Neil Gaiman

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Semana Especial: Mergulhe em Neil Gaiman – Deuses Americanos – Resenha

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2013-06-26 12:41

Literatura, Fantasia, Neil Gaiman, Resenha Literária, Mitologia

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De 26/06 até 03/07, a Editora Intrínseca está promovendo a semana “MERGULHE EM NEIL GAIMAN“, por conta do lançamento do aguardado O oceano no fim do Caminho, mais novo romance adulto do escritor inglês. O Catálise Crítica, parceiro da Intrínseca nesta semana, relembra uma das grandes realizações de Gaiman: Deuses Americanos. Quem lê esta obra-prima da fantasia quer mais é conhecer outras histórias que Neil Gaiman tem a contar. Por isso, convido você a ler a resenha abaixo e deixar seu comentário.

Quem comentar este post de hoje até o dia 03/07, às 23h estará concorrendo a um exemplar de O Oceano no fim do Caminho!

Isso mesmo! Quer ganhar o novo livro de Neil Gaiman? É só deixar seu comentário no final do post e esperar até o finalzinho do dia 03/07, quando será divulgado o resultado do sorteio.

Lembro apenas que comentar mais de uma vez não aumentará suas chances no sorteio. 😀

Chega de papo! Confiram abaixo a resenha sobre Deuses Americanos (publicada originalmente em 04/12/2012):

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Neil Gaiman ficou famoso pela série de quadrinhos Sandman, mas seu portfólio inclui, além dos quadrinhos, roteiros de filmes, biografias de bandas (seu primeiro livro foi sobre a banda Duran Duran), crítica literária, contos e romances.

Deuses Americanos é seu romance mais premiado (venceu o Hugo e o Nebula, tradicionais prêmios na área de fantasia), e provavelmente é o mais ambicioso trabalho do escritor inglês.

A premissa é a seguinte: quando os Estados Unidos foram colonizados, os ingleses, irlandeses, poloneses, africanos, enfim, cada um dos povos trouxe suas crenças, seus deuses, suas superstições, que se encontraram com as crenças dos nativos. Na visão de Gaiman, a fé dessa gente os acompanhou de maneira personificada. Diversos deuses vieram da Europa, da África, da Ásia, onde eram adorados, para ser esquecidos aos poucos na América. Em seu novo habitat poucas pessoas lhes rendiam louvor, lhes ofereciam sacrifícios, lembravam-se de seus nomes em suas orações.Com isso os deuses foram se enfraquecendo. Eles, que vieram poderosos de seus antigos lares, agora viviam como os humanos, ganhando a vida, muitas vezes de forma miserável, com trabalhos algumas vezes honestos, outras vezes nem tanto. Acabaram engolidos pelo gigante americano, pelo monstro de tecnologia e eficiência, que despreza as tradições e cospe nos velhos valores. Os velhos deuses passaram a ver seus altares esvaziados, enquanto os altares dos novos deuses recebiam todo tipo de oferta. Surgiram assim os novos deuses, os deuses americanos: o rádio, a televisão, a internet, o jornal. Deuses ainda ébrios pelo poder recém-adquirido e que acham que não há mais espaço para os velhos deuses. Vislumbra-se, num horizonte perigosamente próximo, um confronto: o novo versus o antigo.

Gaiman possui uma prosa direta, simples, mas bastante elegante. Em sua narrativa há espaço para um humor requintado, para uma dose razoável de suspense e aqui e acolá algumas amostras de ação. Mas se há algo que me pareceu característico em Deuses Americanos é que não há urgência no seu modo de contar a história, mesmo considerando-se que dentre os fatos que ele narra, pode estar incluído o fim do mundo – ou algo parecido.

O centro da narrativa de Deuses Americanos é Shadow, um homem grande, bastante grande (característica que é percebida e lembrada por quase todos os personagens que cruzam seu caminho). O livro começa com Shadow prestes a sair da prisão e reencontrar sua esposa. Ele tem um pressentimento bem leve de que algo não está certo, de que aquela ansiedade para deixar a prisão, aquele sentimento de que finalmente sua vida vai recomeçar podem ser o prenúncio de que nem tudo vai dar tão certo assim.

