Por José Reinaldo do Nascimento Filho

Terminei.

“Para Ninguém Owens, criado desde bebê por fantasmas e seres de outro mundo, a morte é apenas a morte e o perigo está na vida, do outro lado dos portões do cemitério. Lidar com os vivos é a lição mais difícil que o menino terá de aprender. Tão difícil quanto crescer”.

O excerto supracitado se encontra na contracapa do livro aqui comentado. Bastou isso para que a vontade de lê-lo surgisse. Isto, somando à leitura das primeiras páginas,  ainda em pé, na livraria onde me encontrava.

“A mão estava no escuro e segurava uma faca”

Assim começa o romance/fábula de Neil Gaiman, vencedor da medalha Jonh Newberry, um dos grandes prêmios da literatura infantil norte americana. A frase, escrita numa página preta e com um desenho ilustrando a própria frase, inicia o livreto de forma cruel e perturbadora, preparando-nos para as próximas páginas. Em seguida, o autor detalha uma cena na qual, toda a família do protagonista, um bebê com ainda dois anos, jaz morta, tendo como o seu algoz um “homem chamado Jack”.

Perfeito. Gostei demais. Gostei também porque o romance apresentava belíssimas e estilizadas ilustrações. Resolvi então que deveria lê-lo. Todavia, não seria daquela vez que eu iria me apossar do romance. Esperei por volta de quatro meses para comprá-lo. Quando finalmente adquiri-lo e comecei a leitura e terminei… Decepção.

A minha impressão inicial, e a criação que bolei mentalmente sobre a história, era a de que o livreto seria uma mistura de Antoine de Saint Exupéry (especificamente, no estilo de “O pequeno príncipe”) mais Edgar Allan Poe: personagens plenos de simbolismos somados ao clima gótico dos contos Poelianos. Ledo engano. Realmente o texto é sombrio, gótico, de linguagem simples e acessível; a personagem, assim que chega e passa a viver no cemitério, conhece bons e históricos personagens, mas de longe o simbolismo, sabedoria e os ensinamentos de Saint – a partir das suas personagens – se encontram no romance de Gaiman. E mais, mais, a história, que começa muito bem, termina por apresentar, de forma simples – e, do meu ponto de vista, atropelada -, caminhos fáceis e justificativas “bobinhas” para por fim a toda uma trama até então feliz e honesta: conspirações e grupos que sobreviveram desde os tempos das pirâmides, homens de preto, e, por fim, um menino escolhido e que precisa ser morto… Tenha dó de eu.

A frase “Lidar com os vivos é a lição mais difícil que o menino terá de aprender” gerou uma forte expectativa em mim. “Caramba! Aprender com os mortos sobre os vivos!“, pensei. Uma ideia semelhante a do Memórias póstumas: um morto que não mais precisará ter pudores, passar a mão na cabeça dos vivos – já que você está morto, não deve mais nada a ninguém. Pensei nisso tudo. Pensei num romance que ensinasse.

O texto, obviamente é bem escrito, claro; contudo, a trama em si, mesmo não suprindo todas as minhas expectativas, da metade para o final (e, principalmente o final), não consegue deslanchar e emocionar e convencer.

Um boa aventura… mas não passa disso.

Ps: Era melhor assistir ao filme do Pelé, diria Chaves.