Tradução literária

9 textos neste tema

conversas sobre tradução com Flora Thomson-DeVeaux – Marca Páginas

Por: Cláudia Alves

Fonte: Marca Páginas | Publicado em: 2020-07-07 00:00

tradução literária, literatura brasileira, Machado de Assis, estudos literários, recepção literária

Nas últimas semanas, a pesquisadora e tradutora Flora Thomson-DeVeaux tem estado presente em diversas páginas da imprensa nacional e internacional. A sua tradução do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, publicada recentemente pela editora Penguin, entrou na quarta tiragem logo no primeiro mês de publicação. Assim, desde seu lançamento, The Posthumous Memoirs of Brás Cubas (Penguin Classics, 2020) tem chamado a atenção do público e rendido boas reflexões sobre a recepção da obra de Machado de Assis no exterior.

Flora estudou Línguas e Culturas Espanholas e Portuguesas na Universidade de Princeton. Em 2019, concluiu o doutorado em Estudos Brasileiros e Portugueses na Universidade Brown. Atualmente, vive no Rio de Janeiro e, entre outras atividades, é diretora de pesquisa da Rádio Novelo, produtora de podcasts como Maria vai com as outras, Foro de Teresina e 451 MHz. O blog Marca Páginas convidou Flora para uma conversa sobre tradução, literatura, pesquisa acadêmica, projetos futuros, e o resultado da nossa entrevista vocês conferem aqui. Boa leitura!

Marca Páginas: Flora, você começou a traduzir o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas como parte de seu projeto de doutorado, defendido na Universidade Brown em 2019. Você poderia nos contar mais sobre a sua tese? De que maneira essa pesquisa acadêmica foi importante para a tradução de uma obra literária?

Flora Thomson-DeVeaux: A tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas foi só um dos capítulos da minha tese, na verdade. Nos outros capítulos, tentei acompanhar a trajetória do romance em inglês – a primeira publicação foi no começo dos anos 1950 nos Estados Unidos e teve mais duas traduções posteriores. Fui atrás de descobrir quais circunstâncias levaram cada tradutor a embarcar no projeto, como foi o processo de edição e publicação, e como cada tradução foi lida no seu tempo. Também dediquei alguns capítulos a aspectos mais teóricos de crítica machadiana e tradutória, e falo sobre minha metodologia. Por fim, proponho que ler a obra machadiana através das suas traduções pode ser uma experiência reveladora.

Uma obra como Memórias póstumas de Brás Cubas é em grande parte uma colaboração entre o texto e o leitor. Em Dom Casmurro, o narrador nos diz que este é um livro “falho”, com lacunas, que cabe ao leitor preencher. Essa é uma operação silenciosa que acontece na cabeça de quem lê Machado de Assis; mas o tradutor acaba imortalizando um pouco do processo na página. Por isso, ler várias traduções da mesma obra machadiana pode jogar uma luz sobre as complexidades do texto original.

Antes de começar a traduzir o livro, mergulhei nos estudos machadianos e da tradução para me situar melhor nos campos respectivos. Queria estar a par não só da grande gama de interpretações que se tem feito do romance, mas também dos debates e estratégias propostos por tradutores nos projetos mais diversos. Na verdade, alguns dos textos que mais me ajudaram tinham pouco ou nada a ver com Machado e Brás Cubas – entre eles, um estudo sobre as traduções de poesias de John Donne para o francês e espanhol e outro que examina vários escritores de língua inglesa em tradução para o italiano. Acredito que essa contextualização tenha sido importante para minha abordagem ao texto – me deixou antenada para perceber alusões e dinâmicas comentadas por outros leitores, e também entrei no processo com algumas ideias de estratégias possíveis debaixo do braço.

Capa da edição The Posthumous Memoirs of Brás Cubas (Penguin Classics, 2020)

Marca Páginas: Apesar de Machado de Assis ser bastante conhecido no Brasil, sabemos que sua circulação é ainda restrita em outros países. Você já tinha ouvido falar sobre Machado de Assis antes de decidir estudar literatura brasileira? Como você conheceu a obra de Machado e o que te motivou a traduzi-la?

Flora Thomson-DeVeaux: Não tinha ouvido falar em Machado de Assis antes de entrar na faculdade. Conheci justamente como aluna de literatura brasileira – na verdade, como aluna de língua portuguesa. Foi naquela época que me apaixonei pela prática da tradução, mas não pensei imediatamente em trabalhar com Machado – até porque quase todos os romances dele já tinham sido traduzidos para o inglês (o último foi Ressurreição, que foi traduzido em 2013). Só comecei a pensar nessa possibilidade quando fui traduzir um livro de João Cezar de Castro Rocha, chamado Machado de Assis: por uma poética da emulação. Sempre que João Cezar citava obras de Machado que já tinham sido traduzidas, procurei citar as traduções existentes – mas em muitos casos, as traduções não encaixavam com a análise minuciosa que estava sendo feita no livro de crítica. Com isso, me vi obrigada a retraduzir alguns trechos daqueles romances. Foi uma experiência instigante, bem na véspera de eu entrar no programa de doutorado, e que me ajudou a definir meu projeto em torno de uma nova tradução de Memórias póstumas de Brás Cubas.

Marca Páginas: Em ocasiões anteriores, quando foram publicadas outras traduções de Machado no exterior, havia uma grande expectativa de que o escritor seria reconhecido fora do Brasil. Sua tradução parece finalmente estar despertando essa atenção. A quais fatores você atribui esse reconhecimento? Por que agora e não antes?

Flora Thomson-DeVeaux: Infelizmente, suas perguntas provavelmente poderiam ter sido feitas no centenário da morte de Machado em 2008, ou na época das primeiras retraduções nos anos 1990, e elas ecoam questionamentos e esperanças da década de 1950. Quando estudei a recepção das traduções anteriores, vi sempre muita esperança em torno de cada lançamento, mas a repercussão acabava esvaindo sem que Machado de Assis se estabelecesse definitivamente nas prateleiras anglófonas. Torço muito para que desta vez seja diferente. Mas o primeiro tradutor de Memórias póstumas, William Grossman, chegou a dizer que Machado, com sua ironia delicada e fina, jamais seria um autor para as massas, e só seria descoberto e desfrutado por um público seleto.

