Às vezes a gente nem atenta para certas evidências: meu amigo Tarcísio Feliciano chamava a atenção para a relação entre a literatura e uma certa concepção de saúde. Como muitas vezes a literatura pensa por imagens, a gente lembra a brilhante alegoria de Ítalo Calvino, O Visconde Partido ao Meio. Antes, inteiro, ele é o todo inconsciência, de si e dos outros; depois, perdida essa inteireza, partido, literalmente lascado, ele ganha em compreensão, em solidariedade com os outros: inteiro, eu não entendia, movimentava-me surdo e incomunicável entre os sofrimentos e as feridas disseminadas por todos os lados (…).

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Frequentemente a literatura parece oferecer um vasto quadro de anomalias, de desajeitados, quando não diretamente rejeitados; os humilhados e ofendidos. Os que fazem exceção no corpo social — portanto, débeis, doentes. Mas que, justamente por isso, põem em questão a noção de saúde social, o ideal da besta sadia, cadáver adiado que procria, como diz o poeta. Os doentes sabem o que os supostamente sãos ignoram: (…) agora, não sou apenas eu um ser dividido e dilacerado, mas você também o é, como todo mundo. Portanto, possuo agora uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as carências do mundo. A ideia de Ítalo Svevo é de que somos todos naturalmente doentes. E, justamente, as naturezas mais complexas são as mais frágeis. Ou vice-versa: elas são frágeis por serem complexas, ricas de dilaceramentos interiores. E, claro, estamos diante de um desafio fundamental em literatura: como dizer o desvio, a sutileza — que a gramática social, porque normativa, tende a sufocar? Como dizer o singular desses destinos numa linguagem comum? Montaigne intuía isso, desde longe: é preciso passar por cima das regras comuns, da civilidade até, para buscar sua verdade e sua liberdade.

Assim, todo escritor abala a gramática social; e assim, sai desse confronto, marcado, como o Jacó que lutou com o Anjo — e agora segue manco, torto; mas, é sua forma de avançar. Posição incômoda, sempre; e onde sua saúde mental periga: porque é aventureiro, imprevisível, desobediente; sempre inseguro — e inaugural. A linguagem é o chão de quem escreve, certo: mas é um chão incerto, sempre a ser revolvido; como agem as minhocas que assim fazem fecundo o seu mundo revolvendo-o constantemente.

Onde o escritor vê ameaçada sua saúde: ele toma o cimento social primeiro, a linguagem, e vai tentar torná-la dúctil, plástica, onde plasmar outras possibilidades de vida. Literatura bem poderia se contentar com a prudência filosófica que define o ser, falando de sua essência; mas, não: para a literatura não é enquanto seres que existimos — é enquanto modos. Vida é espaço de criação incessante. Um modelo de saúde, fosse o melhor, ainda seria pouco porque sacrificaria os possíveis, abertos. A linguagem propicia os meios e a liberdade de recusar o real imposto; de transformá-lo, de recriá-lo. Toda criação forte é um ato de insurreição. Muitas vezes, nessa ida contra a corrente, nesse abalo sísmico, anímico, sofrem abalo a saúde, o senso comum, o juízo.

Freud pressentiu isso: (…) os poetas e os romancistas são, para o conhecimento da alma, nossos mestres, porque eles se abastecem em fontes inacessíveis à ciência. Torto, manco, de asa quebrada, o escritor ainda assim toma a dianteira sobre o filósofo, sobre o analista; isso porque ele surfa beirando abismos, nas ondas da energia desestabilizadora da linguagem. Ítalo Svevo reconhecia: o aporte de Freud foi mais fundamental para a literatura que para os analisandos.

As más línguas suspeitam sempre de neurose a singularidade do poeta, do escritor; traduzindo como doença sua diferença; na verdade, é apenas um signo positivo de não-adaptação, de não resignação aos mecanismos alienantes da suposta normalidade: obediência, trabalho, disciplina, leis morais — em detrimento do prazer de exercer sua liberdade; e toda singularidade atenta contra a instituição. Em tempos de redes sociais a necessidade de se fabricar uma certa saúde mental, na preservação de um núcleo pessoal, inalienável, é ainda mais urgente: por toda parte somos ameaçados de diluição, de insignificância, acompanhando tudo e todos, em toda parte, o tempo todo. Essa, uma doença invisível, que fica no ar que respiramos — quando já não aspiramos grande coisa. Como o hipocondríaco que parece não ter doença alguma — e que é justamente seu sintoma, hoje padecemos de uma normalidade morna, sem vigor de vida. A literatura desperta desejos, incita a criar para si novas normas de vida; superiores ou, ao menos, diferentes das consensuais. Sem depender do número de seguidores; a relação com o outro se vive privadamente. E pode ser a aventura individual; uma saúde, a coragem de ser si mesmo; de se fabricar um caráter, mais que um intelecto; uma imagem, mais que um conceito; um encantamento, mais que uma doutrina.

No século XIII, Samuel Abulafia, um saudável viajante hebraico, antecedendo nossos linguistas e analistas, dizia que ficamos presos em redes de preconceitos que a linguagem forma; saúde talvez seja pular fora das redes, em dado momento, desfazer os nós cegos a que estamos atados. E assim, pela literatura, criar uma saúde, uma forma de viver livre e leve.

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