Depois de uma série de surpresas, que é melhor não revelar por aqui, Shadow acaba trabalhando para um homem misterioso autodenominado Wednesday. Seu trabalho inclui pequenos golpes, dirigir, pegar algumas coisas pesadas, conversar com deuses… Durante essa jornada com Wednesday, Shadow tem conhecimento dos planos dos novos deuses e do que Wednesday, um dos antigos (é só verificar seu nome para ver quem ele é), planeja fazer em retaliação. Shadow encara com estranha e inesperada naturalidade todas essas histórias, inclusive os bizarros encontros com as mais diversas divindades. Um desses encontros, um dos mais interessantes, envolve um truque de prestidigitação com a lua e uma aposta arriscada num jogo de damas.

Como expliquei acima, Gaiman não tem pressa. Há um confronto por vir, e ele adianta algumas coisas, cria a expectativa de que logo veremos ação. Mas ele está preocupado em contextualizar. Às vezes interrompe a narrativa para contar uma pequena história que se passou há duzentos anos ou que se passou na noite anterior, a dois mil quilômetros de onde Shadow está.

Gaiman investe tempo para dar vida a Shadow. Nós o vemos criar e perder amizades, fazer boas ações, comprar pão, passar frio, negociar um carro, tomar uma cerveja, querer morrer, querer viver, rejeitar uma refeição… Em tudo isso, todavia, há um domínio narrativo. Percebemos que não se trata de “encher linguiça”. Gaiman tem tudo na mão. Sabe exatamente que história quer contar e como quer contá-la. A seguir um trecho que ilustra bem essa preocupação do autor, bem como o espírito da prosa do livro:

– Deixe eu falar uma coisa – disse o senhor Nancy. – Pode passar muito tempo até a próxima refeição. Se alguém oferece comida, você aceita. Eu não sou mais tão jovem quanto era, mas posso dizer… nunca perca a oportunidade de mijar, comer ou dar um cochilo de meia hora. Está entendendo?

– Estou. Mas não estou com fome mesmo.

– Você é grandão – disse Nancy, olhando nos olhos cinza-claro de Shadow com seus olhos velhos cor de mogno. – Um pedaço de mau caminho, mas eu preciso falar, você não parece muito inteligente. Você lembra meu filho, que é tão imbecil como se tivesse comprado sua burrice numa liquidação de dois por um.

– Se não se importar, vou considerar isso um elogio.

– Ser chamado de idiota como um homem que dormiu até tarde na manhã que estavam distribuindo cérebros?

– Ser comparado a um membro da sua família.

O senhor Nancy amassou a cigarrilha no cinzeiro, depois tirou um ponto de cinza imaginário de suas luvas amarelas.

O resultado é um livro cuja leitura é deliciosa. E se tudo parece sem explicação em alguns momentos, à medida que o livro vai chegando ao fim, vemos como tudo (ou quase tudo) se encaixa. Disse quase tudo porque a quantidade de ganchos é imensa. A impressão é que Deuses Americanos pode servir como a matriz de um gigante universo. O livro estabelece o cenário, o ambiente, e a partir daí Neil Gaiman pode trabalhar histórias quase independentes, sem ter que escrever um “Deuses Americanos 2”. Isso é tão verdade que Gaiman já fez isso. Em Coisas Frágeis, coletânea de contos publicada no Brasil em dois volumes, há alguns contos ambientados no universo de Deuses Americanos. Em Os Filhos de Anansi, Gaiman conta a história dos filhos de Anansi (ohhhhh!!!!!! É mesmo?), uma das divindades que aparecem em Deuses Americanos.

E por falar em deuses (a história é sobre eles, lembram-se?), é impressionante a quantidade de divindades descritas por Gaiman. O trabalho de pesquisa deve ter sido intenso, o que, aliado à fértil imaginação do escritor inglês, resultam em uma constelação de deuses que ocupam os mais diversos espaços. Apenas para citar um exemplo, a Rainha de Sabá é aqui uma deusa que trabalha como prostituta e encontra uma maneira mais do que original de ser adorada e de receber oblações e sacrifícios.

