Acabei de terminar a leitura do primeiro livro de Philip Roth: Adeus, Columbus. Como disse o escritor Saul Bellow, “é um livro de estreia, não de princiante”.
O livro é de 1959, mas foi publicado no Brasil apenas em 2006, pela Companhia das Letras, em formato pocket, com a tradução de Paulo Henriques Britto.
Trata-se de uma antologia composta pela novela que dá nome ao livro – Adeus, Columbus – e mais cinco contos: A conversão dos judeus, O defensor da fé, Epstein, Não se julga um homem pela canção que ele canta e Eli, o fanático.

A obra bem poderia ter como subtítulo “aspectos da cultura judaica nos Estados Unidos”, porque o que Roth faz basicamente é observar, por ângulos diferentes e com níveis variados de humor cáustico, os modos de vida dos judeus americanos: seus dogmas, seus hábitos – Roth talvez dissesse “suas manias” ou ainda “suas paranoias”. Quem conhece a crítica bem humorada de Woody Allen aos costumes judaicos passeará pelo livro de Roth com alguma familiaridade.
Comentários breves sobre os cinco contos:
A conversão dos judeus é uma sátira aos dogmas religiosos a partir do confronto entre um adolescente e um rabino, o que terá consequências absurdas. Em O defensor da fé, Roth ironiza os usos oportunistas da causa judaica, contando a história de militares, em plena guerra, que se aproveitam do fato de serem judeus para salvar a própria pele. Epstein é a história de um casal judeu de meia idade que começa a viver uma crise terrível depois que a mulher descobre que seu marido contraiu uma DST e que portanto, obviamente, a traiu. O resultado é absurdo. Em Não se julga um homem pela canção que ele canta vemos as consequências da ligação entre um “rapaz de família” e seus colegas de escola bad boys. Eli, o fanático é uma reflexão profunda a respeito da fé e dos dogmas a partir dos grandes contrastes marcados entre tradição religiosa e civilização moderna.
São todas narrativas intrigantes e instigantes, apresentando situações absurdas com consequências tragicômicas.
Mas para mim o ponto alto mesmo do livro é a novela Adeus, Columbus, o primeiro texto, mais longo que todos e muito mais vibrante.
A história é a do primeiro amor de Niel Klugman, contada por ele mesmo. A história que ele viveu com Brenda Patimkin.
Klugman é um bibliotecário pobretão, Brenda é de família riquíssima. Ambos são judeus.
Eis como é descrito o primeiro encontro, logo nas primeiras linhas:
A primeira vez que vi Brenda ela me pediu para segurar seus ócvlos. Então foi até a ponta do trampolim e, apertando os olhos, mirou a piscina; se estivesse vazia, Brenda não perceberia o fato, míope que era. Deu um belo mergulho e um instante depois voltava nadando para a beira da piscina, mantendo a cabeça, de cabelos avermelhados cortados curtos, erguida à frente, como se fosse uma rosa de caule longo. Rapidamente chegou à borda e veio ter comigo. “Obrigada”, disse, os olhos cheios d’água, mas não da piscina. Estendeu a mão para pegar os óculos, porém só os pôs nos lugar depois que me deu as costas e se afastou. Fiquei vendo-a ir embora. Suas mãos de repente apareceram atrás dela. Segurou a bainha do maiô com o polegar e o indicador e enfiou no devido lugar o pouco de carne que estava aparecendo. Meu sangue ferveu.
Brenda já aparece aí com algumas de suas marcas mais decisivas: é desembaraçada (“despachada” é mais preciso), dissimulada, provocadora, sensualmente pueril, e pode com isso facilmente enlouquecer os sentidos do pobre Klugman.
Mas a sedução é também a da narrativa em si mesma sobre o leitor, que se sente imediatamente envolvido pelo texto. Não somente pelo que ele traz de mensagem sensual ou até sexual (vale lembrar que nesse texto não temos um Roth licencioso, como o de O complexo de Portnoy), mas pelo seu convite imperioso ao universo denso e delicado, sutil e sinuoso da inesquecível primeira experiência amorosa. Em tudo o que ela tem de hipnótico. Em tudo o que tem de caloroso. Para repovoar esse mundo de cheiros, cores, temperaturas, sons e ecos tão difusos só mesmo uma memória privilegiada – uma memória sinestésica, como a apresentada pelo narrador de Roth.
O mais fenomenal é que Roth visita esse universo delicado do primeiro amor sem se render ao sentimentalismo fácil, apresentando – já em seu primeiro livro – um verdadeiro exercício de fuga da pieguice, com sua voz despojada – mesmo quando abandona provisoriamente o humor e toca o puramente lírico. Isso acontece porque Adeus, Columbus é uma revisitação das histórias de primeiro amor, uma espécie de paródia, não exatamente no sentido de imitação cômica, mas no sentido de retomada, de homenagem, de releitura. Como se nos propusesse: Vamos ver de fato como é esse negócio que chamam de primeiro amor.
A história de Niel não é exatamente a de Brenda. Brenda vive numa mansão de proporções infinitas (o leitor, se aventurando por ela, parece se perder em seus múltiplos cômodos). Niel é pobre, mora de favor na casa de uma tia. Essa tia, criatura neurótica, parece figurar na galeria das personagens de Allen, com seus rompantes patéticos dirigidos a Niel: “Uma criança na Europa dava pra fazer três refeições completas só com o que você deixa no prato.”
O mundo de Niel, que comparado ao dos Patimkins é um submundo, tem contato muito mais direto com mundos ainda mais subterrâneos – o dos negros pobres dos States, exemplificado na personagem graciosa do negrinho que adora as pinturas de Gauguin. Essa figurinha simpática a certa altura surge na biblioteca e, com seu carregado sotaque sulista, pergunta a Niel:
– Ô, onde é a seção de artipraste?
Niel num primeiro momento não entende – assim como o leitor – que o garoto, presença bastante improvável naquele ambiente letrado, procurava pela seção de artes plásticas.
Niel o conduz até ela e – novamente assim como o leitor – supreende-se com a enorme empolgação que o menino demonstra em relação às pinturas de Gauguin e com a assiduidade com que passa a frequentar aquela seção da biblioteca para admirar os habitantes do Taiti, espécie de oásis pictórico que o menino define como um lugar onde “ninguém vive gritando e berrando”, como provavelmente devia ser o seu mundo. E por um minuto consideramos o milagre da arte. Não na sacralidade do nome de Gauguin, não na burocracia biblioteconômica, não nos bancos da escola: mas na experiência viva e pura das formas e das cores como sonho e pulsão, como possibilidade de ressignificação da vida.

