Garota exemplar - Gillian Flynn

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

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Eu nunca havia lido um thriller antes.

Também não sei direito por quê. O mais próximo que cheguei de livros como esses, imagino, foram um ou dois da Agatha Christie (não conta, né?), algumas histórias de Sherlock Holmes, além de Raymond Chandler e Dashiell Hammett (definitivamente, estes não contam).

Para mim, o thriller é um produto tipicamente americano, fruto de um povo que gosta de ler, gosta muito de ler. Boa parte deste povo, entretanto, não está muito interessado em dramas oitocentistas ou em literatura cabeça demais. Quer diversão, quer se assustar, se inquietar, sentir medo, alívio, surpresa ao avançar nas páginas de um livro. E o thriller oferece exatamente isso.

Antes de falar de Garota Exemplar, devo avisar que a primeira vez que ouvi falar dele não me deixou uma impressão muito boa. O nome do livro veio com uma notícia mais ou menos assim: “O livro que desbancou Cinquenta Tons de Cinza na lista dos mais vendidos”. Se por um lado, isso é bom – parece que finalmente pararam de adorar tanto esta série que não li e não gostei –, por outro fica o alerta: se ele concorre com um livro soft porn, não deve ser muito bom.

Como fica claro pelo logo no início do texto, este blog é parceiro da Editora Intrínseca, e por isso tenho escolhido alguns livros dentre uma lista que eles oferecem. Comecei com O Diário de Helga, depois Comandante, e, em seguida, O oceano no fim do caminho. Como não havia escolhido nenhum “Best seller” ainda, quis arriscar-me com este. Vi alguns reviews e parecia que eu havia sido injusto, que, afinal, o livro não seria “tão ruim”.

Foi exatamente com este espírito que resolvi ler Garota Exemplar. “Pelo blog!”, eu parecia dizer a mim mesmo.

Eis que começo a ler e não quero parar. A escritora é habilidosa, sabe tecer muito bem a história, desenvolver os personagens, trabalhar as angústias e limitações de cada um, criar tensão, preparar armadilhas, surpreender… Mais do que isso, ela às vezes se arrisca em algumas descrições, comparações, figuras mais ousadas e que dão certo.

Garota Exemplar tem 443 páginas, nem curto demais, nem longo demais (falarei sobre isso adiante). Narra a história de um casal de quase quarenta anos que vivia em Nova York, Nick e Amy. Ele, um jornalista vindo do Missouri que acaba de perder o emprego. Ela, uma escritora de testes de personalidade que também ficou desempregada. Amy é filha de um casal de psicólogos, autores de uma série infanto-juvenil chamada Amy Exemplar, adotada em quase todas as escolas dos Estados Unidos. Como é possível perceber, a Amy Exemplar do livro foi inspirada na Amy, filha única deles. Isso deixa Amy numa situação esquisita: por um lado, as pessoas que acompanharam a série ao longo dos anos tendem a imaginá-la justamente a garota exemplar, aquela que sempre toma a decisão certa; por outro, ela própria às vezes tenta seguir o caminho oposto, para provar que tem vida própria, mas não consegue de desvencilhar da imagem da menina que tem tudo e de quem se espera tudo.

Nick vem de uma família tradicional no que diz respeito aos seus problemas: seu pai era um tremendo machista, sua mãe o suportou até um determinado momento, quando se separou e “finalmente começou a ser feliz”. Sua irmã gêmea, Go, nunca conseguiu se firmar num relacionamento, e ele próprio é um homem silencioso, um tanto desorganizado e que muitas vezes não consegue evitar o comportamento “filhinho da mamãe”. Amy, por sua vez, é uma garota brilhante, inteligente até não poder mais, e que gosta de ter sua vida sempre dois, três lances adiante.

Claro que essas informações sobre a personalidade deles não são entregues assim, em um parágrafo, mas ao longo do livro, de maneira fluída, e este é um dos méritos do livro. Os personagens são construídos de maneira bem convincente, mesmo quando tomam atitudes surpreendentes (e serão várias ao longo do livro).

Nick e Amy viviam em Nova York seu conto de fadas particular até ambos perderem o emprego. A mãe de Nick entra num estágio avançado de câncer e ele resolve, sem discutir com sua esposa, voltar para a sua cidade, no Missouri (porque é a coisa certa a se fazer). Amy o segue, mas não muito satisfeita. Ela gostava de Nova York, gostava de seu apartamento, de seu padrão de vida e detestou a ideia de ir até um estado no meio dos EUA, longe da civilização. Resolve, entretanto, ir com seu marido, porque, afinal, é a coisa certa a se fazer.

Lá a relação deles começa a se desgastar. O marido pega emprestado boa parte do dinheiro que ela recebeu dos seus pais como “compensação” por usar seu nome na série e monta um bar chamado “O Bar” com sua irmã. Ele está sempre estressado por conta da falta de dinheiro, não tem mais disposição para ser atencioso e amoroso com sua esposa, chega tarde da noite, já não têm relações sexuais como antigamente, enfim, os clichês mais comuns do gênero (o que não é uma crítica ao livro, já que a autora explora justamente estes clichês para construir sua história.