Deuses Americanos é um livro que diverte bastante. Apesar de longo, não há altos e baixos: a narrativa é bem construída e todo o processo de leitura é agradável. Depois de ter gostado bastante de Coisas Frágeis, consolido a opinião de que Neil Gaiman é um dos mais hábeis inventores de histórias fantásticas que conheço.

P.S.:  Uma notícia interessante que acabei de descobrir: A HBO está prestes a iniciar a gravação da série American Gods. Há diversos rumores, como um que diz que a previsão é de seis temporadas, mas o próprio Gaiman confirmou em uma entrevista bem recente que os últimos detalhes contratuais já estariam fechados e ele mesmo participaria da elaboração do roteiro. É só aguardar!

Minha Opinião:

5 estrelas em 5

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Resenha – O oceano no fim do caminho – Neil Gaiman

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2013-07-04 22:50

Literatura, Neil Gaiman, Resenha literária, Imaginação, Quadrinhos, Revisão editorial

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

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De Neil Gaiman eu li, há bastante tempo, a série Sandman. Não lembro exatamente quais foram os arcos, mas lembro-me claramente de uma revista especial sobre Morte, irmã de Sandman, também um dos sete perpétuos. Como sempre acompanhei quadrinhos (e quando falo acompanhar refiro-me a acompanhar de longe mesmo, já que eu não tinha dinheiro para comprar), sempre via seu nome associado a grandes criações, reverenciado juntamente com outros monstros dos quadrinhos, como Alan Moore, Warren Ellis e Frank Miller, por exemplo.

Alguns anos se passaram – não sei quantos – e fui afastando-me paulatinamente dos quadrinhos e aproximando-me mais da literatura. Só então fui tomar conhecimento de que Neil Gaiman também escrevia. Mas, imaginava eu, ele deveria produzir literatura “barata”, voltada para nerds leitores de quadrinhos. Um determinado dia, os dois volumes de Coisas Frágeis estavam por R$ 9,90 cada um no site da Saraiva. É a minha oportunidade de saber como ele escreve, pensei. Por esse preço, vale a pena o risco. Comprei e encantei-me com seus contos. Alguns mais simples, outros mais elaborados, mas sempre muita, muita imaginação. Fui ficando cada vez mais curioso para ler Deuses Americanos, considerada sua grande obra. Quando finalmente li, caramba… que imaginação impressionante, que prosa segura, que contador de histórias o Sr. Gaiman é (mais sobre Deuses Americanos aqui)!

Eis que agora chega às livrarias seu novo livro, o que, naturalmente, chamou a minha atenção. Não perdi tempo e pedi logo o meu exemplar à Editora Intrínseca. Cheguei de viagem ontem, depois de dez dias ausente, e cá estava a caixinha de papelão com o adesivo da Intrínseca. Ontem mesmo, por volta de meio dia, comecei a ler. Antes das cinco havia terminado, com uma breve pausa para o almoço. Acredito que isso diz muito.

O oceano no fim do caminho é um livro curto, com 202 páginas. Conta a história de um homem com cerca de cinquenta anos que retorna à sua cidade natal depois de muito tempo para um funeral. Ele resolve visitar a casa onde passou parte da sua infância, e lembranças há muito escondidas vêm à tona. Após o pequeno prólogo, o restante do livro dedica-se ao que viveu este homem quando tinha sete anos de idade.

Ele era um menino introspectivo e apaixonado pelos livros, e morava numa grande casa no campo, com seus pais e sua irmã. Já no primeiro capítulo, Gaiman conquista os bookworms como eu apenas descrevendo o bolo de aniversário do menino:

“Havia uma mesa arrumada com gelatinas e pavês, um chapéu de festa ao lado de cada prato e, no meio, um bolo com sete velas. Em cima dele, um livro desenhado com glacê. Minha mãe, que organizara a festa, contou que a moça da confeitaria confessara que eles nunca haviam colocado um livro num bolo de aniversário, e que faziam, para a maioria dos meninos, bolas de futebol ou naves espaciais. Eu fui o primeiro livro dela.”

