Às vezes, nos momentos em que perco o sono, permito-me ingressar na espiral desordenada dos pensamentos e deixo o acaso assumir as rédeas. Em dias normais, caminho placidamente por uma praia repleta de restos de conversas, fragmentos de imagens e sombras de sonhos, e estes são os dias bons. Não gosto muito dos anormais, quando a escuridão do fosso existencial me atormenta e tenta me colocar dentro de um redemoinho de medo. Estas são as noites ruins.
Nos últimos tempos, nesta hora da zona morta, tenho recordado com obsessiva frequência de uma conversa que tive com a minha amiga, a escritora Monique Revillion, no final de 2012. Estávamos conversando sobre a necessidade que os escritores possuem de, às vezes, se fecharem dentro de quartos escuros e evitarem o convívio com outros seres humanos. Achava que fosse uma sensação somente minha, porém é mais normal do que imaginava. Conversávamos sobre como a interação social é desgastante, como escrever é um ato de tamanha entrega que pode causar uma sensação de descolamento do mundo.
A Monique falava que sentia a aproximação deste momento de isolamento e, ao contrário do que se poderia esperar, ansiava logo para que ele chegasse. Eu, por minha vez, sei que estou em instante oposto, escrevendo ao invés de refletir, mas sabia que chegaria logo o meu dia de silêncio e recolhimento. Não sei qual de nós dois começou a cunhar a frase, mas chegamos à conclusão ao mesmo tempo, então é uma autoria conjunta.
A literatura é um soco na parede. Nós sabemos que somos incapazes de derrubá-la, e sabemos que os nossos dedos doerão com a intensidade de mil dores, mas, ainda assim, soqueamos.
A frase parece incompreensível para quem não escreve: qual o sentido de soquear uma parede sabendo que somente a dor nos espera no final do gesto, sabendo que somente frustração nos aguarda na derradeira curva do caminho? Acredito que tenha a ver com a impossibilidade da tarefa; acredito que a literatura encapsula o texto perfeito atrás de um cuidadoso muro. Promete que o paraíso se esconde atrás daquela construção sólida, mas nos nega acesso ao Olimpo. Nos deixa próximos do ideal, mas nunca nos permite tocá-lo. Somos como Moisés: cheiramos, sentimos e quase tocamos a Terra Prometida que nos espera atrás do muro, mas somos impedidos de ingressar nela.
Muitas pessoas escrevem, e suas unhas às vezes raspam os tijolos. No entanto, aqueles que verdadeiramente escrevem com toda a sua alma jogam-se com ímpeto contra a parede, em uma luta inglória. Quebram todos os ossos. Enlouquecem. Respiram nas pausas e jogam-se novamente, empilhando dores. Ao final, com algumas lascas da parede entre as unhas, cobertos de reboco, escrevem o texto falho e o lançam no mundo como uma mensagem dentro de uma garrafa. Ninguém consegue tocar a literatura, somos obrigados a nos satisfazer com pequenos pedaços de perfeição, diminutas concessões..
Então, depois desta batalha feroz com a palavra, fechamo-nos para o resto da sociedade, para o convívio dos outros seres humanos, e curamos as feridas, até o dia em que, imaginando-nos novamente fortes, voltaremos a procurar a parede, voltaremos ao arremessso.
Nunca derrubaremos a parede. Mas, ainda assim, sonhamos com este dia.
O Henfil escreveu um texto que, na minha concepção, aborda muito bem este assunto. Ele se chama “Criatividade e potencialidade: a inspiração é um cachorro preto, um doberman, bem aí atrás de você”. Quem desejar ler a integralidade do texto, uma verdadeira aula sobre as vicissitudes de criar, ele está neste link: http://www.bancodeescola.com/henfil.htm . Um parágrafo do texto sintetiza o drama do demiurgo:
“O tempo todo eu vou dando depoimentos pessoais sobre como é o processo de criar. E aí muitos mitos caem. Por exemplo: que a criatividade é uma genialidade esotérica, uma coisa que de repente brota nas pessoas, um espírito santo que baixa, em condições ultra-especiais. Eu, então, mostro através da minha experiência – e da experiência que eu pude observar em outras pessoas que criam – que criatividade é uma questão de concentração. Que sem concentração ela não acontece, e esta concentração às vezes é dolorosa, demora muito tempo e dá um trabalho danado. E o resultado dela é, em geral, o isolamento da pessoa que tem sucesso, que é isso o que significa ser exceção.”
A criatividade necessita de uma dose absurda de concentração. Quem escreve sabe do que estou falando, mas creio que em todas as áreas do conhecimento isto acontece. A única maneira de fazer algo bem feito é concentrando-se de forma total na coisa em si. Apagar todo o mundo que nos cerca, com suas diversões e tentações, e entrar dentro da meta de corpo e alma. Tanto o padeiro que faz o pão quanto o economista que analisa números necessitam de absorção completa na sua tarefa. Não existe nada que venha fácil ou ao natural, como fala o Henfil. Tudo é fruto de muito trabalho, muita perseverança, muito foco no próprio objetivo. Os outros pensam que é fácil, mas ninguém sabe o quanto de trabalho, cansaço e concentração foram necessários para criar a menor das linhas, o mais modesto dos pães, a mais singela das tabelas macroeconômicas.
E o preço a se pagar acaba sendo caro. Para a pessoa ser criativa, ela precisa estar inspirada. Para estar inspirada, ela precisa se concentrar. Para se concentrar, ela precisa dar tudo de si na sua tarefa. A consequência é que, terminado o trabalho, sentimos como se toda a energia tivesse se esvaído. A chama apaga como se nunca tivesse existido. Só queremos ficar sozinhos conosco mesmo. Ambicionamos o silêncio da não-criação. Flertamos com o vazio. Morremos e precisamos aprender a renascer.
Como Henfil, concordo que a inspiração não é algo que brota dos deuses, e sim um mecanismo exaustivamente trabalhado e burilado até a máxima perfeição, de tal forma que a sua estrutura some e as outras pessoas acham que todo esforço foi natural. Para ganhar este caráter fresco de simplicidade, o criador precisa se imolar em benefício da própria criação. Existe loucura neste gesto, mas também um extraordinário sacrifício. A parede cobra o seu tributo por proteger o inatingível, e o preço é a alma do escritor. Ninguém sai impune ao fazer uma obra literária. Ninguém sai inocente, ninguém volta ao mesmo estado de pureza inicial.
O leitor atento deve ter feito um cotejo entre as duas ideias (inspiração como um doberman e literatura como parede) e entendido o drama maior da criação: ao mesmo tempo em que o escritor precisa fugir do cachorro feroz da inspiração que está nos seus calcanhares, somente uma parede intransponível o espera no final do caminho. Não existe salvação. Talvez este sentimento de inexorabilidade, de saber que estamos em uma corrida onde o resultado que nos espera não será o mais agradável de todos, que faz os artistas em geral se recolherem depois das suas criações. A sociedade e a família são incapazes de entenderem este movimento de molusco, de fechar-se dentro do próprio corpo e reparar nas inconstâncias da própria casca, mas, quem já esteve acossado por um cachorro infatigável, sabe que qualquer mínimo período de descanso deve ser aproveitado ao máximo, antes que a fuga impossível recomece, antes que a parede espere com seu abraço paciente e dolorido.
