12/03/2010

Terminei hoje, por volta das 10h30m, “Recordações da Casa dos Mortos”.  Com a sensação do dever cumprido, foi assim que me senti ao terminá-lo. Mais uma obra e mais um lição que carregarei para a minha “cachola”. Lição que somente Dostoievski poderia ensinar. Lição que somente a leitura pode oferece.

Vários pontos são interessantíssimos no livro, contudo reservei um em especial, para você leitor. Leia com atenção:

“Nada há que irrite mais uma pessoa das camadas modestas do que se ver tratada sem consideração de espécie alguma. Há quem cuide que dando boa alimentação ao presidiário e o tratamento de acordo com o regulamento, tudo está bem. Isto também é um erro. Não há ninguém, seja lá quem for, e ocupe a mais ínfima categoria que ocupar, que não se ache no direito mais que instintivo de exigir consideração para com a sua dignidade humana, O detento sabe muito bem que é um presidiário, um delinqüente, qual a distancia que medeia entre ele e as autoridades; mas não há sevícias nem correntes que consigam fazê-lo se esquecer que é um homem. E já que é de fato um homem deve ser assim tratado. Deus meu! Um tratamento humano pode até devolver a condição humana mesmo àqueles que se esquivaram à centelha divina.Com estes “infelizes” então é que devemos ter mais caridade. Causar-lhes-á júbilo e salvação”.

Nessa última quarta, enquanto pegava o ônibus de volta para casa, presenciei uma cena que me fez recordar esse trecho do livro.

Enquanto subia os degraus do ônibus duas garotas me acompanharam. Maltrapilhas e sujas, elas tomara a frente de todos e sentaram-se nos bancos, sendo que a mais nova (uns 10 anos) próxima da janela, enquanto que a mais velha (aproximadamente 14 anos) ao lado do corredor. A menor olhou para mim e, vendo estava com um livro em mãos e com dificuldades para segurá-lo, pediu para levá-lo. Nesse instante percebi que as feições das pessoas mudaram, olhavam para mim e paras as duas meninas de maneira diferente e desconfiada, como que pensando: “esse rapaz deve estar louco dando o livro para essas pilantrinhas”. Exagero da minha parte ou não, sei que algo de ruim elas pensaram. Sei também que as garotas perceberam os olhares de desaprovação. Ficaram cabisbaixas, tristes e desconfiadas. No decorrer da nossa viagem as duas começaram a conversar sobre suas vidas e amigas. Fizeram gestos obscenos e falaram palavrões (O conhecido “dedo”, gesto que lembra o órgão genital masculino, além de palavrões como “caraio” e cabrunco); caluniavam o motorista, por realizar movimentos bruscos. Chegando ao terminal, elas desceram, e a menor me entregou o livro, nesse instante eu respondi (da mesma maneira que faria com qualquer pessoa): “Obrigado”.

Eu acreditei e agradeci. Acho que esses dois gestos simples foram suficientes para dar-lhes um pouco de respeito e humanidade (acho).

09/03/2010

É uma pena, mas o livro não é meu. Peguei-o na biblioteca da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Preciso comprá-lo. Pode ser em um sebo ou não.

Publicado pela Francisco Alves Editora, edição de 1982, que assim descreve o livro (original, não?):

“Recordações da Casa dos Mortos representa o início da fase madura – e genial – de Dostoiévski. Escrito depois de passar por circunstâncias trágicas, terríveis, é um livro mais vivido do que imaginado, mais testemunho pessoal do que ficção.”

Após a leitura de Os Irmãos Karamazov, Crime e Castigo, Notas de Subsolo e O jogador, finalmente voltei para o grande Dostoiévski. Lidos 10% do livro pude perceber o quão difícil é a leitura e entendimento dos seus textos. Mas isso é bom. Quanto maior a dificuldade, maior a concentração, e, consecutivamente, maior compreensão dos seus “geniosos” personagens. Como era esperado, estou vibrando com o livro. É cruel e vivo. Simplesmente apaixonante.