Marca Páginas: Memórias Póstumas foi publicado no século XIX, em 1881, o que implica desafios tradutórios diferentes se compararmos a experiência à tradução de um texto contemporâneo. Quais foram os seus maiores desafios diante desse trabalho? E quais foram as estratégias e os instrumentos que você utilizou para lidar com esses desafios?

Flora Thomson-DeVeaux: A maior dificuldade não era só de tentar habitar o inglês do final do século XIX, mas sobretudo de medir o quanto que as escolhas linguísticas do autor se diferenciavam daquelas dos seus pares. Ou seja: quando Machado escrevia algo de um jeito que me parecia esquisito, tinha que descobrir se a esquisitice era temporal, cultural, ou machadiana mesmo – se era uma expressão muito usada naquela época que caiu em desuso, se era uma expressão brasileira de difícil interpretação no contexto anglófono, ou se era uma invenção dele, ou uma opção dele por uma palavra deliberadamente obscura. Nesses últimos casos, tentava chegar em alguma solução que fosse ao mesmo tempo compreensível e que também ficasse suficientemente esquisito aos olhos do leitor anglófono. Para identificar se Machado estava se diferenciando muito de seus pares, eu usei tanto bases de dados chamados corpus linguísticos, que medem a frequência de uso das palavras ao longo dos anos, quanto a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, onde usuários podem acessar milhares de publicações digitalizadas do século XIX e XX. Ah, e acabei acumulando uma coleção respeitável de dicionários antigos português-inglês (melhor: portuguez-inglez), que às vezes preservam definições e explicações de frases e termos que teriam sido correntes no século XIX, mas já não são tão compreensíveis.

Flora Thomson-DeVeaux (acervo pessoal)

Marca Páginas: Estudos sobre tradução já foram tema aqui no blog Marca Páginas[1], inclusive para falar sobre traduções de Machado de Assis para o espanhol[2]. Considerando as nuances que perpassam a experiência de tradução, seja como traição, seja como coautoria, de que maneira você definiria seu trabalho como tradutora?

Flora Thomson-DeVeaux: Jamais me definiria como traidora, mas também não me vejo muito como co-autora. Me identifico muito com uma descrição da última crônica do Machado: “eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto.” Vejo o trabalho de tradução como essa missão de uma leitura minuciosa, obsessiva, que pode muitas vezes “descobrir o encoberto”.

Marca Páginas: Para terminar, você poderia nos contar quais são seus próximos projetos? Você pretende continuar traduzindo a obra de Machado de Assis?

Flora Thomson-DeVeaux: Não descarto voltar a Machado, mas não penso em emendar em outra obra dele. Ainda estou pesando algumas opções de projeto – gostaria de fazer uma tradução de uma obra que ainda não tenha versão em inglês. Meu próximo projeto não tem nada a ver com tradução: é um podcast narrativo sobre o caso da Ângela Diniz, que deve ser lançado nos próximos meses pela Rádio Novelo.

Sugestões de leitura:


[1] Para acessar os posts anteriores: <https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2017/04/20/traducao-de-textos-literarios-parte-1/>, <https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2018/10/01/a-traducao-de-textos-literarios-parte-2/> e <https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2018/09/18/o-camelo-pelo-buraco-da-agulha-e-outras-historias-estranhas-de-traducao-por-stant-litore-traducao-jacqueline-placa/>.

[2] Para conferir o texto “Machado de Assis em espanhol”, por Juliana Gimenes:  <https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2017/06/24/machado-de-assis-em-espanhol-por-juliana-gimenes/>.

Texto originalmente publicado em Marca Páginas

A tradução de textos literários – parte 2 – Marca Páginas

Por: Cláudia Alves

Fonte: Marca Páginas | Publicado em: 2018-10-01 00:00

Tradução literária, Poesia, Literatura italiana, Desafio literário, Giorgio Caproni

Há algum tempo, lancei um desafio literário para algumas pessoas próximas a mim e que também estão ligadas à área de estudos literários. Tendo como inspiração o texto “23 traduções para um poema de Emily Dickinson (1830-1886)”, escrito por Matheus Mavericco e publicado pelo blog Escamandro[1], propus que cada uma de nós traduzisse individualmente um mesmo poema e depois reuníssemos e publicássemos as diferentes versões aqui no blog Marca Páginas. Os resultados, é claro, ficaram muito divertidos e finalmente apresento tudo aqui nessa publicação[2]. E vale também como comemoração pelo dia 30 de setembro, dia internacional da tradução!

Por afinidades acadêmicas e pessoais (e porque acho que, exceto pelo fenômeno Elena Ferrante, ainda se lê pouca literatura italiana no Brasil), acabei escolhendo esse pequeno poema do poeta italiano Giorgio Caproni[3]. São só 4 linhas, mas é incrível como as palavras, e o uso poético que podemos fazer delas, se multiplicam em uma vastidão de possibilidades quando estamos diante do desafio de reescrever, em formato de tradução, um poema.

Foto por Ylanite Koppens.

E foi justamente essa a razão pela qual me senti motivada a propor (e também a encarar) o desafio da tradução desse poema. De quantas maneiras diferentes é possível ler um mesmo poema? De quantas formas diferentes é possível, então, traduzir um mesmo poema? Aparentemente, infinitas. Uma obra como a Odisseia, por exemplo, reconhecida por ser talvez a obra literária mais antiga de que temos notícias, é até hoje traduzida e publicada em diversas versões muito diversas entre si. Isso porque, em sua riqueza de sentidos, ela desperta em cada um de seus leitores-tradutores um aspecto que merece ser priorizado por sua tradução. Por isso há traduções que foram feitas em forma de poema, com estrofes, versos e rimas, e há outras que foram feitas em prosa: e todas elas partindo exatamente do mesmo texto-fonte.