Seus pais enfrentavam dificuldades financeiras e passaram a alugar um dos quartos da casa para ajudar nas despesas. Um homem que havia alugado o quarto comete suicídio dentro do carro de seu pai, e essa tragédia dispara uma série de eventos fantásticos. Ao lado de Lettie Hempstock, uma menina de onze anos que tem onze anos há muito tempo, o menino vai viver aventuras surreais. Ela vive na fazenda das Hempstock, que fica próximo à casa dele, junto com a sua avó Hempstock e sua mãe Hempstock. Na propriedade delas há um lago, que Lettie insistem em chamar de oceano. E é este o oceano no fim do caminho. Há bem mais que um oceano naquele lugar, e o garoto vai descobrir isso muito rapidamente.

Não gosto de escrever sobre um livro contando um enredo, e num caso desses, contar mais do que já fiz é estragar o encanto de mergulhar num mundo repleto de seres sobrenaturais e eventos inacreditáveis. Como mencionei no que escrevi sobre Deuses Americanos, a imaginação de Gaiman é impressionante, e dizer isso expressa muito pouco do que sinto quando o leio. Para ficar em um pequeno exemplo, cito uma “mágica” ou “encantamento” que envolve um pano, uma agulha, uma linha e uma tesoura. Genial.

Acredito que O oceano no fim do caminho seja ainda mais apreciado – ou seja apreciado mais facilmente – por quem tenha lido Deuses Americanos e outros livros que exploram a “mitologia” criada por Gaiman, como Os filhos de Anansi ou alguns contos de Coisas Frágeis. Em Deuses Americanos há algumas pequenas histórias paralelas que deixam entrever como determinados deuses surgiram ou decaíram, e fiquei com a sensação de que O oceano no fim do caminho poderia muito bem ser uma dessas histórias, um conto grande dentro do universo de Deuses Americanos.

Com isso não quero dizer, de forma alguma, que o livro não sobreviva por si só. Trata-se de uma história de descoberta, ou melhor, de redescoberta, já que o homem resolve revisitar seu passado e lembrar-se daquele menino que talvez tenha visto coisas demais cedo demais.

Também é um livro que louva justamente a imaginação, a criação de histórias, e isso se reflete num momento crucial na vida do pequeno menino, em que ele reflete:

“Desde pequeno eu sempre pegava várias ideias emprestadas dos livros. Eles me ensinaram quase tudo o que eu sabia sobre o que as pessoas faziam, sobre como me comportar. Eram meus professores e meus conselheiros. Nos livros, os garotos subiam em árvores, então eu subia em árvores, às vezes muito altas, sempre com medo de cair. Nos livros, as pessoas subiam e desciam pelos canos de escoamento da água da chuva para entrar e sair das casas, então eu também subia e descia por eles.”

Antes de encerrar, duas observações sobre o livro em si, uma positiva, outra negativa:

Gostei muito da edição. A capa é belíssima, e há uma ilustração em preto e branco que vem logo quando você abre o livro, uma réplica da capa. Não sei tecnicamente o nome, mas aí está:

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Por outro lado, notei, durante a leitura, três erros de revisão, como, por exemplo:

“Não vamos falar com ele até que esteja autorizado a ser juntar de novo à família” (pág. 90).

“Lá dentro coisa tinha começado a se desenroscar lentamente” (pág. 120).

Pode parecer pouco, mas meu padrão de tolerância de erros num livro é zero. Um erro já é uma falha grave. Isso porque lançar um livro não é brincadeira, não se trata de um investimento pequeno. No caso de um livro como esse, houve quem traduzisse, revisasse, diagramasse e sei lá mais quantos passos até que o livro tivesse sua versão final e fosse impresso e enviado às lojas. Erros como esse demonstram que o esmero aplicado na produção da capa, na impressão e no projeto gráfico como um todo não foi o mesmo da fase de revisão. Ressalto, contudo, que sou extremamente chato em relação a isso. Há quem leia e nem note. Há quem leia e note, mas não se importe.

Claro que isso não tira em nada o brilho de O oceano no fim do caminho. Trata-se de um livro delicioso, literatura que diverte, entretenimento de alto nível. Se você gosta de dar asas à imaginação, é um prato cheio. Pena que, apesar de cheio, é um prato pequeno. Gostaria muito de ler mais sobre Lettie e as outras Hempstock.

