão com maior dificuldade e cuidado. Até hoje não escrevi uma minibio decente sequer, e os convites continuam chegando, e em todos eles é gentilmente solicitado um parágrafo de apresentação, e toda vez eu suspiro e penso “oh, não”.
Quem sou eu? Se eu próprio não consigo me conceituar, como posso descrever-me para outras pessoas sem ser um impostor? Todas as definições parecem insuficientes. Tenho real inveja das pessoas que são capazes de se descrever com algumas poucas palavras.

Em geral, o começo da minibio é fácil, pois coloco o meu nome. As dificuldades começam a seguir: devo inserir a idade? Informar quantos anos tenho é algo importante para quem? Afinal, conheço muitos jovens sábios e muitos idosos infantis. Devo inserir meu gênero? Parece meio óbvio para quem estiver na plateia que pertenço ao gênero masculino e, além disso, qual diferença faria tal informação? Devo informar a minha profissão? Normalmente, tal informação só faz crescer a consternação do público, que se pergunta como diabos um advogado veio parar em uma palestra literária. O mesmo acontece com o público do Direito, quando informo que sou mestre em Letras e doutorando em Escrita Criativa: é possível ver os olhares trocados, no melhor estilo “o que este cara está fazendo aí?”. Consigo a proeza de ser uma estranheza em todos os meios por onde me desloco. Além disso, o fato de ser uma criatura dicotômica faz surgir a primeira pergunta de quase todos os eventos: como você faz para conciliar o Direito com a Literatura? Outra pergunta de difícil resposta, pois não tenho a mínima ideia de como consigo.
Mais dúvidas surgem no momento de mencionar a minha obra e a formação acadêmica: qual livro seria aconselhável destacar? Devo mencionar os cursos que realizei, ou os trabalhos mais importantes publicados? Isso sem contar as questões de estilo. O tom será engraçado ou sóbrio? Preciso passar a informação técnica ou adoçá-la com um pouco de criatividade? Posso ser espirituoso ou a espirituosidade é algo imprudente? São cinco linhas a serem preenchidas, mas elas estão repletas de questões quase existenciais. Nesse momento, penso na extraordinária sorte de Daenerys Targaryen, de “As crônicas de gelo e fogo”, de George R. R. Martin (li o primeiro livro em espanhol, ainda antes dele virar a minissérie “Game of Thrones” da HBO, e tenho dificuldades até hoje de identificar a série toda pelo nome do primeiro volume), capaz de preencher quase a totalidade das cinco linhas de uma minibio com o seu nome: “Daenerys Targaryen, Filha da Tormenta, a Não Queimada, Mãe de Dragões, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos, Khaleesi dos Dothraki, a Primeira de Seu Nome.”
A dificuldade de escrever minibios é ainda mais esdrúxula pelo fato de eu não ter bloqueios criativos. Melhor dito, não posso me dar ao luxo de ter um bloqueio: passo o dia inteiro escrevendo, seja na aula, no trabalho e nas horas de lazer. Nesses momentos, lembro de um pensamento do Super Homem em “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller, quando se colocou no caminho de uma bomba nuclear: “Milhões de pessoas morrerão se EU falhar”. É como me sinto acaso ficasse bloqueado. Tudo bem, é um pouco de exagero. No entanto, não posso sequer cogitar a ideia de um bloqueio, pois algumas dezenas de pessoas dependem dos meus escritos. Então, sem muita alternativa, eu escrevo. “Cogito, ergo sum scribere.”
O que traz à tona uma história engraçada de Gabriel García Márquez. Quando era estudante, García Márquez leu uma reportagem no suplemento literário do El Espectador, jornal de Bogotá. O texto, escrito por Eduardo Zalamea Borda, afirmava que a nova geração de escritores colombianos não tinha nada a acrescentar, que não existiam romancistas ou contistas cuja leitura valia à pena. Ao final da reportagem, o jornalista acrescentou que o suplemento literário só publicava escritores antigos da Colômbia pelo motivo do material dos novos autores ser muito ruim.

