Rembrandt
Trio vencedor do Prêmio Nobel – Albert Camus, Thomas Mann e José Saramago – está entre o rol de escritores que retrataram em seus textos o mal das epidemias.
Giovana Proença
As doenças, sintetizadas nas figuras dos vírus e bactérias, moldam a história social tanto quanto os próprios agentes humanos. A proposição pode parecer absurda em um primeiro momento, em nosso contundente sentimento enquanto sociedade, cega quanto os males que se colocam em nosso entorno. Um rápido olhar sobre as pandemias, muito retratadas enquanto pestes dentro da literatura, pode nos dar um vislumbre do quanto vida e arte teimam em se imitar diante de nossos olhos.
Se por um lado, olhar atentamente para nossa atual pandemia é um incômodo, visto a proximidade do perigo iminente; a literatura nos oferece um panorama das mazelas virais, e das que se espalham socialmente como se transmissíveis. A própria história se confunde à ficção, uma vez que não há dúvidas quanto ao caráter literário do registro dos historiadores da antiguidade, que registraram as primeiras epidemias que assolaram os povos antigos.
As escrituras religiosas assinalaram as pragas do Egito, entre elas uma peste misteriosa que teria levado à morte os primogênitos. Ainda que hoje explicações pautadas na ciência tenham sido levantadas para explicar o suposto fenômeno, foi o suficiente para colocar as doenças em um lugar do sagrado mítico, que permanece suspenso até os tempos atuais.
Fora da esfera do mythos, no berço da razão uma misteriosa peste correu as ágoras atenienses, mudando rumos relacionados á polis e a geografia do mundo grego. Na literatura, a cidade de Tebas era castigada por uma peste, resultado de um crime que maculou a cidade. A tragédia de Sófocles, Édipo Rei, apresenta a figura do bode expiatório, o phármakos que deve ser exilado com o peso da culpa para o reestabelecimento da ordem. Nossa própria epidemia evidencia os phármakos de nosso tempo, como revelam os ataques – virtuais ou não – aos grupos orientais, sobre os quais em atitude irresponsável, governantes decidiram colocar a culpa pelo surgimento do COVID – 19. Em outra leitura, a falta de ações efetivas mostra quem são os indivíduos lidos como sacrificáveis, revelando a vulnerabilidade de quem está na posição à margem.
Ao avançar para o século XIV, Giovanni Bocaccio retratou a epidemia de seu tempo no Decameron. Na obra clássica, dez jovens se isolam, mais do que apenas para se proteger da doença, em atitude de celebração. A cada dia, um jovem seria responsável por contar uma narrativa, que revelavam aspectos da sociedade florentina no período do Renascimento. O Decameron divide com “A máscara da morte rubra”, conto de Edgar Allan Poe publicado em 1842, a exposição dos fenômenos das festividades em plena epidemia, o flerte com o abismo da morte iminente, que reflete nos festejos clandestinos – e encarecidamente censurados – durante o isolamento social em decorrência do coronavírus.
O conto de Poe teria se inspirado no “baile de cólera”, festividade ocorrida durante a epidemia na França do século XIX. O Príncipe Próspero reúne seus escolhidos para o isolamento em um local seguro da “morte rubra”, oferecendo um baile de máscaras, “Lá fora, a peste; aqui dentro, a loucura.”. O enredo nos faz pensar no privilégio do isolamento, mais acessível às elites, e até mesmo nos chamados enclaves fortificados, muros de exclusão que perpassam fronteiras sociais e geográficas. A reflexão pede urgência, afinal, o baile do Príncipe Próspero teve uma convidada infiltrada: a morte rubra.
O ápice do retrato da epidemia e suas implicações encontra espaço no romance contemporâneo. Célebres escritores beberam do mote clássico das doenças, em representação da experiência humana possibilitada pelo gênero. O trio vencedor do Nobel, maior honraria da literatura – Thomas Mann, Albert Camus e José Saramago – deu atenção especial à anatomia das epidemias dentro da forma literária, contaminando seus leitores pela visão das doenças que atacam a própria estrutura social de nossos tempos.
