Assim como fiz no Romantismo, teço aqui algumas considerações sobre como reconstruir a presente escola literária. Percebi que estamos diante de um trabalho muito interessante porque uma releitura do Parnasianismo combinaria muito com nossa época em que também vivemos um preciosismo da imagem, as novas formas fixas etc

    O post é bem rápido porque penso eu que a próxima Roleta Russa e o post sobre a Belle Époque já servem como referências.

Preferência pelas formas fixas e versos regulares

Uma releitura tradicional consiste em compor sonetos alexandrinos. Passados mais de 100 anos, é possível, hoje, escrever em outras formas fixas, inclusive, formas fixas modernas. O contato com formas fixas pouco conhecidas é algo a ser descoberto para fazer uma releitura da Belle Époque.

Já imaginou a possibilidade de escrever um indriso alexandrino em características parnasianas, um FIB? Um sonetim? Eu tenho feito experimentações em indrisos e sonetos com versos de 14 sílabas com as cesuras da gaita galega (4ª, 7ª, 10ª e 14ª). Quem sabe você pode se dar ao luxo de escrever sua própria forma fixa!

Invista nas rimas ricas, cavalgamentos e particularidades métricas abordadas no texto sobre o Parnasianismo

Mitologia greco-romana e descritivismo

Muitos de nós possuímos uma devoção por mitologias fora do círculo clássico greco-romano, é interessante investir nas mitologias nórdica, egípcia, indiana e outras descrevendo personagens e fatos com uma reflexão no fim (chave de ouro)

Você deve conhecer o que está escrevendo, isto significa também estudar e ler as releituras já feitas, analisar a sonoridade dos nomes, a separação das sílabas...

Nas descrições, evite cores. Elas são mais comuns no Simbolismo. Prefira referências da origem do objeto estudado como “vaso do tempo dos deuses gregos”, “mulher das arenas romanas” etc , referências físicas e tudo que fuja do imaterial e espiritual, aspectos reservados para  a outra escola.

A arte pela arte

  A arte deve ser feita para a glória do próprio fazer artístico, a arte serve para a própria arte. Convido a relerem Quadro Artístico inserido no blog. Você pode escrever um poema sobre arte, a poesia dominando seus leitores, a metalinguagem.

Emoção contida

   A emoção deve ser discreta, nada de devaneios pelo passado greco-romano ou associar o vaso chinês à namorada. Escreva em terceira pessoa. Este primeiro passo pode ajudar a você se nortear. 

ALGUMAS  RELEITURAS

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A formiga

Percorre solitária o distante caminho,
em passos, trafegando... Ora, ela nunca enfada!
Pára. O destino é outro àquela caminhada,
afinal, achou um graveto para o ninho.

E segue, a luta agora é mais do que pesada,
lavanta, entre manobra, o peso em desalinho,
o corpo sofre, pois é tão pequenininho,
mas no levantamento aguenta tonelada!

Mais à frente, consegue ajuda para o encargo!
Já não sofre tanto e a velocidade aumenta.
E elas vão girando e levando em passo largo

o que seria para alguns uma tormenta!
Naquela agilidade... Ó! Que destino amargo,
o formigueiro não encontram, a pá cimenta!

Parnaíba, 18 de fevereiro de 2009.

DANIEL C. B. CIARLINI

CONTEMPLATIVO

Num lugar espectral reza um cartuxo,

Em silêncio sublime lá na cela...

Uma imagem tão simples e sem luxo:

Contemplar a Palavra santa e bela!

Entoa um canto nosso irmão capucho,

Irradiando a gélida capela...

Ícone que recrio e que o repuxo

Num soneto sem dor ou vil querela!

Os livros que viraram seu sacrário...

Segue lendo sonhando solitário,

Talvez tenha um passado assim lascivo...      

Contudo fica ali contemplativo,

Sem remorso ou sutil medo infortuno

O monge simples da Ordem de São Bruno.

Rommel Werneck

O RETORNO DOS DEUSES

Filipe Cavalcante

E num instante, tudo interrompido.

Tudo parou, calou-se, viu, ouviu...

Segundo antes de tudo acontecido...

Sentindo o espanto,

quem reagiu?

Calou-se o vento, as nuvens se quedaram,

o farfalhar das árvores parou.

