ilustração de Ligia Zilbersztejn

Quero sentir o cheiro do perfume ou mesmo do desodorante vencido. Sim, faz parte. Gente de verdade sua.

Maria Paula Curto

Não sei quem disse que home office traria qualidade de vida. Qualidade de vida? Só se ficar 24 horas conectado a uma tela de computador for qualidade de vida. Francamente, acho que nem para os millenials isso é verdade, que dirá então para uma senhora da geração X. Aff, sinceramente, dou conta disso não. Tem dia que eu quase tenho que recorrer ao fraldão geriátrico, pois nem uma mísera pausa, para um mero xixizinho, eu tenho direito. Credo! Não foi assim que me venderam essa ideia. De jeito nenhum.

Me disseram é que eu teria liberdade. Liberdade? Só se for de escolher entre um fundo de tela de praia ou de montanha, para evitar que percebam que há infiltração na parede ou que a capa do sofá já se foi faz tempo. Essa história de que o home office nos deixaria livres para cada um de nós ter o controle da sua própria agenda (e da sua vida?) e eliminar o tempo de deslocamento de casa até o maldito escritório da empresa é uma grande balela. Todo o tempo que ganhamos com o “não deslocamento” foi imediatamente preenchido por 20 reuniões. Então, o que seria “libertador” foi mais uma linda algema para aqueles que precisam continuar a pagar os seus boletos.

E com agravantes. Pois ainda diziam que o home office traria uma maior proximidade com a família, os filhos, a comunidade e até mesmo com os pets da casa. Será? Não sei vocês, mas tentar conduzir um workshop on-line com o cachorro latindo, o vizinho que resolveu quebrar um quarto para transformar em escritório, uma filha na aula de kumon no tablet e a outra com o liquidificador ligado para o suco verde do dia, é tarefa para Hércules se perguntar por que ele teve somente aqueles doze trabalhinhos tão simplezinhos… Fora que, já que você está em casa mesmo, as reuniões podem começar às 6h da manhã – principalmente se seu chefe ou cliente vive em outro continente – e não tem hora para acabar. Por que a reunião teria fim? Você não precisa voltar para casa, precisa? 

E o corpo? Esse, coitado, sofre calado. A coluna já pediu arrego faz tempo. E mesmo com todo investimento em cadeiras ergonomicamente desenhadas e astronomicamente caras, não há bunda que aguente reuniões seguidas das 9h até às 19h! E como não precisamos mais nos deslocar entre uma sala e outra ou até entre um prédio e outro, o sedentarismo e as dores – lombares, cervicais, ciáticas – vieram para ficar. Sem falar no armazenamento de gases (experimente comer uma feijoada entre as 25 reuniões do dia) que devem provocar um efeito estufa bem pior do que os desodorantes em aerossol pelos próximos vinte anos.

Mas talvez o que mais me incomode nessa história toda seja a mistura entre a pessoa física e a jurídica. Parece que eu perdi a identidade. Até tentei separar um pouco os dois mundos, usando máquinas diferentes, uma para o trabalho, outra para o social, mas quando eu falei alô para o mouse ao mesmo tempo em que esfreguei o celular no tampo da mesa, com a expectativa de mudar de tela, percebi que algo estava muito errado. Ou seria eu que estava errada? Pode ser que essa mistura entre PF e PJ seja a minha melhor definição e eu nunca havia me dado conta disso.

Achava que ao chegar em casa e tirar os saltos e a calça de alfaiataria, eu voltava à minha essência. Tolinha. Não percebi que as amarras corporativas haviam penetrado a pele e desenhado o que eu era. Rabiscado o contorno, meio borrado, que me tornei. Tal como a cebola de Heidegger, sem todas as cascas e camadas, o que sobra em mim não é essência, mas somente um espaço vazio. E imensamente perturbador.

Vocês me perdoem a insanidade, mas eu estou morrendo de saudade de um escritório! De poder levantar e pegar um cafezinho na copa, conversar com o tio do café e aprender que o meu problema na planilha ou no atraso na implantação do projeto é pífio perto de tudo que esse senhor faz na vida, com um sorriso no rosto. Saudade de sair para um almoço com um amigo para desabafar sobre aquele colega que te deu uma bolada nas costas. Ou ainda de um bom happy hour para jogar conversa fora esperando o trânsito passar. Hoje, com a dupla pandemia + home office, se eu quiser bater papo, eu tenho que ligar a tela novamente e ainda mandar um link! Não! Mil vezes não! Eu quero ver gente. Gente de verdade. Não quero avatares em telas. Ou nos 42 quadradinhos do zoom. Quero olho no olho. Sem intermediário, sem corte, sem edição, sem Wi-fi. Eu quero tocar, quero abraçar. Quero cumprimentar com beijinho no rosto. Quero sentir o cheiro do perfume ou mesmo do desodorante vencido. Sim, faz parte. Gente de verdade sua. É humano, demasiadamente humano. Justamente o que a gente deixou de ser nesses tempos de aprisionamento tecnológico…

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.