Como as línguas não são exatamente equivalentes ou transparentes, mesmo que por vezes sejam parecidas, como é o caso do português e do espanhol, escolhas precisam ser feitas e é aí que entra a interpretação de quem está traduzindo, de forma que um texto na verdade pode se tornar vários à medida que novas pessoas o leem e o reescrevem em suas próprias línguas. Com a poesia é preciso ainda balancear a questão da forma poética, escolhendo ou não manter as rimas, as sonoridades, os paralelismos, a melodia etc. do poema original. E se a escolha for mesmo priorizar a forma, mantendo ou criando uma rima, por exemplo, é preciso ainda manter a atenção em relação ao significado das palavras e se elas, no geral, conseguem criar no leitor alguma experiência de leitura semelhante à criada pelo original.

Não é nem um pouco fácil traduzir literatura. Na minha humilde opinião, é o campo em que as palavras estão mais livres e mais sensíveis aos seus infindáveis usos possíveis. No uso literário da linguagem, nessa potência de beleza à que a linguagem pode chegar, não existem limites para o que é humano se manifestar. A tradução busca, por sua vez, recriar as liberdades e as sensações de uma língua na outra.

Foto por Dino Ignani.

A seguir, o poema original escrito por Caproni[4], publicado em 1982, na coletânea Il franco cacciatore[5]. Na sequência, seguem as traduções feitas por amigas e amigos literatos. Cada versão traz em si suas próprias escolhas, suas prioridades literárias e particularidades interpretativas. Deixo aqui publicamente, mais uma vez, meu agradecimento a vocês que toparam participar do desafio. Mesmo que minha opinião seja suspeita, digo novamente que adorei os resultados. As traduções ficaram excelentes e os efeitos de leitura alcançados pelas diferentes versões com certeza valeram todo nosso esforço.

ERRATA

Non sai mai dove sei.

CORRIGE

Non sei mai dove sai.

(Giorgio Caproni)

ERRATA

Não sabes nunca onde estás.

CORREÇÃO

Não estás nunca onde sabes.

(Fabiana Assini)

Errata

Não sai mais donde sabe.

Corrige

Não sabe mais donde sai.

(Lucas Michelani)

Errata

Você nunca sabe onde está.

Corrige

Quem é que está onde sabe?

(Júlia Mendes)

Errata

Nunca sabe onde está.

Corrige

Nunca está onde pensa.

(Carlos Silva)

Desvios

não vô nunca onde tô.

Endireitar:

não tô nunca onde vô.

(Danielle Lima)

Errata

não sai nunca; sabe que não vai.

Corrige

não vai nunca; sabe que não sai.

(Danielle Lima)

ERRATA

Nunca sabes onde estás.

CORRIGE

Nunca estás onde sabes.

(Cláudia Alves)

Errado

Não acho nunca onde estou.

Correto

Não estou nunca onde acho.

(Cláudia Alves)

[1] Texto disponível em: https://escamandro.wordpress.com/2018/02/22/23-traducoes-para-um-poema-de-emily-dickinson-1830-1886-por-matheus-mavericco/. A dica preciosa é que o blog Escamandro como um todo é muito interessante e vale a visita de quem gosta de literatura, poesia, tradução e crítica.

[2] Recomendo a leitura de outros textos já publicados aqui no blog que também discutem tradução literária: “A tradução de textos literários – parte 1”, disponível em https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2017/04/20/traducao-de-textos-literarios-parte-1/, e “O camelo pelo buraco da agulha e outras histórias estranhas de tradução”, publicado recentemente em parceria com Jacqueline Plaça (tradutora) e Stant Litore (autor), no qual se pensa a questão das escolhas lexicais operadas em uma tradução: https://www.blogs.unicamp.br/marcapaginas/2018/09/18/o-camelo-pelo-buraco-da-agulha-e-outras-historias-estranhas-de-traducao-por-stant-litore-traducao-jacqueline-placa/.

[3] Mais uma dica preciosa: acompanhem o blog Literatura Italiana traduzida no Brasil, disponível em http://literatura-italiana.blogspot.com/. Aqui encontramos mais informações sobre o escritor Giorgio Caproni e outros importantes autores e autoras italianos.

[4] Para mais um poema de Caproni, traduzido para o português pelo professor e tradutor Maurício Santana Dias, vejam http://revistamododeusar.blogspot.com/2010/02/giorgio-caproni-1912-1990.html. E fica a última dica do post: a Revista Modo de Usar e Co. foi uma iniciativa incrível que criou um acervo online muito bom de poesia e de tradução.

[5] Agradeço Fabiana Assini, cuja pesquisa de mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina é sobre Caproni, pela indicação bibliográfica.

Texto originalmente publicado em Marca Páginas

László Krasznahorkai em português: os desafios de traduzir a obra do Nobel

Por: Dirce Waltrick do Amarante

Fonte: Estado da Arte | Publicado em: 2025-11-05 14:43

tradução literária, László Krasznahorkai, prêmios literários, teoria da tradução, paratexto

Sátántangó, romance do húngaro László Krasznahorkai, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura deste ano, foi publicado em sua terra natal em 1985. Quase quatro décadas mais tarde, em 2022, a obra ganhou a sua versão em português no Brasil. A tradução, direta do húngaro, assinada por Paulo Schiller, foi publicada pela Companhia das Letras. Antes dessa versão de Schiller, Krasznahorkai era pouco conhecido por aqui, ainda que já fosse considerado um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Sua obra, que abrange vários romances, tem sido comparada às de Franz Kafka, James Joyce, Samuel Beckett, entre outros antepassados literários ilustres.

