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Maior nome da dramaturgia universal e criador de marcantes personagens dramáticas , Shakespeare percorreu os labirintos da mente humana. No Brasil, Machado de Assis se apropriou da exploração dos carácteres; de modo que a crítica Helen Caldwell chamou Bento, protagonista de ‘Dom Casmurro’ de o ‘Otelo brasileiro de Machado de Assis’.
Giovana Proença
Uma conhecida discórdia entre autores de língua lusófona teve como protagonistas dois de seus maiores titãs. De um lado do Oceano Atlântico, o brasileiro Machado de Assis; do outro o português Eça de Queirós. O motivo da desavença consistia justamente na construção das personagens; em crítica a O Primo Basílio, obra de Queirós, seu contemporâneo Machado atacou a anti-heroína do romance, Luísa, acusando-a de ser acima de tudo, um títere — ou seja, sem caráter e vontade própria.
A anedota nos interessa na medida em que Machado prossegue com a asserção de que o drama deve residir no que chama de “a situação moral das personagens”, e assim, em seus carácteres e suas paixões. O escritor brasileiro coloca isso em prática em seu primeiro romance, Ressurreição (1872), no desarranjo amoroso entre Félix e Lívia, pela incapacidade do noivo de dominar os próprios impulsos, em especial em relação aos ciúmes. Na advertência a Ressurreição, Machado afirma pôr em ação o pensamento Shakespeariano extraído da peça Medida por medida “São as nossas dúvidas traidoras/ que nos fazem perder o bem que poderíamos obter/ senão tivéssemos o medo de tentar”.
Chegamos, por fim, em William Shakespeare. Morto mais de duzentos anos antes do nascimento de Assis, é inegável a influência do dramaturgo inglês, cujo nome hoje ressoa o estatuto de lenda, dentro da obra do autor brasileiro. Ainda que figura proeminente no teatro elisabetano, o século XIX consagraria a reputação shakespeariana, revisitada pelos românticos. Machado de Assis, é claro, não passaria impune pela magistral capacidade criadora de tipos humanos que ainda hoje fascinam os espectadores das tragédias de Shakespeare.
O estudo das personagens domina o cenário crítico da obra shakespeariana desde seus primeiros passos. O poeta britânico Alexander Pope teria afirmado que todas as personagens do dramaturgo são indivíduos assim como aqueles que encontramos na própria vida. O fato, é que Skakespeare se dedicou à criação de tipos humanos que vivem e morrem movidos por suas paixões, motores também das trágicas tramas, que estão na base da cultura popular moderna, como prova a profusão de filmes com enredos baseados na estrutura de obras do escritor como Jogo de Intrigas, a comédia romântica 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você, o brasileiro Maré, Nossa História de Amor e o clássico da Disney O Rei Leão.
Harold Bloom, frequentemente considerado o mais notório crítico literário norte-americano, dedicou um volume ao estudo de Shakespeare. Em Shakespeare – A Invenção do Humano, Bloom argumenta que o dramaturgo inglês inventou o homem como nós conhecemos, que antes de ser (re)criado nas peças do escritor, era apenas um personagem de dimensão inexistente. A partir da capacidade de percorrer os labirintos da mente humana, suas paixões e obscuridades, Shakespeare desenreda a representação psicológica, vista como superior por Bloom, uma vez que, na visão do crítico o criador de Hamlet se apropriou da natureza humana, e nos shakespearizou.
Sem dúvidas, um dos maiores nomes da literatura mundial, Shakespeare explorou a psiquê como poucos, conquistando muito mais camadas e significações nos séculos XIX e XX, com a popularização das ideias de pensadores da mente como Freud e Pinel. A origem enigmática da maldade de Iago — antagonista em Otelo – por exemplo, intrigou gerações de críticos. O poeta T. S Coleridge, um dos fundadores do romantismo inglês ao lado do colega Wordsworth, afirmou que eles tentaram caçar as razões de uma maldade sem razão; e no século XIX, Iago chegou a ser psicologizado como psicopata.