Indignado com o texto, “resolvido a calar a boca de Eduardo Zalamea Borda” (de quem, no futuro, se tornaria grande amigo), García Márquez voltou para casa e escreveu um conto, mandando para o jornalista. No domingo seguinte, ao abrir o suplemento literário, espantou-se ao ver a sua história em uma página inteira e, ao final, um breve mea culpa, em que Zalamea Borda afirmou que tinha se enganado e “evidentemente, com esse conto, surgia um gênio na literatura colombiana”.
A reação seguinte do escritor colombiano foi de preocupação: “Desta vez, sim, fiquei doente, e disse a mim mesmo ‘Onde é que fui me meter? E agora, o que é que eu faço para não deixar Eduardo Zalamea Borda mal?’ Continuar escrevendo – essa foi a resposta.Tinha sempre na minha mente o problema dos temas: era obrigado a procurar a história para consegui escrevê-la.”
É curioso pensar que García Márquez só continuou escrevendo para não decepcionar a confiança que lhe tinha sido concedida por um jornalista. Acabou se tornando um dos escritores mais lidos do mundo, ganhou muitas honrarias (entre elas o Nobel de Literatura) e teve uma longa e profícua carreira, mas, no momento em que lembrou quando começou a escrever, destacou o motivo mais simples de todos – não deixar outra pessoa passar vergonha.
Existe algo de vergonhoso em ser escritor, e isso talvez acabe se refletindo na minha dificuldade em escrever minibios. Tenho extrema desconfiança sobre pessoas que chegam em um ambiente e se identificam como escritor ou escritora. Em primeiro lugar, por não ser a qualificação indicada para alguém que escreve. Não somos escritores, estamos escrevendo. Estamos sempre em movimento criativo, com a história em constante evolução e leves digressões no gráfico da existência, momento em que algumas tramas se libertam dos corpos humanos que as sustentam e acabam se tornando livros. Não somos o que fazemos, mas aquilo que fazemos é parte da nossa essência.
Em segundo lugar, quem realmente escreve sabe que não existe muita honra em chafurdar no pântano das sensações humanas. É por saber disso que o pintor Edgar Degas afirmou que o artista deve se aproximar da sua obra como um criminoso chega perto da vítima. Escrever é chegar muito perto daquilo que temos de pior e, assim como não se faz omelete sem quebrar ovos, não existe como escrever sem sujar as mãos com a ignomínia dos nossos piores pensamentos e desejos. Não foram poucas vezes em que me identifiquei como “estudante” (não somos todos estudantes durante a vida, em uma lição que nunca acaba?) para evitar o título de “escritor”.
Não há nada de especial em se identificar como escritor, a não ser que a pessoa se ache melhor do que as outras – ou queira ser soterrada por uma avalanche de histórias alheias. García Márquez também tinha essa relutância com o ofício de escrever: “Sempre acreditei, contra outras opiniões muito respeitáveis, que nós, escritores, não viemos ao mundo para sermos coroados, e muitos de vocês sabem que toda homenagem pública é um princípio de embalsamento. Sempre acreditei, enfim, que nós, escritores, não somos escritores por nossos próprios méritos, e sim pela desgraça de não conseguirmos ser outra coisa na vida, e que nosso trabalho solitário não deve merecer mais recompensas nem mais privilégios que os que merece o sapateiro por fazer seus sapatos.”
Fazer uma minibio é escancarar a dura realidade: escrevo e, por conseguinte, sou um escritor. Quando a aura de maravilha se estabelece entre o público – temos um autor no recinto! –, eu me apresso a desfazer tal imagem. Digo que qualquer pessoa capaz de criar uma história é escritor, lançar um livro não é algo determinante, alguns dos escritores mais felizes que conheci se limitavam a contar histórias sem a necessidade de publicá-las. Tudo em vão.
No curto espaço de cinco linhas de uma auto-apresentação, é impossível explicar que escrever é algo orgânico, não uma função bafejada pelas Musas e muito menos uma profissão da qual devemos tirar o sustento. Foi Rainer Maria Rilke quem, nas “Cartas a um Jovem Poeta”, sintetizou a mais importante das questões para definir quem deve escrever e quem é melhor que não faça isto:
“O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer nesse momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar – ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: ‘sou mesmo forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão.”
Escrever é pura pressão – as histórias que estão dentro de uma pessoa acotovelando-se como cobras, ansiosas para conhecer a liberdade dentro das páginas de um livro e travar contato com outras imaginações, germinando, assim, novas cobras em cabeças alheias. Sou um encantador de cobras, usando palavras como se fossem a melodia hipnotizante de uma flauta, tudo para pacificar o mar revolto de guizos, chocalhos e sons sibilantes que me habita e tenta vir à luz todo santo dia.

Não existe maneira de conter tal definição de literatura nos limites estreitos de uma minibio. Portanto, continuarei imerso em desconforto a cada vez que for palestrar e me pedirem um pequeno texto de apresentação. Continuarei me sentindo a pessoa mais indecisa do mundo. Continuarei recebendo mensagens apavoradas dos organizadores, “Gustavo, precisamos urgentemente da tua minibio”. A necessidade de catalogação e identificação de alguém acaba por desprezar a realidade. Para mim, só existe uma qualificação de verdade, algo que contém todas as facetas da minha personalidade no seu interior, a minibio ideal: “Eu sou o Gustavo, e sou um leitor”. Eis a maneira com que me identificarei assim que chegar nos portões do outro mundo, pois é tudo o que precisam saber a meu respeito.
Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-arte-de-se-apresentar-ao-p%C3%BAblico-2edca9a09d43#.cicffhynj