Em 1912, Thomas Mann publica uma das mais célebres novelas da literatura universal: A Morte em Veneza. Em crise, o escritor Gustav von Aschenbach viaja para Veneza, onde é arrebatado pela beleza do jovem Tadzio, que lhe inspira a sublimação que almejava para sua arte. Veneza se torna o cenário ideal devido a visão da cidade no imaginário popular, repleta de seus canais. As gondolas remetem ao mito de Caronte, o barqueiro que guia a alma dos mortos a seu destino final. O conflito do escritor encontra reflexo na epidemia que se alastra por solo veneziano, deixando a cidade isolada e ameaçando o esplendor que ela adquire aos olhos de Aschenbach.
O ambiente veneziano remete à Itália como epicentro simbólico do COVID-19 e sua colocação como um dos países mais afetados pela doença. A negação das autoridades da narrativa de Mann em anunciar a epidemia e as medidas preventivas, para não atrapalhar o turismo, reverberam na irresponsabilidade de nossos governantes em minimizar o vírus e na ironização dos números de mortos e de políticas públicas para combate do vírus.
Albert Camus, escritor argeliano, publicou A Peste mais de três décadas após A morte em Veneza, em 1947. Camus se relaciona a grande tradição da filosofia em língua francesa, sendo expoente do absurdismo. Em A Peste desvenda-se uma epidemia desde suas primeiras manifestações, com personagens em conflito entre a individualidade e o coletivo. Assim, a revolta coletiva é elevada como emergência pelo autor, Prêmio Nobel de 1957. A epidemia na cidade de Orã ecoa a França invadida e a difusão no Nazismo. Camus nos faz repensar a epidemia do conservadorismo e de regimes fascistas, com a onda de totalitarismo que vem tomando as democracias mundiais.
Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, tornou-se um marco na literatura em língua portuguesa. Sem dúvidas, o livro foi o grande trunfo para a concessão do Nobel, única vez que a honraria laureou um escritor lusófono. Na narrativa acompanhamos a anatomia da epidemia pela ( falta de ) visão de seus agentes. Na medida que a cegueira se espalha, as personagens são isoladas em um manicômio – assistimos os ecos de O Alienista de Machado de Assis – privados de condições básicas e humanitárias. Os limites entre humanidade e animalidade são colocados à prova, o bom selvagem de Rousseau e o homem em seu estado natural de Hobbes duelam no texto. O protagonismo feminino se emerge, são as mulheres que lutam contra as injustiças, uma vez que são as mais afetadas. Mas a maestria de Saramago é colocada na figura da única personagem que não se contamina com a cegueira: ‘a responsabilidade de ter olhos quando todos os outros os perderam”
Mais do que a responsabilidade social, Saramago coloca em xeque a vulnerabilidade das minorias e questões pertinentes aos protestos que tomaram diferentes países ainda durante a quarentena do coronavírus. Em um dos momentos mais perturbadores do livro, o exército, com apelos à legítima defesa, abate os cegos, vendo-os como ameaça; torna-se impossível à analogia com a violência policial, uma das principais lutas de grupos militantes. Ensaio sobre a cegueira instaura a importância da visão. O olhar para o mundo em sua faceta mais abismal e questionar: não estamos todos cegos?
A concepção do trio é permeada pela própria noção de isolamento: à seu modo conceberam os efeitos humanos dentro de um local de exílio, lugar essencial na realidade da doença e da epidemia. Thomas Mann tem o seu A Montanha Mágica, passado em um sanatório para tuberculosos, que confere uma visão de um microcosmo aos internos. Camus retrata a experiência do cárcere em O Estrangeiro, na personagem do anti-herói Mersault. Saramago modela a vivência do exílio em A Jangada de Pedra, estória da separação geográfica de uma ilha do continente, na Península Ibérica.
Realidade social e literatura se interpenetram na retratação das epidemias. Vendados em nosso isolamentos, somos incapazes de encarar as revelações do vírus. Grandes nomes da tradição literária, verdadeiros dissecadores da experiência humana, nos entregam em seus escritos a anatomia das doenças e dos males que se espalham como vírus – o olhar atento à essas obras é a vacina contra nossa contaminação como estrutura social.