Clássico jovem de J. D Salinger, “O Apanhador no Campo de Centeio” é uma ode à transgressão
literatura, J.D. Salinger, crítica literária, romance de formação, sociedade pós-guerra
imagem/divulgação O desejo do jovem Caulfield em ser o apanhador, ou o agarrador de corações (l’attrape coeur) na poética tradução francesa, que impede que as crianças atirem-se no abismo Giovana Proença Um grito de transgressão escorre pelas páginas de O apanhador no campo de centeio, um dos mais célebres romances de língua inglesa. Em um final de semana datado em 1949, no limiar entre as duas metades do século XX, Holden Caulfield transita pelas ruas de Nova York. Essa é a premissa do livro, uma das mais populares obras literárias na figura pop e Magnus opus de J.D Salinger, escritor que conquistou o título de misticismo em torno de sua figura pela fama de recluso e pelo mistério da aclamação do Apanhador por Mark Chapman, o assassino de John Lennon. Muitos leitores não resistem à uma segunda visita ao Apanhador no campo de centeio. Holden Caulfield é um dos principais personagens da literatura, seu relato de tom intimista nos aproxima de nossa própria dualidade. Se por um lado, ele se aproxima de um eco do homem do subsolo, figura de Fiódor Doistoiévski em seu Memórias do subsolo, ao vociferar em ataque contra tudo e contra todos de seu convívio; por outro, ele expõe uma face fundamental de seu sentimentalismo. Em sua falta de pertencimento, as palavras cortantes de Holden são um afago, um pacto silencioso entre a narrativa por seu olhar de revolta e a solidão que vitima a todos pela fragmentação do indivíduo pós-guerra. O (não) lugar de não pertencimento dentro da literatura é uma fonte inesgotável da tradição literária. Salinger, em seu prodigioso gênio narrativo, soube beber dessa fonte, renovando também a prosa breve de língua inglesa. Em seus 9 contos, o autor nos oferece uma visão da sociedade americana do pós-guerra — os estilhaços e rastros do maior conflito bélico da humanidade — e suas consequências no sujeito. Em um dos grandes marcos da crítica literária, Walter Benjamin discorre como a falta da experiência esvazia o ato de narrar, potencializada pelo testemunho dos horrores da guerra. Em resposta, o maior trunfo de Salinger é a vivência em sua forma mais simples – sentimentos aos quais estamos todos sujeitos, relacionados ao descobrimento, a identidade, e à perda. Beira a unanimidade quantos de nós, principalmente durante a juventude, ouvimos a mesma pergunta que Holden escuta de sua irmã Phoebe: o que ele queria ser. O desejo do jovem Caulfield em ser o apanhador, ou o agarrador de corações (l’attrape coeur) na poética tradução francesa, que impede que as crianças atirem-se no abismo que as espera no campo, é resultado da ambição de amenizar o doloroso contato com o mundo para os que ainda vão encarar face a face a experiência. A vida é um precipício para a geração do pós-guerra, em seu vislumbre como testemunha do não pertencimento e da fragmentação do indivíduo em um mundo que já contemplou o horror. O grande acerto de Salinger foi a criação do personagem dual e idealista, que maldiz em pensamento as concepções de sua sociedade burguesa, e quer salvar as crianças do contato com esse mundo de atrocidades, preservando sua acentuada inocência. O apanhador no campo de centeio é um dos mais brilhantes representantes do Romances de Formação, e a forma como as experiências da Holden o moldam, o tornam também um expoente da rebeldia que surgiria com os movimentos decisivos das décadas seguintes. Salinger criou a personagem símbolo do desarranjo do sonho americano após o conflito bélico, cessado em 1945, e captou com maestria no conjunto de sua obra o sentimento geral do estilhaçar da sociedade, com os rastros da atrocidade. O escritor estadunidense soube dosar a emotividade presente no Apanhador no campo de centeio, com reflexões sobre o ato de narrar que aplacariam o temor de Benjamin quanto à crise do narrador. “A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo.” A narratividade nunca sairá da moda, nós precisamos dessa dose de nostalgia. Holden nos apanha em nosso próprio sentimentalismo. Em andanças, percursos de táxi, e encontros desarranjados, lá está ele, uma companhia para a melancolia que deixa um sabor amargo na boca. Salinger continua cativando uma legião de leitores, o desajuste e a luta pelo direito de encontrar-se perdido ultrapassam gerações. Em algum bar, Holden ergue o copo de whisky, em brinde à rebeldia. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina