Contramão
geração anos 80, crise política brasileira, história, sociedade e tecnologia, nostalgia
Jason Lutes/Berlin Se estiver difícil de compreender este papo, basta fazer uma rápida pesquisa na internet que dá para tomar umas doses de vergonha alheia dos anos 1980. Cringe! Gustavo Nagib Desligar o despertador, abrir a janela e estender os braços para o lado de fora. É preciso sentir o vento e descobrir se há mau tempo. Acordar é a hora que mais dói. Mesmo se algo de pior ainda vier a acontecer ao longo do dia, foi tudo culpa de ter acordado. “Por que raios você foi abrir a droga dos seus olhos?”. Este parece ser um sintoma comum dos que nasceram na década de 1980. Talvez seja a frustação de nada ter adiantado pertencer a uma geração que se adaptou tão bem tanto ao orelhão de ficha quanto à internet banda larga. Ainda não há consenso se somos filhos da modernidade ou da hipermodernidade. Da fita cassete e do LP, rapidamente passamos pelo CD e aterrissamos no MP3. O mundo virtual surgiu conectado à nossa adolescência. Se estiver difícil de compreender este papo, basta fazer uma rápida pesquisa na internet que dá para tomar umas doses de vergonha alheia dos anos 1980. Cringe! Viemos ao mundo em meio à hiperinflação, ao terrível legado da ditadura, à Queda do Muro de Berlim e ao trágico resultado das eleições de 1989. Logo nos informaram que o romantismo também estava totalmente fora de moda. Mas aqueles tempos de preconceitos institucionalizados pareciam estar finalmente acabando. A democracia se consolidou e os progressistas puderam tirar suas ideias da gaveta. De repente, já estávamos estourando o champanhe para o tão aguardado século XXI. Em nossas primeiras eleições, com mais de 16 anos, materializávamos a esperança na urna eletrônica. “Não adianta permanecer de olhos fechados!”. Mau tempo: é 2021. Os resquícios de vegetação nativa voam na forma de fuligem, que perpassa a janela e pousa sobre a pele. Há quem sinta falta de ar. Há falta de água. Crise no setor energético. Alta dos combustíveis e alimentos. Desvalorização cambial recorde. Militares no governo. Violência policial. Invasão de terras indígenas. A repressão volta às casas, escolas e ruas. Crise entre os Poderes. Ressuscitam o voto em papel. Ameaças às próximas eleições. Percebe-se, então, que o tempo retrocedeu. Gatilho. Será que ainda nem chegamos na década de 1980?
Texto originalmente publicado em Revista Fina