A propósito da recepção da versão brasileira de Sátántangó, em 2023, vale destacar, Schiller venceu o Prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional. Schiller não foi o único tradutor do romance premiado pela versão do livro para outras línguas. Há dez anos, Sátántangó venceu o Man Booker Prize, que premia livros disponíveis em língua inglesa. O reconhecimento destacou os trabalhos de dois tradutores, George Szirtes and Ottilie Mulzet.

Nos prêmios de tradução, é quase impossível, como parece óbvio, que os membros do júri conheçam a língua de partida de todas as obras inscritas. Mesmo que todos os jurados compreendam um número expressivo de idiomas, é improvável que tenham tempo hábil para cotejar o original com a nova versão na língua de chegada. Nessa categoria de prêmio, portanto, outros quesitos parecem ser tão importantes quanto a tradução em si: o nome do autor traduzido, o ineditismo da obra no idioma de chegada, a linguagem usada pelo escritor e a dificuldade para transpô-la para outro idioma.

No caso de Sátántangó, a leitura de algumas de suas páginas iniciais já traz à tona construções complexas, como longos parágrafos, entrecortados por parênteses, que compõem um emaranhado de informações. Podemos avaliar que a sua versão para o português é bastante difícil, sobretudo quando preservar o valor literário do texto é a maior preocupação do tradutor.

Schiller chamou a atenção recentemente para o fato de que o final de algumas longas frases do romance era diferente, no plano semântico, do que estava afirmado no seu início. Nesse caso, o tradutor se vê diante de uma quebra-cabeça linguístico, cujas palavras devem ser reencaixadas com êxito na língua de chegada, a fim de proporcionar ao leitor a mesma experiência estética do original.

László Krasznahorkai. Foto: Leo Neumayr/AFP.

Ao longo de todo o trabalho, portanto, o bom tradutor naturalmente buscará manter o ritmo original das frases, o que implicará estabelecer um critério para selecionar as palavras certas. Segundo alguns teóricos da tradução, o autor e o tradutor estão intimamente associados, formando, durante o processo de tradução, um par indissolúvel, seja “por atração, desejo e também por obrigação (por contrato)”, como lembra Sérgio Medeiros em um ensaio intitulado “Partexto, pararte”.

O fato é que a tradução será considerada bem-sucedida se recriar os elementos fundamentais da obra de partida. No caso da versão de Krasznahorkai para o português, a obra, como a sua leitura o revela, permaneceu “instigante e visionária”, características destacadas pelo comitê do Nobel, ao conferir o prêmio ao autor húngaro.

Confiar no trabalho do tradutor, sobretudo quando a língua é pouco conhecida, é também importante. Há determinados textos, os inventivos, por exemplo, que exigem que o tradutor faça adaptações na língua de chegada. Essas “modificações” podem acender um alerta no leitor e gerar nele uma certa desconfiança. Mesmo sem dominar a língua de partida, o leitor desconfiado talvez busque algo que considere um deslize ou uma distração do tradutor. Isso justificará a sua má vontade para com a versão “muito” criativa do texto. Se por um lado essa desconfiança é positiva, por outro lado ela pode paralisar a leitura da obra traduzida.

A importância dos paratextos

Para que a confiança volte a reinar, é importante, acredito, ouvir a voz do tradutor, através de notas, prefácios, posfácios. Nos paratextos, o tradutor saberá explicar de maneira convincente determinadas escolhas, conseguindo, assim, conquistar a adesão do leitor.

Contudo, nem sempre o tradutor dispõe desse precioso espaço para se manifestar. Basta lembrar que ele ainda luta, no Brasil e alhures, para ter o seu nome impresso na capa das obras que verteu para outro idioma. Os prêmios de tradução, nesse sentido, são fundamentais para dar visibilidade a esses profissionais, que são essenciais para a circulação das obras em boas versões, sobretudo as literárias.

No que diz respeito a Sátántangó, o nome de Paulo Schiller não consta da capa do livro, mas apenas da contracapa, e tampouco se deu a ele espaço para se manifestar como tradutor a respeito de um texto tão complexo. Em tempos de Inteligência Artificial, a voz do tradutor de literatura se torna ainda mais importante, pois só ele saberá apontar as nuances no texto que exigem soluções criativas de tradução.

Michel Foucault, em tradução de Inês Autran Dourado Barbosa, lembra que, “sob uma palavra que pronunciamos, o que se esconde não é outra palavra, nem várias palavras unidas, mas, na maior parte do tempo, uma frase ou uma série de frases […]”. Isso porque, diz o pensador francês, o estado primeiro da língua não seria um conjunto definível de símbolos e regras de construção, mas “massa infinita…”: “era uma massa infinita de enunciados, um escoamento de coisas ditas”. De modo que, por trás das palavras do nosso idioma cotidiano, o que encontramos não são constantes morfologias absolutas, mas “afirmações, questões, desejos, comandos”. Essa é a matéria-prima do tradutor, que precisa sempre levar em conta que, em cada aparição, “a palavra tem uma nova forma, tem uma significação diferente, designa uma realidade diferente”.

Mas, como adverte Foucault, a palavra vive um paradoxo, pois “de cena em cena, apesar da diversidade do cenário, dos atores e das peripécias, é o mesmo ruído que circula, o mesmo gesto sonoro que se destaca da confusão e flutua por um instante sobre o episódio, como uma senha audível”. O bom tradutor certamente está atento a isso tudo e a muito mais.


Dirce Waltrick do Amarante é professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autora de Metáforas da Tradução. Organizou e cotraduziu, com o Coletivo Finnegans, o romance Finnegans Rivolta, de James Joyce, vencedor do Prêmio Jabuti em 2023 na categoria tradução.

