Ligações? Jamais! As coitadas, hoje em dia, podem ser consideradas até um desrespeito – como assim me ligou sem me enviar uma mensagem antes para saber se eu estava disponível? – ou, no mínimo, um ato deselegante.

Maria Paula Curto*

Ele começou como um simples aparelho para fazer ligações. Geralmente coisas rápidas, simples avisos, uma mudança de itinerário, um “passo aí amanhã”, “você ficou bem?”, “soube o que aconteceu com o fulano?” ou a fatídica: “o chefe está chamando para uma reunião na sala dele às 18h. Não se atrase”. Tudo tinha que ser muito rápido mesmo, pois cada minuto nele custava uma verdadeira fortuna.

Era só aquele negócio apitar, tremer ou piscar, a gente já sabia: mais uma missão impossível no trabalho. Se não desse para fazer até sexta, tudo bem, o micro, também portátil, virou item essencial da mala do fim de semana, junto com escova de dentes e desodorante e pronto!. Foto: Reprodução/Casa e Jardim

Com o tempo, ele foi ganhando novas funcionalidades. Começou com o SMS, hoje tão abandonado, coitado, servindo quase que exclusivamente para confirmar senhas e abrir espaço para os golpistas da internet. O triste fim de Policarpo Quaresma. Depois veio a avalanche dos BlackBerrys, os dos engravatados. Era só aquele negócio apitar, tremer ou piscar, a gente já sabia: mais uma missão impossível no trabalho. Se não desse para fazer até sexta, tudo bem, o micro, também portátil, virou item essencial da mala do fim de semana, junto com escova de dentes e desodorante e pronto! Gráfico elaborado, apresentação em powerpoint pronta para a revisão do chefe. Em pleno domingo. E ele respondia geralmente no início da noite, pós a rodada do brasileirão, com aquelas revisões minúsculas, mas sempre cruciais, que apenas ele, o todo poderoso, conseguia enxergar. E sempre pelo tal Blackberry, pois ele não ia se dar ao trabalho de carregar o notebook para o resort no Nordeste, não é mesmo? E lá íamos nós novamente para a mesa de casa, mexendo freneticamente no mouse com os dedos engordurados pelos pedaços de muçarela com calabresa que se espalhavam, já frios, entre uma planilha e outra. E enquanto a mulher na TV saía linda da água, toda plena de si, nossa apresentação era desconstruída e novamente remontada para um resultado nada Fantástico. Confesso que não tenho saudades dessa época.

Depois, a tecnologia foi avançando, avançando e finalmente ele chegou. O smartphone da maçã. Com ele, um tal de WhatsApp que, definitivamente, mudou a vida de todos. Depois do “Zap”, ninguém mais se fala. Se não fossem as mensagens por áudio, teríamos esquecido as vozes dos nossos amigos, certeza. Não saberíamos mais distinguir soprano de contralto, tenor de baixo. O pior é que, infelizmente, essa substituição da fala pela mensagem escrita, não nos tornou escritores ou escreventes melhores. Absolutamente. Criamos foi uma nova linguagem, cheia de siglas e abreviações que só permitem entendimento para os iniciados. Ligações? Jamais! As coitadas, hoje em dia, podem ser consideradas até um desrespeito – como assim me ligou sem me enviar uma mensagem antes para saber se eu estava disponível? – ou, no mínimo, um ato deselegante.

O que era para ser um aparelho para fazer chamadas de qualquer lugar, sem necessidade de um fiozinho de Ariadne sequer, transformou-se em um objeto com mais utilidades do que as 1001 do antigo Bombril que, dizem agora, tem apenas 1000, já que não precisamos mais dele grudado nas antenas das antigas TVs analógicas da nossa infância. E quais seriam essas utilidades? Está preparado? Então, vou tentar resumir algumas delas. Dicionário, para todas as línguas, enciclopédia com fotos e filmes, máquina fotográfica, com zoom, filtros e o que mais você imaginar e com um adicional primoroso: álbum de fotografias on-line e real time, para compartilhar com família e amigos, mesmo que eles estejam no Japão! Fora as compras virtuais, aproveitando liquidações relâmpagos, sem sair de casa, nem enfrentar engarrafamento ou estacionamentos lotados, cinema, com filmes para baixar e assistir a qualquer hora, bibliotecas desde os clássicos até os mais recentes lançamentos. Do mundo. Banco para pagar contas, aplicar, investir, controlar. Máquina de xerox, arquivo de documentos e tudo mais que sua criatividade permitir. Talvez a função menos utilizada seja aquela para a qual foi destinado: fazer ligações.

Fico pensando se essa coisa se expandir ainda mais com a tal inteligência artificial. Onde iremos parar? Tenho um certo receio. Minto. Na verdade, tenho pavor de que, num futuro próximo, a gente descubra que também nós, os humanos, passamos a ter tanta “utilidade”, que vamos deixar de fazer aquilo para o qual fomos originalmente destinados: Viver, simplesmente viver!

O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é img_4616-1.jpg

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP