


(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de fevereiro de 2008)
“… escrevemos doravante, alegres, sobre ruínas…f ragmentos esparsos, colunas rompidas, sistemas falidos, cacos de linguagem…” (Alain Robbe-Grillet)
Alain Robbe-Grillet foi vítima da letal mania de reduzir uma pessoa a um repisado rótulo. “Um dos principais representantes do noveau roman”! Embora tenha escrito um ensaio polêmico, Por um novo romance (1963), e feito parte de um grupo de escritores da editora Minuit que se celebrizou com seus experimentos na renovação do gênero (repudiando o psicologismo que teria chegado ao limite com Marcel Proust, e também aquele estilo lapidar e cinzelado, característico da “alta” literatura francesa e consagrado por André Gide), o fato é que ter sido “um dos principais representantes do noveau roman” pouco tem a nos dizer. Há todo um fascínio próprio da época (uma das mais contestatórias de que se tem notícia), entretanto é provável que Robbe-Grillet, como outros autores em cuja permanência aposto (é o caso dos geniais Marguerite Duras e Claude Simon, e como esquecer dos dois belos romances de Michel Butor, L´emploi du temps- Inventário do tempo e A modificação, ou de A encenação, de Claude Ollier, ou ainda da misteriosa Nathalie Sarraute ?), fique melhor apartado do rótulo “consagrador”, que só incita mal entendidos ou simplesmente má vontade.
A princípio, fiquei fascinado com o Robbe-Grillet que escreveu o texto de O ano passado em Marienbad (1961), uma das obras-primas de Alain Resnais (talvez o cineasta mais apaixonante do cinema europeu, tirando Bergman), bem mais do que com o autor de La jalousie- O ciúme (1957) e La maison de rendez-vouz/Encontro em Hong Kong (1965), embora tivesse achado esses dois romances extremamente bem engendrados:
“O parque desse hotel era uma espécie de jardim à francesa, sem árvores, sem flores, sem nenhuma vegetação… O cascalho, a pedra, o mármore, a linha reta, marcavam nele espaços rígidos, superfícies sem mistério. Parecia, à primeira vista, impossível alguém se perder nele… à primeira vista… ao longo das alamedas retilíneas, entre as estátuas de gestos estáticos e as lajes de granito, onde você já estava quase perdida, para sempre, na noite tranqüila, sozinho comigo.”


No universo francês cartesiano, tão certinho e límpido, de repente era possível perder-se. Aliás, na obra de Robbe-Grillet (que, seja dita a verdade, conheço relativamente pouco, apenas cinco livros), sempre houve um gosto pelo trompe-l´oeil (aquele tipo de pintura que procura, a um só tempo nos convencer de que é real, e fazer saber que não passa de um efeito ilusório), como a quinta Triste-le-Roy, palco do clímax de A morte e a bússola, de Jorge Luis Borges:
“Lönrot explorou a casa. Por antesalas e galerias saiu a pátios iguais e repetidas vezes ao mesmo pátio. Subiu por escadas poeirentas e antecâmaras circulares; infinitamente multiplicou-se em espelhos opostos; cansou-se de abrir ou entreabrir janelas que lhe revelavam, fora, o mesmo jardim desolado de várias alturas e vários ângulos… a casa lhe pareceu infinita e crescente…”[1]
Os dois únicos textos do autor francês que, salvo engano, foram publicados no Brasil na última década, Os últimos dias de Corinto(Sulina) e A retomada (Record), reafirmam esse aspecto de forma insistente. São excêntricos e brilhantes, apesar da irritante auto-referencialidade que parece ser um mal francês já que a obra de Marguerite Duras é toda assim também.