A vida do jovem Niel divide-se então entre dois mundos opostos: o da biblioteca frequentada pelo negrinho, com toda sua simplicidade, e o da mansão dos Patimkin, com toda sua opulência.
Mas e o amor, o primeiro – ELE -, que destino terá para Niel? Que destino terá para Brenda?, jovem despachada, desinibida, para quem o mundo parece estar disposto sempre como uma porta escancarada, à espera de seu triunfo.
Quem pensa, contudo, que Brenda é somente uma riquinha desmiolada se engana. Ela é espirituosa e é também enigmática – ela é, para o coração de um jovem, irresistível. E aí está também o trunfo de Roth: sua criatura feminina é apaixonante. Com ela, Niel (e o leitor, sempre seguindo os passos dele) tem a sensação de flutuar pelos espaços ou ser arrastado por uma corrente de água (a água, a piscina – presenças insistentes no texto), sempre numa aura fantasiosa, como se tudo fosse um sono bom, um sonho.
Essa sensação de sentidos dormentes, de atmosfera onírica me fez associar a novela de Roth ao filme de Benjamin Braddock A primeira noite de um homem, em que se apresenta um convite parecido para o dilatar de nossa percepção, fazendo-a captar os detalhes mínimos mas decisivos na primeira experiência amorosa – essa experiência que é mais resgatada pela memória difusa que pela lógica ordenadora da razão. Memórias que são borrões, não linhas.

Como Capitu para Bentinho (Dom Casmurro, Machado de Assis) ou como Madalena para Paulo Honório (São Bernardo, Graciliano Ramos), Brenda será para Niel, eternamente, um mistério. Porque a imagem fulgurante do primeiro amor não é somente inesquecível – ela é também, cruelmente, incompreensível:
Como conhecê-la? eu me perguntava, pois enquanto ela dormia fiquei pensando que tudo o que eu sabia a seu respeito era o que se podia ver numa fotografia.
Entender o primeiro amor (seria essa a busca do Philip Roth maduro?) não é entender o outro, mas a si mesmo.
E por isso Niel conta sua história. Por isso conta a sua Bentinho. Por isso faz o mesmo Paulo Honório.
E não é o que fazemos, todos nós, dia após dia?