Minha Avaliação:

4 estrelas em 5

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Deuses Americanos – Neil Gaiman

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2012-12-04 21:16

Literatura de fantasia, Mitologia, Neil Gaiman, Adaptações literárias, Cultura americana

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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Neil Gaiman ficou famoso pela série de quadrinhos Sandman, mas seu portfólio inclui, além dos quadrinhos, roteiros de filmes, biografias de bandas (seu primeiro livro foi sobre a banda Duran Duran), crítica literária, contos e romances.

Deuses Americanos é seu romance mais premiado (venceu o Hugo e o Nebula, tradicionais prêmios na área de fantasia), e provavelmente é o mais ambicioso trabalho do escritor inglês.

A premissa é a seguinte: quando os Estados Unidos foram colonizados, os ingleses, irlandeses, poloneses, africanos, enfim, cada um dos povos trouxe suas crenças, seus deuses, suas superstições, que se encontraram com as crenças dos nativos. Na visão de Gaiman, a fé dessa gente os acompanhou de maneira personificada. Diversos deuses vieram da Europa, da África, da Ásia, onde eram adorados, para ser esquecidos aos poucos na América. Em seu novo habitat poucas pessoas lhes rendiam louvor, lhes ofereciam sacrifícios, lembravam-se de seus nomes em suas orações. Com isso os deuses foram se enfraquecendo. Eles, que vieram poderosos de seus antigos lares, agora viviam como os humanos, ganhando a vida, muitas vezes de forma miserável, com trabalhos algumas vezes honestos, outras vezes nem tanto. Acabaram engolidos pelo gigante americano, pelo monstro de tecnologia e eficiência, que despreza as tradições e cospe nos velhos valores. Os velhos deuses passaram a ver seus altares esvaziados, enquanto os altares dos novos deuses recebiam todo tipo de oferta. Surgiram assim os novos deuses, os deuses americanos: o rádio, a televisão, a internet, o jornal. Deuses ainda ébrios pelo poder recém-adquirido e que acham que não há mais espaço para os velhos deuses. Vislumbra-se, num horizonte perigosamente próximo, um confronto: o novo versus o antigo.

Gaiman possui uma prosa direta, simples, mas bastante elegante. Em sua narrativa há espaço para um humor requintado, para uma dose razoável de suspense e aqui e acolá algumas amostras de ação. Mas se há algo que me pareceu característico em Deuses Americanos é que não há urgência no seu modo de contar a história, mesmo considerando-se que dentre os fatos que ele narra, pode estar incluído o fim do mundo – ou algo parecido.

O centro da narrativa de Deuses Americanos é Shadow, um homem grande, bastante grande (característica que é percebida e lembrada por quase todos os personagens que cruzam seu caminho). O livro começa com Shadow prestes a sair da prisão e reencontrar sua esposa. Ele tem um pressentimento bem leve de que algo não está certo, de que aquela ansiedade para deixar a prisão, aquele sentimento de que finalmente sua vida vai recomeçar podem ser o prenúncio de que nem tudo vai dar tão certo assim.

Depois de uma série de surpresas, que é melhor não revelar por aqui, Shadow acaba trabalhando para um homem misterioso autodenominado Wednesday. Seu trabalho inclui pequenos golpes, dirigir, pegar algumas coisas pesadas, conversar com deuses… Durante essa jornada com Wednesday, Shadow tem conhecimento dos planos dos novos deuses e do que Wednesday, um dos antigos (é só verificar seu nome para ver quem ele é), planeja fazer em retaliação. Shadow encara com estranha e inesperada naturalidade todas essas histórias, inclusive os bizarros encontros com as mais diversas divindades. Um desses encontros, um dos mais interessantes, envolve um truque de prestidigitação com a lua e uma aposta arriscada num jogo de damas.

Como expliquei acima, Gaiman não tem pressa. Há um confronto por vir, e ele adianta algumas coisas, cria a expectativa de que logo veremos ação. Mas ele está preocupado em contextualizar. Às vezes interrompe a narrativa para contar uma pequena história que se passou há duzentos anos ou que se passou na noite anterior, a dois mil quilômetros de onde Shadow está.