A retomada é o livro de virada do milênio de Robbe-Grillet. Apareceu em 2001 e representa, tal como Atonement- Reparação, de Ian McEwan (publicado na mesma época), um elogio da ficção, essa “loucura fabulatória ativa”. O título nacional é muito mal escolhido, aclimata muito mal oLa reprise original, com seu sentido de reapresentação de espetáculo, de “vale a pena ver de novo”:
“Henri Robin tem agora, em todo caso, uma certeza: está de volta ao seu quarto de hotel, e foi lá que passou o final de uma noite agitada. Entretanto, embora tenha consciência de haver regressado muito tarde, não lembra de ter pedido para ser acordado a nenhuma hora… Aliás, pode-se dizer que a noção de tempo, exata ou mesmo aproximada, perdeu toda importância para ele, talvez porque sua missão especial tenha sido suspensa, ou então depois de ter submergido na contemplação do quadro de guerra pendurado naquele quarto infantil… De fato, a partir da espécie de deriva mental causada por aquela abertura duplamente cega, murada com um trompe-l´oeil, pleno de uma significação ausente, os acontecimentos dessa noite lhe produzem uma desagradável impressão de incoerência, ao mesmo tempo causal e cronológica, uma sucessão de episódios que parecem não ter outros laços senão os da contigüidade (o que não permite dar a eles uma posição definitiva)…”
Hoje que escrevo esse artigo-preito lamento (e olha que eu o possuo há vinte anos) não ter lido Le gommes- Entre dois tiros, seu primeiro romance publicado, em 1953, porque A retomada parece ser a “reprise” da trama daquele livro, inclusive repetindo sua estrutura (prólogo, cinco capítulos correspondentes a cinco dias, epílogo) e sua trama edipiana. Portanto, há toda uma dimensão que eu perdi, ainda que isso não impeça a fruição de uma ótima narrativa a se desfiar, se destecer, se esboroar, progressivamente. Ao fim e ao cabo (exatamente de quê?), Henri Robin, que já lançara mão de vários nomes, adota a identidade e condição social do seu duplo? irmão?, o qual tentara matá-lo, por achar que os dois eram demais para a mesma história, e cujas notas à sua própria narrativa tentavam destruir sua credibilidade já precária.
A certa altura, dois policiais da dividida Berlim pós-guerra (e no início de um milênio, onde há ainda uma parte toda fracionada e ocupada da Europa, é muito pertinente esse fantasma de uma situação que definiu boa parte do século XX para a consciência ocidental), confrontam Robin com objetos encontrados na revista feita (sem que ele soubesse) em seu quarto de hotel: um sapato feminino de festa com a gáspea de escamas azuis cujo forro em couro de cabrito branco estava manchado de sangue; uma pistola automática Beretta nove mm; quatro cápsulas disparadas; uma bonequinha nua de celulóide cor de carne; uma calcinha de cetim com babados de renda, igualmente manchada de sangue; um frasquinho de vidro branco contendo um resto de líquido; um fragmento de uma taça de champanhe cuja ponta aguda apresentava marcas de sangue. Robin, então, pondera a respeito do frasquinho de vidro: “Este, na verdade, é o único elemento no heteróclito conteúdo da maleta que não me recorda nada”. Porque todos os outros aparecem e reaparecem, saindo do baralho de forma protéica, fazendo parte de situações diferentes que se anulam, se contradizem, ou se complementam de maneira a sempre deixar arestas: “Como era de se esperar, após o longo percurso naquele túnel profundo semi-alagado, estou agora na outra margem do canal sem saída, em frente à suntuosa mansão de múltiplas armadilhas, loja de bonecas, ninho de agentes duplos, comércio de carne fresca, prisão, clínica…” Mais adiante: “Eu me preparava para responder com franqueza, hesitando porém quanto ao que tinha direito de revelar à polícia berlinense sobre a suposta missão, cada vez mais obscura, da qual progressivamente eu me tornava a vítima.”