Texto originalmente publicado em Estado da Arte

Machado de Assis em espanhol, por Juliana Gimenes – Marca Páginas

Por: Juliana Gimenes

Fonte: Marca Páginas | Publicado em: 2017-06-24 00:00

Literatura brasileira, Machado de Assis, Traduções literárias, Língua espanhola, História editorial

Na semana de aniversário de Machado de Assis, vamos falar sobre um dos maiores escritores brasileiros e retomar a questão das traduções literárias. Para essa tarefa, convidei a doutoranda Juliana Gimenes para contar um pouco sobre suas pesquisas. A autora é formada em Linguística e em Letras pela Unicamp. Em sua dissertação de mestrado (“‘Você já reparou nos olhos dela?’ – metáforas do olhar em duas traduções de Dom Casmurro para o espanhol”), concentrou-se na tradução dos famosos “olhos de ressaca” nas duas mais recentes traduções do romance para o espanhol. Agora, no doutorado também pela Unicamp, está estudando a tradução para espanhol das personagens femininas de Machado de Assis.

Machado de Assis em espanhol

Juliana Gimenes

Na semana em que Machado de Assis comemoria seu 178º aniversário, fui convidada a escrever sobre suas traduções para o espanhol. Coincidência? “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia…”. Sua obra, imortalizada nos romances, nos contos, nos poemas, entre outros gêneros, viajou o mundo todo graças às traduções. Ironicamente, em vida Machado nunca saiu do Brasil, mas sua obra ganhou o mundo em diferentes línguas: são mais de 99 traduções, segundo o Index Translation, banco de dados da UNESCO.

Machado de Assis aos 25 anos

E a história dessas traduções vale a pena contar. Quando escrevia seus textos, Machado os enviava a seu editor F. H. Garnier, na França. Só depois de impressos, seus livros eram trazidos de volta ao Brasil. Em cartas com o editor, o escritor brasileiro teria pedido autorização para que, em 1899, um de seus textos fosse traduzido para o alemão, mas Garnier não autorizou. Em 1901, houve novamente outra tentativa de tradução, desta vez para o francês, do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mais uma vez, porém, o pedido foi negado. Na visão de Machado, as traduções poderiam ser uma porta de entrada para um mundo tão diferente do seu. Na visão do editor, porém, havia a ideia de que os admiradores preferem ler as obras na língua materna do escritor.

Sabemos que não é bem assim. Faça um teste rápido: veja quantos dos seus livros são traduzidos e quantos não. Quanta coisa boa você não teria perdido se não fossem as traduções para o português?

Infelizmente, durante sua vida, Machado de Assis teve acesso a apenas duas traduções de dois de seus romances, ambas para o espanhol: Memórias Póstumas de Brás Cubas (1902, do tradutor uruguaio Julio Piquet) e Esaú e Jacó (1905, tradução argentina). O caso de Esaú e Jacó é bem peculiar: o jornal argentino La Nación distribuiu a tradução do romance brasileiro como brinde a seus leitores. A tradução, no entanto, não trazia o nome do tradutor.

Durante o período em que Garnier foi editor de Machado, mesmo depois da morte do autor, houve um baixo interesse por traduções. Na década de 1940, porém, ocorre a venda dos direitos autorais para o editor argentino W. M. Jackson, e com isso Buenos Aires dá novos ares às traduções machadianas.

Embora as traduções não tenham ocorrido de um modo sistemático e constante, timidamente elas foram ocupando espaço no mercado editorial latino americano. Enquanto dois dos romances, Ressurreição e Iaiá Garcia, não foram traduzidos para o espanhol, alguns contos, como O Alienista, Missa do Galo, A causa secreta, A cartomante, tornaram-se clássicos em língua espanhola e têm várias traduções. Além disso, não há uma sistematicidade de tradutores, ou seja, muitos tradutores traduziram um ou, no máximo, dois textos de Machado. E outro dado que não pode ser deixado de lado é o fato de o governo brasileiro, em muitos casos, financiar a tradução para a língua espanhola, visando promover um intercâmbio cultural.

Capa da tradução mais recente de Dom Casmurro para espanhol, de 2008

Sobre esse assunto, dois estudiosos são fundamentais para entender um pouco mais sobre as traduções machadianas: Pablo Soto e Carlos Domínguez. Para Soto, a avaliação que se pode fazer do número de traduções é positiva, pois demonstra o interesse contínuo do mundo hispânico por nosso escritor. Domínguez, por sua vez, traz um contraponto importante: talvez Machado de Assis seja muito lido em espanhol, mas apenas por especialistas e em ambientes acadêmicos.

Considerarmos que essa baixa circulação de textos de Machado de Assis em língua espanhola é, sem dúvida, uma grande ironia para o mestre da ironia, que sempre quis ser popular e adorava ser lido.

Dicas de leitura:

“Traducciones de Machado de Assis al Español”, de Pablo Cardellino Soto (GUERINI, A. et al. (Orgs.). Machado de Assis: tradutor e traduzido. Florianópolis: Ed. Copiart, 2012, p. 129-159).

“Andanzas póstumas: Machado de Assis en español”, de Carlos Espinosa Domínguez (Caracol, n°1, p. 64-85, 2010. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/caracol/article/view/57638>)

Texto originalmente publicado em Marca Páginas

A tradução de textos literários – parte 1 – Marca Páginas

Por: Cláudia Alves

Fonte: Marca Páginas | Publicado em: 2017-04-20 00:00

Tradução literária, Literatura russa, Processo de tradução, Papel do tradutor, Constance Garnett

INTRODUÇÃO

Quando iniciamos a leitura de um livro em português, isto é, no nosso próprio idioma, somos muitas vezes levados a acreditar que aquelas palavras foram concebidas daquela forma pelo autor. Muitos tradutores realizam um trabalho tão bom com as obras originais, que praticamente se apagam durante a nossa leitura, sendo eventualmente esquecidos pelos leitores. Porém, nos estudos literários, há vários campos de pesquisa que se dedicam a desnaturalizar os processos de tradução e a compreender os métodos e as teorias que embasam esse trabalho.

