noll

“…NEM O MEU PASSADO, NÃO, NÃO QUEIRA ME SABER ATÉ AQUI, DIGAMOS QUE TUDO COMEÇA NESTE INSTANTE ONDE ME ABSOLVO DE TODA DOR JÁ TRANSPASSADA E SEM NENHUM RESSENTIMENTO TUDO COMEÇA A CONTAR DE AGORA, MESMO QUE SOBRE A BORRA QUE AINDA FISGA O MEU PRESENTE, NEM ESSA BORRA, NADA,…”

“…ME FERE ACEITAR QUE NÃO ESCONDO DE MIM NEM DE VÓS (QUEM SOIS,…E SOIS?…) O MEU TRAJETO CHEIO DE RECUOS, PARADAS, SÍNCOPES, ACELERAÇÕES, ANSEIOS FORA DO AR, ADMITO SER EXTRAVIO ÀS VEZES, INEXISTENTE ATÉ, QUEM SABE EXISTENTE MAS JÁ MORTO. RECORRO ÀS RUÍNAS DE UM ESPELHO QUE ENCONTRO PELO CHÃO, AINDA NÃO SOU O ANCIÃO QUE PRESUMO QUE MEREÇO, AINDA NÃO GALGUEI POR INTEIRO MINHA SUBMISSÃO AO TEMPO, AINDA NÃO DOBREI O SUFICIENTE MEU JOELHOS EM ADORAÇÃO AO MISTÉRIO VIVO,…” (A fúria do Corpo, 1981)

“Diz que o problema é a perda do pensamento totalizante. Pergunto a João o que é o pensamento totalizante. Sinto João se impacientar além da conta. A bunda na ponta da cadeira,  morde a base do indicador como se quisesse arrancar o dedo. Começa a parecer as três mulheres de Boston… João abre a mão contra a lâmpada e diz que o pensamento totalizante é aquele que aspira à totalidade das instâncias humanas. Pergunto qual a garantia de se ter aspirado a mais instâncias do que o pensamento A ou B ou C. João responde que ando bebendo muito, que eu vá dormir que faz bem a um escritor desiludido…” (Bandoleiros. 1985)

  E eu alguma vez tinha aderido às coisas da terra? Senti um calafrio, como se uma nuvem tivesse passado por dentro do meu corpo, gelada e instantânea. Eu andara esses anos todos por aí, e que história pessoal eu poderia contar? Por essa geografia rarefeita quem tinha gerado comigo alguma memória duradoura? E sair pelo mar, pensei, para mim é tarde demais. Os meus músculos estavam combalidos, e o pior: eu me esquecera de exercitá-los. E a faina de um navio era mexer com cordas, mastros, máquinas escaldantes, ea você o tempo todo a conviver com toneladas, obrigado a vencer terríveis tempestades. Olhei o braço do garoto e imaginei o músculo que ele iria criar. Raciocinei se não era o caso de deixar aquele garoto seguir sozinho, ali, antes de atravessarmos a avenida à beira do cais eu deveria lhe dizer que tinha vindo a Porto Alegre para resolver uma questão muito urgente e que eu não poderia me atrasar. Ele talvez me olhasse sem entender que alguém pudesse resolver alguma questão muito urgente numa terça-feira de carnaval. É isso aí, falei: eu posso estar em Porto Alegre para me apresentar à polícia, ou quem sabe fugindo dela, eu posso estar aqui para fechar um negócio para hoje, ou recomeçar um amor da vida inteira, essas historias e muitas outras são plausíveis numa Terça-Feira Gorda porque a pausa é só aparente: a mão conspiradora continua a conspirar, assinam-se planos, selam-se afinidades eternas. O garoto respondeu que quando ele vier a Porto Alegre no futuro não terá uma única questão urgente a resolver. Por aqui estão todas resolvidas, ele completou. (Rastros do Verão. 1986)

Aproveitando a adaptação cinematográfica de HOTEL ATLÂNTICO, escrevo um pouco sobre João Gilberto Noll, um dos maiores escritores brasileiros. Tive o prazer de dar um curso no ano passado sobre obras “pós-modernas” (“Literatura Líquida”) e um dos romances abordados era Bandoleiros. Mas nunca escrevi nenhuma resenha sobre um livro dele, o que não deixa de ser estranho.