O realismo das personagens de Shakespeare é uma via de mão dupla: nós as vemos como reais porque nos reconhecemos nelas e nos reconhecemos nelas porque nos esforçamos para torná-las reais. Em Verona, Julieta — e a multidão de turistas – ganhou uma casa nos moldes medievais designada como sua; a residência inclusive teve um balcão anexado na década de 1930, a fim de recriar o cenário da mais famosa cena da peça. Centenas de cartas são escritas para Julieta requisitando ajuda em matérias amorosas, costume exposto no sucesso Cartas para Julieta (2010).
A paixão de Romeu e Julieta, o conflito de Hamlet, a desgraça de Ofélia, os ciúmes de Otelo, a perfídia de Iago, a inocência de Desdêmona, a ambição e culpa do casal de Macbeth; longo é o catálogo das pulsões humanas representadas por Shakespeare. Assim, não surpreende que igualmente extensa seja sua influência em seus sucessores na arte literária. No Brasil, Machado de Assis, mais do que qualquer outro escritor, parece ter se aproveitado da complexa psicologização proposta por Shakespeare na gestação de suas personas, e portanto, como podemos notar em suas observações sobre as falhas da obra de Eça de Queirós, seus enredos. Machado foi criador de personagens igualmente marcantes dentro do cânone verde e amarelo — Brás Cubas, Quincas Borba, Bentinho e Capitu – afinal, atire a primeira pedra quem nunca ouviu o questionamento acerca do adultério da anti-heroína de Dom Casmurro.
Rivalizado com Memórias Póstumas de Brás Cubas como magnus opus de Assis, Dom Casmurro narra a paixão de Bentinho pela vizinha Capitu. Já longe do conforto da infância, o casamento é envenenado pelas desconfianças de Bento, certo de ter sido traído. A trama do livro contrapõe dois carácteres: o imaginativo Bento e a prática Capitu. A obra vem sido estudado quase obsessivamente por críticos brasileiros e estrangeiros como Roberto Schwarz e John Gledson. Entretanto, Helen Caldwell, crítica feminista norte-americana, destaca-se por ser a defensora pioneira de Capitu. Em 1960, ela escreveu O Otelo brasileiro de Machado de Assis.
A escolha de título de Caldwell para seu estudo, que se tornaria referência dentro da crítica do romance, não me parece hipérbole ao analisar as semelhanças entre a peça de Shakespeare e a ficção de Machado. A temática do ciúme como sentimento destruidor permeia as duas obras. Bento, assim como Otelo, ainda que de maneira indireta, acaba por levar sua amada à morte. O protagonista de Machado isola-se como Casmurro, em metamorfose que se inicia com as suspeitas acerca da tristeza dos olhos de ressaca de Capitu ao contemplar o corpo sem vida de Escobar, amigo de Bento. O isolamento, pois, é característica fundamental da tragédia, na qual o herói vê-se cada vez mais absorto no próprio conflito. Não à toa, as tragédias shakespearianas levam o nome de sua trágica persona: Hamlet, Macbeth, Ricardo III, Otelo. Machado nomeia seu romance: Dom Casmurro.
Caldwell, entretanto, levanta um ponto: Bento Santiago carrega no nome seu estatuto dúbio. Ele é o suprassumo da inocência — bento e santo. Mas também é Iago, com sua imaginação fértil envenena a si mesmo com o gosto amargo dos ciúmes. Na trama de Shakespeare, Otelo se mata e Iago é entregue ao julgamento. Em Dom Casmurro, Bento vive, e por meio de sua história, ele, bacharel em direito, o homem da burguesia acima de qualquer suspeita, se submete ao julgamento do leitor – ainda que por tanto tempo tenha se insistido na ideia de julgar Capitu. Bento, o Otelo brasileiro, é também seu próprio Iago.
Machado não repetiu, no conjunto de sua obra, o que criticou nos esforços de Queirós em O Primo Basílio. O Otelo brasileiro, alcunha de Caldwell para Dom Casmurro, prova a complexa psicologização das personagens de Assis, muito baseadas no modelo de personas dramáticas difundidos por Shakespeare, dentro do que se costumou rotular como natureza humana. Se, mais de um século após a produção machadiana, os moldes postulares shakespearianos de carácteres — e, por consequência, de enredo — ainda são seguidos; mais uma vez temos prova do gênio inventivo que recriou os labirintos da psiquê e nos fez questionar: Ser ou não ser?