O assunto é vasto, então vamos pegar um gancho em um livro de 1964, Paris é uma festa (que, vejam só, foi publicado originalmente em inglês como A Moveable Feast), de Ernest Hemingway. Em uma conversa ocorrida por volta dos anos 1920, o escritor estadunidense comenta com seu amigo Evan Shipman sobre a leitura que está fazendo de um dos maiores escritores russos de todos os tempos, Fiódor Dostoiévski:

” — Tenho meditado muito sobre Dostoiévski ultimamente – disse eu. – Como é possível alguém escrever tão mal, tão incrivelmente mal, e ainda assim comunicar tanta emoção a quem o lê?

— Não creio que seja culpa da tradutora – respondeu Evan. – Constance Garnett nos dá um Tolstói bem legível.

— É verdade. Tentei ler Guerra e paz não sei quantas vezes, até encontrar uma tradução de Constance.

— Há quem diga que ainda poderia ser melhor – disse Evan – e acredito que sim, embora não conheça russo, para opinar com segurança. Mas nós dois conhecemos muito bem esse negócio de traduções, e não há dúvida de que ela trabalhou direito. É um romance fenomenal, talvez o melhor de todos os romances, penso eu. Tão bom que é possível relê-lo várias vezes.”

(Paris é uma festa. Trad. Ênio Silveira. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013).

Quem poderia conhecer a língua russa o bastante para ler um livro de Dostoiévski no original? Sabemos que a grande maioria dos leitores, assim como o próprio Hemingway, precisa recorrer a traduções, o que demonstra a importância que elas têm na circulação de obras literárias escritas em línguas estrangeiras. E se hoje em dia é assim, mesmo na era da globalização e de facilidades como Google Translator, imaginem no começo do século XX. Por isso, o tradutor é um grande mediador entre a obra original e seu leitor. E é graças ao seu trabalho que podemos ter acesso a tantos livros.

QUANTAS LÍNGUAS UM TRADUTOR PRECISA FALAR?

O trabalho de um tradutor não é nada fácil. Além de ler e reler, na língua original, a obra que será traduzida, ele ainda precisa ter total domínio da segunda língua para conseguir escrevê-la nesse outro idioma. Ou seja, ele precisa conhecer muito bem, no mínimo, duas línguas. Porém, há muitos que não param por aí, e conseguem traduzir para português, por exemplo, mais de uma língua românica (por exemplo, espanhol, italiano, francês).

É curioso, entretanto, como cada tradutor se identifica com as línguas estrangeiras que irá traduzir e acaba por se reconhecer como tradutor. Existem várias histórias como a da tradutora Constance Garnett, que possibilitou a Hemingway e a muitas outras pessoas que lessem os autores russos em inglês. Ela foi uma das principais responsáveis pela difusão mundial das obras russas do século XIX, mas ela não falava russo até começar a traduzir as primeiras obras! Foi graças às suas traduções que pôde aprender o novo idioma. Segundo um artigo da revista italiana Studio, Garnett aprendeu o idioma sozinha e traduziu cerca de 70 volumes. Até hoje, continua a ser uma referência para as traduções posteriores.

Ainda há muito que conversar sobre esse assunto… Já parou para pensar em quem traduziu o último livro estrangeiro que você leu? Dê uma olhada nas informações que ficam nas primeiras páginas dos livros, pois muitas vezes o nome do tradutor não aparece na capa. E será que deveria?

Comentem e continuemos a falar sobre tradução em um novo post!

Link para o artigo da Rivista Studio (em italiano): http://www.rivistastudio.com/cose-che-succedono/prima-traduttrice-tolstoj-e-dostoevskij-non-parlava-russo/

Texto originalmente publicado em Marca Páginas

[tradução] Guilherme Gontijo Flores fala sobre “Pantagruel e Gargântua”

Por: Bruno Pernambuco

Fonte: Revista Fina | Publicado em: 2022-05-12 10:00

Tradução literária, Literatura clássica, Processo criativo, Língua portuguesa, Humor na literatura

como escritor é que eu me vejo tradutor, de fato; como alguém que escreve, ou reescreve, um texto agora, assumindo a responsabilidade de uma escrita.

Bruno Pernambuco

Guilherme Gontijo Flores, tradutor, professor universitário de latim e poeta, autor de livros como carvão::capim (2018) e Potlatch (2022), traduziu, em 2021, Pantagruel e Gargântua, compêndio de romances de François Rabelais. Abaixo, Guilherme conversa conversa com a Fina sobre a elaboração do livro e sobre sua experiência no trabalho de tradução

Fina: O que do seu trabalho como escritor você sente que trouxe para o projeto de traduzir textos de Rabelais? Teve algo que você precisou deixar de lado?

Guilherme: Bom, como escritor é que eu me vejo tradutor, de fato; como alguém que escreve, ou reescreve, um texto agora, assumindo a responsabilidade de uma escrita. Claro que a tradução envolve a obra de outra pessoa, o abismo anacrônico de um encontro, então preciso levar isso em conta, mas nunca penso como quem precisa deixar algo de lado. Recuso a ideia de perda em tradução e prefiro, em seu lugar, insistir no processo de criação paralela, em diálogo intenso. O que posso perder, no caso, é o leitor sincrônico de Rabelais, mas ganho os leitores do português, os meus contemporâneos como leitores de um sabor de linguagem que só pode existir aqui, agora.

F: Existe, para você, alguma sensação em especial em traduzir um texto de importância histórica, como as obras de Rabelais?

G: Tenho comigo a sensação de que Rabelais até hoje não teve sua merecida recepção no Brasil. Todos sabem que é um clássico, que é uma obra importantíssima; mas segue sendo muito pouco lido, se compararmos com clássicos de outras línguas, como o Quixote, para ficarmos num só exemplo. Com isso, mais do que o fascínio com a importância histórica da obra original, me toca a possibilidade de abrir caminhos para a obra via tradução, quer dizer, fazer da tradução uma obra viva que se desdobra em outro mundo, que provavelmente Rabelais nem chegou a imaginar como possível.

