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... «Luís de Camões fidalgo? Escudeiro? Que adianta? É Pedro Mariz quem responde nos Diálogos de vária história:
Não querendo as regateiras de Lisboa guardar uma taxa nova, e dizendo-o a el-rei que enquanto as não mandasse açoutar não se emendariam, respondeu ele que filhos de regateiras vinham a ser capitões na Índia, fidalgos de sua casa: e não queria dantemão deshonrá-los, mandando-lhes açoitar as mães.
A certa altura o Catual, hóspede de Paulo da Gama, pergunta que figuras eram aquelas que faziam perpassar diante de seus olhos. Era a galeria dos grandes da Lusitânia, a começar por Egas Moniz, e como tais lhos apresentam. São dezenas e dezenas de barões aparatosos e encartados como as figuras de Plutarco. Dos Camões não se fala. Pois que tudo é imaginação do autor, ressalta claro como a luz que se pusesse ufania em seus antepassados, poderia enunciar-lhes ali o nome. Não o fez e todavia o rosário deles é longo. Serve Monçaide de língua. E remata assim:

    Outros muito veríeis...
    Mas falta-lhes pincel...
    Honra, prémio, favor que as artes criam,
    Culpa dos viciosos sucessores
    Que degeneram certo e se desviam
    Do lustre e do valor dos seus passados
    Em gostos e vaidades atolados.

Quem fala é Camões pela boca de Paulo da Gama, da estirpe dos Vidigueiras. Seja qual for o intérprete, o pensamento é sempre do poeta. Ora aqui afigura-se-nos uma linguagem bastante criticista e, debaixo do ponto de vista de vinculação espiritual de indivíduos dum clã, muito pouco ortodoxa.
Que se deve concluir? Se, por um lado, Luís de Camões se nos entremostra nesta atitude reversa para com a fidalguia; por outro, se na vida se achou sempre desamparado, batido pelo infortúnio -- preso, primeiro, no Tronco de Lisboa, sem nenhum graúdo lhe acudir, tendo de alistar-se na milícia do Oriente a troco da libertação; depois no Tronco de Goa, por insolvência, cousa duns reles xerafins, com o célebre Fios-Secos; morrendo à fome em Moçambique, a ponto de ter de comer de amigos -- nenhuma solidariedade encontrou na classe que então oferecia maior unidade e coesão: a aristocracia, a começar pelo rei, sempre mãos rotas para seus áulicos e gentis-homens.» 

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