A primavera floresce no outono
natureza, introspecção, mudança, esperança, estações do ano
O Sol tranquilo dos tempos de seca/Acervo da Autora Qualquer coisa que se diz lá dentro gera enorme repercussão. Ecoooo. Sibélia Zanon* No outono, algumas flores se pensam primavera. Pela janela, vejo a buganvília (Bougainvillea spectabilis) florindo loucamente. No hemisfério norte, essa desordem jamais ocorreria. Lá, as folhas estariam coloridas, sim, mas em processo de despir árvores e não de cobri-las. Do lado de cá, as estações são alheias às certezas. A tarde perde seus graus em queda livre e algumas árvores perdem suas folhas. Ainda assim, o broto não se sente impedido. Por dentro de mim as estações também se misturam. Enquanto uma ilusão morre, qualquer coisa brota em seu lugar. A ideia do tronco desfolhado, que quase se confunde com ressecamento e morte, não me agrada. É excesso de vazio. E conviver com o espaço vazio é como entrar uma sala recém-reformada, sem móveis, sem tapete, sem cortina, sem pessoas, sem taças. Qualquer coisa que se diz lá dentro gera enorme repercussão. Ecoooo. E ficamos escutando, repetidamente, a própria voz. O outono do hemisfério de cá é mais recatado, menos despido, sugere introspecção, não chega a emudecer. Os pássaros persistem com a música no lugar da migração. É como se o eco na sala vazia não fosse sentido como incômodo, mas como oportunidade para repensar a posição da mobília. Rüdiger Dahlke, médico alemão, diz que a esperança não é a certeza de que as coisas darão certo, mas a certeza de existir um sentido, independentemente do desfecho. O outono se instala, mas o broto não se sente impedido. Se houver condições, floresce a primavera. *É jornalista, escritora e autora de Espiando pela Fresta
Texto originalmente publicado em Revista Fina