F: Você diria que suas expectativas, no começo do projeto, se mantiveram ao longo do trabalho de tradução?

G: Eu diria que se ampliaram muito. É diferente o conhecimento de leitura do conhecimento de tradução. Ao me embrenhar no projeto, pude perceber muito concretamente o tamanho do desafio, mas também o tamanho do deleite de me ver diante dessa tradução. Nisso, o cansaço dá lugar ao fascínio, ao prazer desmedido da tradução, que só pode acontecer no imprevisto.

F: Para você, traduzir o senso de humor de Rabelais foi uma tarefa possível?

G: Sim, e a cereja do bolo. Mas para traduzir o humor é preciso ter humor hoje. Em outras palavras, eu preciso confiar nos modos de fazer humor, que são sempre históricos, preciso confiar na linguagem viva do meu tempo, sem palavras em estado de dicionário, sem decalques etimológicos puros com o texto francês. Para traduzir o humor da linguagem, a língua traduzida tem que se contorcer e se multiplicar, estar aberta a um gozo que existe além de uma fidelidade semântica com o original.

 F: O quê, a respeito da sua própria língua, você aprendeu ao traduzir uma versão “antiga” de uma língua estrangeira?

G: Pencas de palavras, com certeza. Porque apostei numa mistura de registros de classe, de região, de período histórico etc., para produzir uma língua de cruzamentos que meio que só existe nesta tradução de Rabelais. É o efeito de uma aventura que assumi. Precisei aprender o prazer quase cretino de curtir a linguagem. Adorei. E não sei mesmo se terei novamente outra alegria dessa ordem na tradução. Qualquer outra coisa terá de ser diferente, mesmo que hilária, mesmo que experimental; será outra aventura.

F: Por onde você diria que começou a sua tradução de Pantagruel e Gargântua?

G: Eu sou uma pessoa terrivelmente pé no chão. Comecei pela primeira página. Não antes de ler mil coisas, de tomar notas teóricas mentais, de conferir várias traduções em português e mais algumas em outras línguas. Mas a tradução começa assim, na primeira página, no enfrentamento concreto. Todo o resto pode ser preâmbulo em vão, se não chegarmos à matéria bruta da linguagem criativa.

Texto originalmente publicado em Revista Fina

1590) O Transleitor (17.4.2008)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2010-01-01 00:00

Literatura, Tradução literária, John Crowley, Poesia, Processo de escrita

O romance The Translator(Nova York, Morrow, 2002), de John Crowley, é a história da convivência de Innokenti Falin, um poeta russo, com sua tradutora norte-americana, em 1962, antes, durante e depois da crise dos mísseis cubanos. Como tudo que Crowley escreve, é várias coisas ao mesmo tempo: uma delicada história de amor, discussão sobre a natureza da poesia e da literatura, estudo da dificuldade de comunicação entre as pessoas, retrato de época. Crowley escreveu ficção científica (Engine Summer, The Deep, Great Work of Time), e o livro tem algo do gênero, ao sugerir a existência de universos paralelos nos quais certos fatos históricos cruciais acontecem de maneira diferente. Crowley também é mestre da fantasia: Little, Big (ganhador do World Fantasy Award) lida com elfos, e o presente livro lida (de maneira indireta, simbólica) com anjos.

Nas últimas décadas Crowley dedicou-se a uma tetralogia de romances explorando a magia renascentista, livros ambientados na época atual e também no tempo do Dr. John Dee, o mago e alquimista que assessorava a Rainha da Inglaterra. Esses romances (Aegypt, 1987; Love & Sleep, 1994; Daemonomania, 2000; Endless Things, 2007) contam uma espécie de história secreta da História, fatos que talvez tenham acontecido sem que ficássemos sabendo. E The Translator tem algo disto.

À primeira vista o livro se intitularia “O Tradutor”, mas a protagonista é Kit Malone, então a tradução correta é “A Tradutora”. Em inglês, “translator” pronuncia-se “trans-LÊI-tor”, e não posso resistir a um trocadilho dado pronto, de bandeja. Um tradutor é um trans-leitor, um leitor que lê transversalmente um texto, procurando não uma correspondência mecânica entre palavras que só se assemelham na superfície, mas a reconstituição do maior número possível das muitas camadas de significação do poema. No livro, cabe a Kit, que mal começou a estudar russo, acompanhar o poeta estrangeiro em sua busca pela palavra inglesa adequada para transmitir nuances de significado que talvez só existam no original.

Quando Kit lhe mostra uma tradução e se refere ao “seu poema”, Falin lhe diz: “Não. Esse é o seu poema. O meu foi escrito em russo”. O que um tradutor faz é escrever – no seu próprio idioma, com seus próprios recursos, seu talento – um texto que seja isomórfico com um texto pré-existente, criado por outra pessoa em outra língua. Não é o mesmo texto. Nunca vai ser. Eu, por exemplo, sou fã de Brecht e de Maiakóvski sem nunca ter lido um só poema deles, porque não sei uma palavra nem de alemão nem de russo. Li traduções em português, inglês, espanhol. Comparando umas às outras, comparando o sentido das frases, o vocabulário, o “tom de voz”, o modo com os versos se quebram e se organizam, fico com uma idéia aproximada do que devem ser os poemas desses autores. Nunca os conhecerei – a menos, claro, que aprenda as duas línguas. Um poema estrangeiro é a foto de um relâmpago – em Braille.

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

0876) Traduções (6.1.2006)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2009-03-01 00:00

tradução, linguística, idiomas, literatura, contexto cultural

Um velho provérbio italiano diz: “Traduttore, tradittore”. Tradutor, traidor. É um desses casos em que a semelhança abstrata das idéias é avalizada pela semelhança sonora das palavras. Ainda assim, a expressão italiana tem uma perfeição que nenhuma de suas possíveis traduções atinge. Em português, por exemplo, conseguimos conservar o começo e o fim, mas no meio da palavra o paralelismo se esvai, perde-se aquela seqüência implacável de consoantes. Em inglês dá-se algo parecido: “Translator, traitor”. Em francês, pior ainda: “Traducteur, traître”. Nenhuma delas tem a simetria de cadência do original. É verdade que se equivalem; mas sempre há uma perda.

