
Uma das principais bandeiras do governo Bolsonaro e motor de propulsão nas eleições de 2018 cai por terra: o governo está envolvido em esquemas de corrupção nas compras de vacinas em uma pandemia que já matou mais de meio milhão
Isabella Marzolla
Nas marcantes eleições de 2018, o atual Presidente do Brasil se usou de diversos elementos – sem citar todos ou analisar com afinco, pois caso fizesse a coluna viraria um livro – como o antipetismo (uma carona potente que muitos políticos embarcaram com sucesso), a pauta anticorrupção em geral, ser antiestablishment, repudiar a “velha política” e se pintar de “outsider”, além é claro, de vocalizar a extrema-direita antes silenciosa.
Hoje todas essas “máscaras” caíram, o governo Bolsonaro é recheado de contradições (rachadinhas e propinas) só não vê quem não quer, como os quase 30% do eleitorado que avalia o governo atual como ótimo ou bom.
Jair Bolsonaro, assim que começou a receber avaliações negativas pelos institutos de pesquisa logo no início da pandemia, se “vendeu” ao Centrão, concedendo cargos no executivo e repassando verbas públicas milionárias através de emendas parlamentares e pelo Orçamento Secreto aos políticos fisiológicos, o conhecido “tratoraço”. O Centrão manda na política e Bolsonaro aprendeu isso na prática em seu segundo ano de mandato. Portanto, ele se rendeu à “velha política” e gere um governo de coalizão, ele não é antiestalishement.
O Presidente também nunca foi um outsider, porque ele foi deputado do “baixo clero” por 27 anos. Mas o mais importante, talvez neste momento, é lembrar uma das principais marcas do Presidente na campanha eleitoral, em que ele se dizia um político limpo – como fez, ironicamente, Fernando Collor durante sua campanha eleitoral em que cravou “limpar o País da corrupção” e que “caçava marajás”.
Pois bem, um ano e meio e 530 mil mortes depois, cá estamos. O governo Bolsonaro e seu núcleo duro “das trevas” são acusados desde esquemas de rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ), passando por crimes de ódio e disseminação de fake news, desmatamento ilegal na mata Amazônica a omissões e negligência na gestão do Ministério da Saúde frente à pandemia, entre outros.
Mas o que mais impactou a opinião pública e que é de fácil compreensão para a população, tem sido o atual escândalo de corrupção envolvendo a compra de vacinas em uma pandemia letal. O caso das irregularidades no contrato da compra de vacinas da Covaxin, expostos por meio de uma denúncia e depois em depoimento à CPI, pela dupla atrapalhada dos irmãos Miranda.
No dia seguinte veio o PM da ativa de Minas Gerais, Luiz Paulo Dominghetti, que também é representante da Davati Medical Supply e oferecia 400 milhões de doses da Astrazeneca. Dominghetti relatou à repórter da Folha de S. Paulo propina de US$ 1 por dose de vacina em uma negociação com o Ministério da Saúde composto por militares trapalhões e supostamente corruptos em uma reunião em um restaurante em um shopping em Brasília. Presentes na reunião estavam Roberto Dias, servidor recém-exonerado da pasta, o diretor de Imunização, Lauricio Monteiro Cruz, e Elcio Franco, ex-secretário do Ministério da Saúde.
Na CPI o PM apontou o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF) como o possível negociador das vacinas sem provas concretas ou coerentes. O depoimento de Dominghetti foi para maioria dos senadores da Comissão uma cortina de fumaça e o PM/revendedor de vacinas, uma suposta testemunha implantada pelo próprio governo para desmoralizar o depoimento dos irmãos Miranda na CPI.
Hipocrisia, falso moralismo, deslealdade. Será que uma parcela da base fiel bolsonarista se sente traída pelo seu Presidente? Será que eles perceberam que podem ter caído no “golpe” do ex-militar rebelde? É preciso ter muita cautela no emprego da palavra “golpe”, os bolsonaristas adoram a ideia. A parcela que apoiava o Presidente pela bandeira moralista e anticorrupção, pode ter se abalado um pouco.
Os graves erros administrativos do governo Bolsonaro ocorrem em quase todas as frentes e Ministérios. Paulo Guedes enganou o mercado financeiro como enganou a si mesmo. O Estado brasileiro não se tornou mínimo e pouco foi privatizado, o contrário do que o plano ultraliberal de Guedes previa. A taxa de desemprego chega a 14,8%, o Brasil tem um altíssimo número de desalentados e pessoas passando fome.
O surrealismo cinematográfico brasileiro é verdadeiramente merecedor de um Oscar de melhor roteiro. Quem sabe até ganhemos nas categorias de melhor comédia ou drama, dependendo da maneira pela qual você costuma encarar a realidade. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito pegando fogo em plena pandemia, com um país em crise econômica, crise social e de valores, fervendo pelas eleições de 2022 com manifestações nas ruas.
Até quando o Centrão vai se vender ao Presidente, por quanto tempo se sujeitarão ao pior Presidente da História desde a redemocratização?
Publicado por Isabella Marzolla
É jornalista, escreve no blog Inconsciente Coletivo, hospedado na home do Estadão. Escreve semanalmente na Fina. Twitter: @IsaMarzolla Ver todos os posts de Isabella Marzolla