No dia em que eles completam cinco anos de casamento, Amy some. Há sinais que sugerem invasão à casa deles, e Nick não tem um álibi convincente sobre onde estava no horário em que ela sumiu. Mais do que isso, começam a aparecer cada vez mais evidências que levam todos a crer que ele pode realmente ter alguma coisa a ver com o sumiço (assassinato?) de sua esposa. Enquanto isso, ele estranhamente parece calmo demais para um marido que acabou de perder a esposa.

Basicamente este é o mote que estabelece o livro, que é contado a partir dos pontos de vista de Nick e Amy. Cada um tem direito a um capítulo, de maneira intercalada. A ele pertence a narração, já a parte dela é tirada de trechos escolhidos de seu diário. Até certo ponto, é claro. Depois… Depois acontece uma grande reviravolta, lá pela metade do livro, e a história começa a ficar mais ousada. A autora tem a oportunidade de mostrar que fez o dever de casa, ao subverter uma porção de coisas apenas para mostrar, em seguida, que sim, tudo aquilo já estava lá, nós que não havíamos notado.

O livro prende a atenção. Como é praxe em muitos livros, cada capítulo termina com uma pequena surpresa, com um gancho que vai ser resolvido apenas dois capítulos depois, já que o próximo sempre será dedicado ao outro cônjuge. Eu me peguei várias vezes, na última página de um capítulo, com os olhos pulando para a última linha para tentar antecipar a surpresa, o que para mim também é um excelente sinal.

Apesar de, como falei, a autora nos preparar, construindo convincentemente os personagens, para tudo, o desfecho é forçado demais. Sim, é perfeito, não há “loose ends”, tudo amarrado, tudo justificado. Não há buracos no roteiro. Mas é artificial, incrível no sentido mais literal da palavra. Não dá para acreditar que, na vida real – e vida real é o que a autora vende no livro o tempo todo, com os famosos clichês, lembram? – as coisas se ajeitassem daquela forma.

Essa foi, para mim, a principal insatisfação com o livro.

A segunda foi o ritmo, que era frenético do início até cerca de oitenta por cento do livro. Até então você parece ter visto tudo, todo tipo de reviravolta e a tensão chegou ao limite. Aí a autora parece cair na armadilha do “force mais, veja até onde eles aguentam”, típica do seriado americano Uma Família da Pesada (Family Guy). Se você nunca viu este seriado, é uma versão hardcore d’Os Simpsons (sim, eu sei, todos fazem esta comparação, até eles). Eles apostam em piadas que vão até o limite do suportável – na verdade, normalmente eles ultrapassam em muito esse limite e testam até onde é possível ir. Alguns exemplos são a famosa luta de Peter com um galo gigante, que em determinado episódio dura muito, muito, muito mesmo, e situações como um Stewie insistindo numa ideia e repetindo, repetindo, repetindo até aquele momento em que todos concordam que ele já deveria ter desistido. Bem depois do momento que faria Quico começar seu famoso bordão.

Sei que fiz uma viagem grande, mas os capítulos finais (as últimas noventa páginas, pelo menos, e aqui retorno àquela questão de o livro ser longo/curto) do livro soaram bem assim pra mim. É como se a autora tivesse se envaidecido e estivesse tentando dizer: “Vejam como eu planejei bem este livro. Eu posso continuar e continuar com a história e você nunca vai ter que perguntar ‘E se…’, porque eu cobri todas as possibilidades, e você não vai acreditar como isso aqui vai terminar”.

O livro terminou e posso dizer que a leitura não foi nenhum sacrifício. Pelo contrário, estas falhas ao final apenas tiraram um pouco do brilho de Garota Exemplar, mas a história é bastante divertida, foram diversos os momentos de tensão e o livro cumpriu bem seu objetivo de entreter.

Enquanto lia, não pude deixar de lembrar-me de Super Cine. No meu imaginário de pré-adolescente/adolescente, os filmes do Super Cine sempre eram thrillers, suspenses, bem ao estilo Dormindo com o inimigo. O tempo todo eu me imaginava vendo Garota Exemplar, o filme, o que, aliás, não deve demorar muito. O livro é muito, muito cinematográfico.

Como falei no início do texto, este é o primeiro thriller que leio, mas arrisco-me a dizer que se houvesse uma cartilha de livros de suspense, se houvesse uma avaliação de obediência ao padrão ISO 25000 dos thrillers, Garota Exemplar passaria com louvor, sem uma ressalva sequer. E este é um ponto não exatamente negativo, mas que dá ao livro uma cara de produção em massa, em que todos os itens foram checados:

– Prosa competente, estrutura adequada – OK

– Personagens verdadeiros, carismáticos e convincentes – OK

– História ancorada na vida real, do tipo “poderia acontecer com seu vizinho” – OK

– Reviravoltas e reviravoltas e mais reviravoltas – OK

– Final surpreendente – OK

Etc. etc. etc.

Acho que deu para entender.

Finalizando (finalmente!), Garota Exemplar é diversão certa para quem gosta de ler. Se você gosta de thrillers, aí tenho certeza de que vai gostar ainda mais.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.