Ligia Zilbersztejn

O orgulho dos telemarketings deveria ser objeto de estudo na Academia. Como baratas que sobrevivem à bomba atômica, eles sempre voltam para tentar ciscar algum fragmento de afeto ou contato humano.

Matheus Lopes Quirino

A vida não está fácil. Ela piorou muito de uns tempos pra cá. Antes, quando o telefone não parava de tocar, empresas de telefonia, vendas de revistas, pesquisas de satisfação, promoções inesperadas, golpes dissimulados, falsos sequestros, trotes benignos e remarcação da consulta no dentista eram praxe. Bons tempos, podia-se mandar para aquele lugar o atendente insistente. Como em muitos relacionamentos abusivos, o Telemarketing se enquadra em tal campo de ataque. Não é não. Mas moço ou moça entendiam isso?

Persistentes, chegavam a ligar três, cinco, dez vezes por dia. Pegávamos até gosto em escutar repetidas vezes a mesma fórmula milagrosa de um complexo vitamínico fajuto. Óleo de bacalhau, cálcio, zinco, cânfora, sal rosa do Himalaia, unguento, patas de dromedário, fígado de baleia, rabo de pavão, bico de papagaio. E a papagaiada não tinha fim, pois o emplasto anunciado oferecia variações diet, light, sem lactose, sem glúten, e por aí vai.

Para todos os gostos, tinha linha sênior, linha juvenil, lactante, entre outros. Com o passar dos anos, desenvolveram a linha vegana, a linha não binária, a linha vitamínica para negros, fabricada por e para afrodescendentes. Também há hoje pílulas contra o machismo, contra o feminismo, contra a militância, contra o Palmeiras, contra a televisão, contra o partido vermelho, azul, por aí vai. Ligações intermináveis, de mensagens que são e não automáticas, os atendentes repetem com a mesma satisfação estridente as receitas. E, se titubearem, voltam e, numa decoreba de dar inveja aos vestibulandos, com perfeição do começo ao fim, refazem já todo o trabalho para não restar uma vírgula de dúvida.

Eles precisam vender. Têm as informações, mas os melhores jogam às cegas. Toca o telefone, atendo. Querem falar com a Ivanilda. Há anos procuram a Ivanilda na minha linha, motivo esse que quase me empenhou em fazer eu mesmo uma investigação particular para achar a mulher e, enfim, entregar aos atendentes. “Alô, é a Ivanilda?”, mais uma vez nego. Para minha surpresam nesta única ocasião, a voz do outro lado pergunta: “Mas você tem certeza que não é a Ivanilda?”.

Como nas paqueras não presenciais, falar um não por telefone é fácil. “Não, não vou querer por gentileza”. E a gentileza vai se esgotando até acabar, até não restar nada a não ser a selvageria propriamente dita. “Fedaputa, para de me ligar!”, manda, em alto e bom tom, ao espaço via fio telefônico, quando é descarregada toda ira de alguém que só queria tomar seu café da manhã em paz, mas foi interrompido pelo cara da Operadora.

A vida é bela, pensam os atendentes, quando alguém não bate o telefone no gancho logo de cara, e, mesmo lacônico, ou onomatopeico (umhum, ãrram, ãnnnn) se escuta com paciência (às vezes) a mensagem que chega ali, aos ouvidos. É uma espécie de narcisismo consensual, para dar aos tímpanos o sabor da oferta, mesmo que inútil, e o poder de recusa, com ou sem grosseiras.  Do outro lado, tem-se a certeza de que alguém caiu na cilada. A bem da verdade, quem precisa de Óleo de Fígado de Bacalhau, se os não os próprios bacalhaus no mar em Portugal?

Mas tem gente que gosta de ir até o final, só para recusar o serviço. É um prazer sádico, do mesmo departamento dos sedutores que cozinham, cozinham, cozinham e não comem. Experiências gastronômicas à parte, ficou démodé essa coisa blasé de levar até o fim uma pobre alma do outro lado da linha, para cuspir no prato depois um “não tô afim”. As desculpas variam, de falta de dinheiro a desinteresse puro. Seria uma espécie de problema mental deixar seja lá quem esteja do outro lado da linha com o gogó duro de tanto explicar o beabá da bugiganga mega utilitária para o dia-dia? É maldade pura. E não há o que fazer se não agradecer e, quem sabe, ligar outra vez depois de muitos outros nãos. O orgulho dos telemarketings deveria ser objeto de estudo na Academia. Como baratas que sobrevivem à bomba atômica, eles sempre voltam para tentar ciscar algum fragmento de afeto ou contato humano. Melhor ainda se rolar um contrato devidamente assinado.

E há muitas formar de dispensar o indispensável. Só não há como evitar o inevitável, que, cedo ou tarde, pegará a todos, com ou sem telefone no ato. Dia desses ligou um número de São Paulo cuja mensagem automática era a seguinte: “Morra sem burocracia, com o plano funerário @@@ você e sua família podem desde já se despreocupar”. Não que a preocupação surgisse ali, de repente, ela já existe, 24×7, latente na cabeça de um hipocondríaco. Desliguei sem ouvir o restante do moço gravado do plano funerário, conhecendo-me, para não cometer a besteira de ponderar se o jazigo em promoção, com as melhores condições é vista invejável, vale a pena.

Por sorte, ou juízo, mesmo com as melhores intenções e preço camarada, estou numa altura da vida em que outras prioridades ocupam meu exíguo ordenado. Burocracias? Prefiro a dos Correios, Banco do Brasil, a burocracia da Universidade, do SUS, da Caixa Econômica, do cartão de crédito, dos clubes literários, das viagens de avião, dos Teds, Docs, dos relatórios acadêmicos, da espera na fila do dentista. Não ligo que se arraste por boas décadas uma burocracia ligada ao plano funerário. A morte pode esperar, essa idosa paciente, quando tudo corre bem. Não há pressa do outro lado da linha, mesmo que vira e mexe me queixe disso que chamo de vida. Confesso que gosto, mesmo tendo entrado nela de cabeça (literalmente) com três meses de antecipação, nasci prematuro. Como a minha vinda a esse mundo foi tão expressa quando uma entrega da Amazon, espero que para a partida tenha de lidar com uma burocracia tremenda, exercitando mais uma vez a paciência, mesmo que precise ficar horas a fio escutando música de elevador. Quando for apertar o botão para o andar de cima, ou de baixo, já no outro plano, espero que o elevador emperre e que demore vir assistência angelical. Antes, que tal resolver tomar a pílula de óleo de fígado de bacalhau. Vai quê?