Gaiman investe tempo para dar vida a Shadow. Nós o vemos criar e perder amizades, fazer boas ações, comprar pão, passar frio, negociar um carro, tomar uma cerveja, querer morrer, querer viver, rejeitar uma refeição… Em tudo isso, todavia, há um domínio narrativo. Percebemos que não se trata de “encher linguiça”. Gaiman tem tudo na mão. Sabe exatamente que história quer contar e como quer contá-la. A seguir um trecho que ilustra bem essa preocupação do autor, bem como o espírito da prosa do livro:

– Deixe eu falar uma coisa – disse o senhor Nancy. – Pode passar muito tempo até a próxima refeição. Se alguém oferece comida, você aceita. Eu não sou mais tão jovem quanto era, mas posso dizer… nunca perca a oportunidade de mijar, comer ou dar um cochilo de meia hora. Está entendendo?

– Estou. Mas não estou com fome mesmo.

– Você é grandão – disse Nancy, olhando nos olhos cinza-claro de Shadow com seus olhos velhos cor de mogno. – Um pedaço de mau caminho, mas eu preciso falar, você não parece muito inteligente. Você lembra meu filho, que é tão imbecil como se tivesse comprado sua burrice numa liquidação de dois por um.

– Se não se importar, vou considerar isso um elogio.

– Ser chamado de idiota como um homem que dormiu até tarde na manhã que estavam distribuindo cérebros?

– Ser comparado a um membro da sua família.

O senhor Nancy amassou a cigarrilha no cinzeiro, depois tirou um ponto de cinza imaginário de suas luvas amarelas.

O resultado é um livro cuja leitura é deliciosa. E se tudo parece sem explicação em alguns momentos, à medida que o livro vai chegando ao fim, vemos como tudo (ou quase tudo) se encaixa. Disse quase tudo porque a quantidade de ganchos é imensa. A impressão é que Deuses Americanos pode servir como a matriz de um gigante universo. O livro estabelece o cenário, o ambiente, e a partir daí Neil Gaiman pode trabalhar histórias quase independentes, sem ter que escrever um “Deuses Americanos 2”. Isso é tão verdade que Gaiman já fez isso. Em Coisas Frágeis, coletânea de contos publicada no Brasil em dois volumes, há alguns contos ambientados no universo de Deuses Americanos. Em Os Filhos de Anansi, Gaiman conta a história dos filhos de Anansi (ohhhhh!!!!!! É mesmo?), uma das divindades que aparecem em Deuses Americanos.

E por falar em deuses (a história é sobre eles, lembram-se?), é impressionante a quantidade de divindades descritas por Gaiman. O trabalho de pesquisa deve ter sido intenso, o que, aliado à fértil imaginação do escritor inglês, resultam em uma constelação de deuses que ocupam os mais diversos espaços. Apenas para citar um exemplo, a Rainha de Sabá é aqui uma deusa que trabalha como prostituta e encontra uma maneira mais do que original de ser adorada e de receber oblações e sacrifícios.

Deuses Americanos é um livro que diverte bastante. Apesar de longo, não há altos e baixos: a narrativa é bem construída e todo o processo de leitura é agradável. Depois de ter gostado bastante de Coisas Frágeis, consolido a opinião de que Neil Gaiman é um dos mais hábeis inventores de histórias fantásticas que conheço.

P.S.:  Uma notícia interessante que acabei de descobrir: A HBO está prestes a iniciar a gravação da série American Gods. Há diversos rumores, como um que diz que a previsão é de seis temporadas, mas o próprio Gaiman confirmou em uma entrevista bem recente que os últimos detalhes contratuais já estariam fechados e ele mesmo participaria da elaboração do roteiro. É só aguardar!

Minha Opinião:

5 estrelas em 5

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

O livro do cemitério – Neil Gaiman

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2011-07-15 14:09

Literatura infantil, Expectativa versus realidade, Análise literária, Contos góticos, Crítica literária

Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

“Para Ninguém Owens, criado desde bebê por fantasmas e seres de outro mundo, a morte é apenas a morte e o perigo está na vida, do outro lado dos portões do cemitério. Lidar com os vivos é a lição mais difícil que o menino terá de aprender. Tão difícil quanto crescer”.