Aves, leões, serpentes se aquietaram.

Cada animal

Observou

Aquietaram-se os mares revoltosos

e cessaram as ondas do oceano.

Os navegantes, meio temerosos,

sentiram algo

de sobre-humano

Nos campos e cidades a inquietude

da vida humana em louco movimento –

máquinas, força, gente – por virtude

do acontecido

cessa um momento.

E num relâmpago que não saído

havia de qualquer nuvem, o mundo

viu luz maior que o Sol. Foi tão comprido

de luz de glória

esse segundo!

E então veio o trovão, e aquele estrondo

se ouviu por todo o mundo – céus e terras.

Soou mais do que todos juntos pondo,

mais do que as forças,

mais do que as guerras.

Todo olho viu e todo ouvido ouviu.

Os homens todos a fitar o céu.

E toda criatura em si sentiu

que algo lhes vinha

de trás de um véu.

E veio: o céu se encheu de um ribombar

como o som de um tropel de cavalgada.

Nos corações aquele reboar

dava em visão

glória passada.

O céu se abriu, e então se pôde ver

com os olhos de corpo e alma, enquanto

reluziu no íntimo de cada ser

um regozijo

feito um espanto.

Brandindo um raio, vinha à frente Zeus,

montado em seu corcel descomunal.

Se via pelo olhar do grande deus

que vinha para

vencer o mal.

Os mares pareceram se alegrar

ao ver depois surgindo Poseidon.

E ao ver, em seu cavalo, Hades passar,

tudo soou

funéreo tom.

Mas logo veio atrás a sábia Atena,

armada já pras lutas e pras glórias.

De perto segue-a Hera. Assim se acena:

poder, riqueza

seguem vitórias.

Depois, belíssima, Afrodite vem;

e o jovem Eros segue a mãe, voando.

Atrás vem Ares, belicoso, e tem

no seu semblante

o horror nefando.

E vem Apolo, e o filho Orfeu, e o doce

coro das nove Musas junto deles;

e há nesses cantos algo qual se fosse

toda a Poesia

contida neles.

Toda a corte dos deuses se seguiu,

das eras do passado ressurgida.

Aos tempos, obscura, resistiu,

e ora retorna

grande, reerguida.

Tremeu o mundo. O Olimpo então brilhou

e tudo vicejou em derredor.

A luz ao mundo todo clareou,

humano e divo

fulgor maior.

Ah! se dissipam logo os vãos temores!...

Por que temer? Isto é que sempre ansiamos!

Eis a resposta aos nossos sãos ardores!

Por que temê-lo?

Nós o esperamos!

Eis a resposta à nossa sede, enfim,

de alçar grandeza, ter saber, ver glória.

de ter virtude sendo humano, e assim,

poesia livre

do que há de escória!

E que temor os outros deuses ronda! –

os que há na terra, sobre os vãos altares.

Imagens treme a pavorosa onda,

justa vingança

dos milenares.

Por que por tanto tempo, templos vãos,

ao vosso peso os homens só curvastes?

Por que é que os desprezastes como a grãos

pelo bom Deus

que vós pregastes?

Fora ide, templos vãos, deuses imigos

do que há de grande e humano, de sublime

e livre. Longe vão vossos perigos

e o hábito vosso

de enxergar crime.

Nos templos se ouve a voz do Olimpo em brados.

Com as mãos sobre as faces em segredo,

à cava luz, entre os vitrais sagrados,

fogem imagens,

tremendo em medo.

E a luz que há sobre o Olimpo, redentora,

faz tudo ser de novo tão fecundo.

O homem é homem pela salvadora

corte dos deuses

reinar no mundo.

 

O Acender da Pira

Gabriel Rübinger

Desfraldam-se as nuvens altaneiras
no glacial brancor da antiga Roma,
e um vate colhe a ode, e do ar toma
as brumas soniais das oliveiras...

O escravo faz coroas derradeiras,
e as põe no altar de fora, onde o aroma
que invade tristemente o bosque assoma
os mármores, as folhas, as roseiras.

O Sol atrás morrendo. A tarde expira,
no esmaecer de sombras, de falenas
dançando flébeis, no calor da pira.

A terra cobre o corpo, e as serenas
estrelas lacrimejam. Resta a lira,
tangendo até o chorar das açucenas...