Tênue trama (claro que pode ser “trompe-l`oeil”) amarra essa sucessão obscura de episódios mirabolantes: dois irmãos separados pela guerra e pela fuga da mãe da Alemanha (por ser judia, e não ter o apoio do marido, oficial em ascensão na Gestapo), se odeiam entre si e ao pai, a quem ambos assassinam (essa é a suposta missão de Henri Robin, ele chega a acreditar que a executou, mas quem a executa é o irmão); há ainda uma madrasta sedutora para apimentar a quizila e, comprovando sua “vocação de romancista perverso” (como nos diz em Os últimos dias de Corinto), uma ninfeta, Gigi; aos 14 anos amante de ambos, apesar de ser possivelmente filha do “duplo” de Robin, ou Ascher, homem das cinzas e das sombras.
O próprio artífice não se furta de aparecer para reiterar o caráter de ilusão fabricada:
“À esquerda e à direita deste vasto escritório de carvalho, cuja pomposa ornamentação napoleônica já descrevi em outros textos, cada vez mais invadido por todos os lados pelas insidiosas pilhas de papelório existencial que se acumula em estratos, ficam agora fechadas o dia inteiro as três janelas que dão para o parque, ao sul, ao norte e a oeste, a fim de não me dar conta do descalabro em que vivo após o furacão que devastou a Normandia logo depois do natal, marcando de maneira certamente inesquecível o final do século e a mítica passagem para o ano dois mil. A bela harmonia de folhagens, vales e relvados cede lugar a um pesadelo de que não se pode escapar, perto do qual parecem ridículos os estragos homéricos do tornado de 1987, já relatado por mim… Muitas vezes falei da alegre energia criadora que o homem precisa desenvolver para transformar em construções novas o mundo em ruínas. E eis que volto a este manuscrito após um ano poucos dias depois da destruição de uma parte considerável da minha vida, encontrando-me então em Berlim, após outro cataclismo, mais uma vez com outro nome, outros nomes, cumprindo um ofício de encomenda munido de diversos passaportes e de uma missão enigmática, sempre prestes a se dissolver, continuando porém a me debater com obstinação em meio a duplicações, aparições intangíveis e imagens recorrentes em espelhos que retornam.”
“Já relatado por mim”. É verdade, ele o relatou (“…o parque de Mesnil foi devastado por um furacão nunca visto, conforme a memória humana, em toda a Normandia e a Bretanha, desfiguradas desta vez em poucas horas”) em Os últimos dias de Corinto, o final de uma trilogia iniciada com O espelho que retorna e continuada por Angélique ou O encantamento, uma forma de autobiografia invadida pela ficção, e também pela memória (“consciente de sua própria impossibilidade constitutiva”) do próprio fazer literário, isto é, da fabricação dessa ficção. Temos mais um estrangeiro viajante e pedófilo, Henri de Corinto, mais meninas quase impúberes, e novamente um sapato de baile feminino aparecendo por toda parte (até na costa uruguaia; o Brasil também é cenário), mais duplos, mais bonecas que parecem vivas (ninfetas e bonecas…):
“… um relâmpago da memória, inapreensível, e talvez imaginário, Corinto tem a impressão muito viva de já ter visto em outro lugar esses sapatos de baile…” etc.
Já ao iniciar-se (“A carne das frases sempre ocupou, sem dúvida, um grande espaço no meu trabalho”), brinca-se com a produção anterior do autor, parodiando o célebre início de La maison de rendez-vous, “A carne das mulheres sempre ocupou lugar de relevo em meus sonhos”. E o livro todo vai nessa toada. É claro que eu não consegui “pegar” todas as referências, já que, como disse, conheço só algumas poucas obras. Porém, eu me diverti muito. E saí da leitura convicto de que, qualquer que seja o seu destino literário, o autor de Os últimos dias de Corinto não merece ser somente “um dos principais representantes do noveau roman”.
[1] “Lönrot exploró la casa. Por antecomedores y galerías salió a patios iguales y repetidas veces al mismo patio. Subió por escaleras polvorientas e antecámaras circulares; infinitamente se multiplicó en espejos opuestos; se cansó de abrir o entreabrir ventanas que le revelaban, afuera, el mismo desolado jardín desde varias alturas y varios ángulos… la casa le pareció infinita y creciente…”