O excerto supracitado se encontra na contracapa do livro aqui comentado. Bastou isso para que a vontade de lê-lo surgisse. Isto, somando à leitura das primeiras páginas,  ainda em pé, na livraria onde me encontrava.

“A mão estava no escuro e segurava uma faca”

Assim começa o romance/fábula de Neil Gaiman, vencedor da medalha Jonh Newberry, um dos grandes prêmios da literatura infantil norte americana. A frase, escrita numa página preta e com um desenho ilustrando a própria frase, inicia o livreto de forma cruel e perturbadora, preparando-nos para as próximas páginas. Em seguida, o autor detalha uma cena na qual, toda a família do protagonista, um bebê com ainda dois anos, jaz morta, tendo como o seu algoz um “homem chamado Jack”.

Perfeito. Gostei demais. Gostei também porque o romance apresentava belíssimas e estilizadas ilustrações. Resolvi então que deveria lê-lo. Todavia, não seria daquela vez que eu iria me apossar do romance. Esperei por volta de quatro meses para comprá-lo. Quando finalmente adquiri-lo e comecei a leitura e terminei… Decepção.

A minha impressão inicial, e a criação que bolei mentalmente sobre a história, era a de que o livreto seria uma mistura de Antoine de Saint Exupéry (especificamente, no estilo de “O pequeno príncipe”) mais Edgar Allan Poe: personagens plenos de simbolismos somados ao clima gótico dos contos Poelianos. Ledo engano. Realmente o texto é sombrio, gótico, de linguagem simples e acessível; a personagem, assim que chega e passa a viver no cemitério, conhece bons e históricos personagens, mas de longe o simbolismo, sabedoria e os ensinamentos de Saint – a partir das suas personagens – se encontram no romance de Gaiman. E mais, mais, a história, que começa muito bem, termina por apresentar, de forma simples – e, do meu ponto de vista, atropelada -, caminhos fáceis e justificativas “bobinhas” para por fim a toda uma trama até então feliz e honesta: conspirações e grupos que sobreviveram desde os tempos das pirâmides, homens de preto, e, por fim, um menino escolhido e que precisa ser morto… Tenha dó de eu.

A frase “Lidar com os vivos é a lição mais difícil que o menino terá de aprender” gerou uma forte expectativa em mim. “Caramba! Aprender com os mortos sobre os vivos!“, pensei. Uma ideia semelhante a do Memórias póstumas: um morto que não mais precisará ter pudores, passar a mão na cabeça dos vivos – já que você está morto, não deve mais nada a ninguém. Pensei nisso tudo. Pensei num romance que ensinasse.

O texto, obviamente é bem escrito, claro; contudo, a trama em si, mesmo não suprindo todas as minhas expectativas, da metade para o final (e, principalmente o final), não consegue deslanchar e emocionar e convencer.

Um boa aventura… mas não passa disso.

Ps: Era melhor assistir ao filme do Pelé, diria Chaves.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

How to Talk to Girls at Parties

Fonte: cinema de novo | Publicado em: 2017-05-01 00:00

cinema, adaptação literária, ficção científica, punk

Novos pôsteres: How to Talk to Girls at Parties

Baseado em um conto de Neil Gaiman, How to Talk to Girls at Parties não tem exatamente o visual ou a temática que se espera de um filme que está circulando por grandes festivais – sim, ainda estou falando de Cannes! – e que está sendo cotado para premiações. Mas não é maravilhoso que ele esteja nessa posição?

O filme, que tem roteiro e direção de John Cameron Mitchell, mostra o que acontece quando a alienígena Zan (Elle Fanning) resolve se distanciar de seu grupo – que está fazendo um tour pela galáxia, aliás – para interagir com os habitantes de um dos lugares mais perigosos do universo: o subúrbio londrino de Croydon. A propósito, tudo se passa em plenos anos 1970 e há uma aura de ‘punks versus aliens’ no ar.

Nicole Kidman, Ruth Wilson, Matt Lucas (obviamente!), Alex Sharp, Ethan Lawrence e Abraham Lewis fazem parte do elenco. Por enquanto, o longa-metragem ainda não tem uma data de estreia confirmada.

Olha, eu nunca tive dificuldades.

Texto originalmente publicado em cinema de novo