Então aqui vai:

      capa de hotel atlântico

(resenha publicada originalmente  em “A Tribuna”  de Santos, em 10 de novembro de 2009)

JOÃO GILBERTO NOLL E  “A GRAXA DIFÍCIL DE SAIR”

Suzana Amaral, que já fez duas marcantes (e difíceis) transposições da literatura para o cinema (A Hora da Estrela & Uma Vida em Segredo), mais uma vez demonstra gosto impecável na escolha de um livro, ao adaptar Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll.

Após um primeiro romance (A Fúria do Corpo, 1981) barroco, excessivo, transbordante, o notável escritor gaúcho, no texto seguinte (de 1985), Bandoleiros, surpreendeu com a linguagem seca, desidratada, sem a menor ênfase, estranhamente absorvente,  mostrando a trajetória de um narrador errante, que se envolvia em incidentes irrisórios (mesmo quando violentos)  e ao mesmo tempo claustrofóbicos e exasperantes. Essa tônica se manteve no livro seguinte, Rastros do Verão (1986) e chegou a um determinado clímax, justo em Hotel Atlântico, publicado há exatamente vinte anos.

Mais uma vez, temos um personagem que está em trânsito e vive precariamente: viaja sem bagagem, fica um dia ou dois numa espelunca qualquer, e parte, quando acicatado pela urgência do desespero (“Eu estou velho. Mal chegado aos quarenta, velho; mais adiante: Quando me vi com a passagem na mão me senti como que comprando a minha alforria. E me invadiu a sensação de uma liberdade demasiada. Como se eu não fosse dar conta sozinho”). Sabemos apenas que foi um ator pouco conhecido, e que agora só vai em frente, seja para onde for: “O que importava é que eu precisava continuar dando rumos à minha viagem.

O relato se inicia no Rio de Janeiro, depois segue numa viagem de ônibus para Florianópolis, no final da qual a passageira norte-americana com quem o ex-ator conversa (surgindo certa atração entre eles) aparece morta (ela se suicidou; aliás, o texto se inicia com um cadáver sendo retirado do hotel  em que ele se hospeda). Depois, ele pega uma carona, indo para o Rio Grande do Sul, acompanhando um noivo e seu futuro cunhado. Há uma farra num bordel de estrada, e então uma parada misteriosa, quando ele ouve Nélson (o cunhado) dizer a Léo (o noivo) que precisam assassinar aquele ator, uma testemunha. Do quê? Nunca saberemos, os acontecimentos de Hotel Atlântico, como tantos outros na obra de João Gilberto Noll, são incompletos, não são explicitadas as motivações dos outros, não conhecemos a cadeia dos fatos. Nem por isso, a habilidade mágica do autor de Harmada é menos eficiente em nos envolver, como se estivéssemos lendo uma narrativa em que tudo vai se completar de modo unívoco e convincente: mais radical do que Paul Auster, Noll nos mostra que o fortuito  quase sempre pode ser irreparável e irrevogável.

Fugindo dos seus assassinos, nosso herói vai parar num povoado, onde se abriga na casa do padre (só que não há padre). Enquanto lavam sua única roupa, ele veste uma batina velha e sai a passear pelas imediações, inclusive dando a extrema-unção a uma moradora local.

Deixando a região, e sendo colhido por uma tempestade, totalmente desamparado, ele literalmente desmonta num outro lugarejo  perdido nos cafundós gaúchos, Arraiol, e tem a sua perna amputada por um médico candidato a prefeito da cidade, cuja filha quer que o ex-ator agora mutilado a deflore. Desenvolve-se, a partir dái, uma relação de co-dependência com Sebastião, o enfermeiro que cuida dele e com o qual “foge” de Arraiol Pensei  o que seria de mim se Sebastião desaparecesse agora”.

Os dois vão para Porto Alegre e Sebastião deseja conhecer o mar. Aí aparece o Hotel Atlântico do título, o termo dessa jornada em que movimento e paralisia se alternam, e em que não veremos uma experiência de vida tornar-se coesa, discernível, ou seja, fazer sentido: “disse a Sebastião que um dia eu esperava entender por que foi que tudo aconteceu”. Esse dia nunca chegará, porque a morte, que poupou os narradores de Bandoleiros & Rastros do Verão  toma a dianteira (ou não, porque nada é certo efetivamente). Para no romance seguinte, O Quieto Animal da Esquina (1991), tudo recomeçar: “um caldo escuro escorrendo das minhas mãos debaixo da torneira, eu tinha perdido o emprego, me despedia daquela graxa difícil de sair…”