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XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

Manuel Pinto

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... «Não havendo em Portugal classe intermediária, ou ralé ou nobreza, tenhamos por oportuno dar Correia ao seu comentado a boa extracção. Acrescenta o mesmo: Pelas armas foi na Índia muito conhecido e estimado, como testemunham muitas pessoas de qualidade que o conheceram naquelas partes e hoje vivem nelas. O licenciado não esteve na Índia; que o inventasse ou ouvisse, é peco o seu testemunho. Camões admirava, mas não prezava a profissão das armas. Se tivesse dado brado na milícia, os vizo-reis tê-lo-iam distinguido. Pelo menos tê-lo-ia assinalado Couto, que se deu com ele e foi seu matalote. Portanto, Severim interpretou. Se interpretou no intuito de engrandecer o seu herói, que crédito devemos dar ao resto, mormente naquela ordem de cousas donde era legítimo supusesse que lhe avantajava a estatura? Aquele pais nobres merece outro crédito específico, do que em baixo: pelas armas foi na Índia muito conhecido, que se pode afirmar ser simpaticamente gratuito?

Quanto a pais conhecidos, exprime, como hoje, pessoa cuja identidade não oferece dúvida, muitos poderiam atestar, por tratarem com eles, ou serem seus próximos.

Em matéria de amparo, Severim de Faria, depois de desfiar a linha genealógica do poeta desde Vasco Perez de Camões até Simão Vaz, não menciona um só da nobre progénie que alguma vez o tenha assistido, sob este aspecto desfilando todos do berço para a cova na mais suave quietude. Mas Camões considerava-se rebento de tal árvore? Os heraldistas enxertaram-no nela. E aqui caio, além me levanto, lá soldaram bem ou mal os fuzis, como se tal operação fosse essencial para a glória do autor dos Lusíadas.

Não vale a pena percorrer, tacteando elo a elo, a cadeia de Ariadna de semelhante processo. Tanto é possível que nas veias de Luís de Camões, segundo as leis de Mendel, circulasse o sangue suevo de Leovigildo como o de um seu oposto no pólo social, neto dos que ele chamava «sórdidos galegos». A coberto dos arminhos, como por baixo dos lençóis, deram-se inextrincáveis misturadas. Mas, ainda à tona do armorial, sucedia que no mesmo tronco florescesse um grande e um mísero, um rico e um pobre, naturalmente avilanando-se os da segunda série, embora conservassem o nome soberbo. Felizmente para os costumes, se não para a toleima, não havia destrinças de apelidos. Sempre assim foi desde o princípio dos tempos na casa lusitana. Por exemplo, o facto dos Sepúlvedas serem quem eram não impedia que outros no mesmo lapso de tempo exercessem o mester de eguariços ou de aguadeiros. A onomástica nacional, não sei se por fas ou por nefas, não conheceu exclusivos entre os homens. 

Seja como for, os Camões não figuram na Sala das Pegas. Mas em heráldica toca-lhes escudo de sinopla, com uma serpe de oiro, lampassada de vermelho, sainte em pala dentre dois penhascos de prata.» 

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publicado às 18:34