Fala-se muito hoje em dia na utilidade dos softwares de tradução linguística, que às vezes quebram um galho. Se eu passar num deles um parágrafo inteiro em alemão, pelo menos fico sabendo se aquilo é uma propaganda de detergente ou um trecho da Bíblia, mas não posso considerar que tenho nas mãos uma tradução propriamente dita. Traduzir é acima de tudo entender abstratamente o contexto de origem (o que é difícil) e encontrar um contexto verbal equivalente na língua de destino (o que é mais difícil ainda).

Eu estava vendo na TV um filme legendado. Dois ladrões, à noite, estão arrombando um cofre dum escritório deserto, quando ouve-se uma sirene. Um deles resmunga, irritado: “Christ! The cops are coming!”. E o tradutor das legendas reproduziu, com fidelidade digna de um software: “Cristo! Os tiras estão vindo!”. Seria preciso traduzir, além das palavras, o tom coloquial que uma tal frase necessariamente tem, o que nos daria algo como “Meu Deus, lá vem a polícia!” Se o tradutor for desses bem realistas, e ainda por cima um leitor de Rubem Fonseca ou João Ubaldo, talvez ousasse mais: “Agora fudeu, chegaro os home!”.

Estou canso de ver as pessoas traduzirem “baby” (uma forma de tratamento multiuso em inglês) como “bebê”. Vamos devagar. O “Baby, you’re a rich man” dos Beatles quer dizer “Rapaz, você é um cara rico”. O “It ain’t me, babe” de Bob Dylan pode ser vertido como “Não sou eu, garota”. Um cara ao volante do carrão que diz “This baby cost me one hundred grand” está dizendo “Essa coisinha aqui me custou cem mil”. É um termo coloquial, íntimo, carinhoso ou desdenhoso de acordo com o contexto, e que só pode ser traduzido entendendo-se o contexto do personagem, da situação, do livro e do autor. Fazemos isso inconscientemente o tempo todo, em nossa própria língua, quando dialogamos com gente de contexto cultural diferente do nosso (um repórter entrevistando um favelado, por exemplo, ou um técnico da Embrapa trocando idéias com um lavrador).

Ferreira Gullar queixava-se uma vez de que um verso seu, algo como “Eu te vi na rua, cara”, foi traduzido em espanhol como “Te he visto en la calle, rostro de hombre”. São catástrofes a que nenhum tradutor está imune, mas é preciso evitá-las, porque toda tradução implica em perda; traduzir é reduzir.

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

1025) The book is on the table (29.6.2006)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2009-05-01 00:00

tradução, literatura, linguística, processo criativo

Livro traduzido é como filme dublado. O Mercado e a Lei os consideram como “a mesma obra” em relação ao original, mas é uma mesma obra em que algo de essencial foi substituído. Mesmo que seja com o consentimento do autor, como em geral é, mesmo que tenha sua aprovação ou até sua participação no processo, é outra coisa.

Quando lemos “Guerra e Paz” em português temos a sensação da presença da Rússia através da história, dos personagens, dos ambientes, mas vemos tudo através do filtro da língua portuguesa-brasileira, que tem sua própria sonoridade, seu próprio ritmo, suas próprias ramificações de significado a partir de cada palavra. Na tradução de uma obra assim, o melhor é que a língua torne-se transparente, invisível, chame o menos possível a atenção para sua brasileiridade, para que o leitor possa ter a ilusão tácita de que está lendo a obra como ela foi escrita em russo. Até que ponto isto é possível? Lemos: “O enorme exército marchava através da estepe”. Tudo OK. Mas a palavra russa para “estepe” deve ser tão intraduzível quanto a palavra “caatinga”, em termos de ressonância social, psicológica, afetiva.

Dizem que Ezra Pound aprendeu português só para ler “Os Lusíadas” no original. Eu já tive vontade de aprender alemão só para ler Brecht e Kafka, dois dos meus autores preferidos, e que, a rigor, nunca li. Não desmereço o ofício dos tradutores. É difícil, ingrato e mal pago. É como ser goleiro: um único erro pode apagar todos os seus acertos. Você trabalha como um galeota, rema dezesseis horas por dia, acorrentado ao convés, e quem chega ao porto é o Autor, para ser recebido com festas. E se ele chegar atrasado, ou em más condições, a culpa é sua.

The book is on the table. O livro é o dicionário Estrangeirês-Português, que os leigos imaginam que é tudo que é necessário para transpor na ordem certa as palavras escritas por Sófocles, Dostoiévski, Confúcio ou Schopenhauer. O problema é que a cada linha de texto descobrimos sempre que não é uma simples questão de saber qual é a palavra nossa que equivale a cada palavra deles. Trata-se de reproduzir nuances de sentimento, modismos de fala, hábitos sociais... Alguém pode me dizer como um inglês traduziria “cafuné” ou um suíço traduziria “pirangueiro”?

A coisa mais chata para um tradutor não é quando ele não acha uma palavra no dicionário. É quando ele acha mas a única maneira de traduzi-la é deixá-la no original e recorrer à famosa “nota ao pé da página”: “Espécie de arbusto da África Setentrional, cujas folhas têm propriedades medicinais...” Não existe aqui, portanto não temos palavra equivalente, e é preciso substituir por uma descrição. O que não se traduz, descreve-se. O mais engraçado é que o tradutor tem uma sensação de derrota quando oferece tais explicações ao leitor; e o leitor (algum leitor) dá um sorrisinho de mofa, pensando com seus botões: “Arrá! Não soube traduzir!” Não, amigos, é pior do que ser goleiro.

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo