Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica
Já por cá falei, inúmeras vezes, da minha relação com poesia. A verdade é que a minha curiosidade com este livro foi sempre mais histórica do que exactamente literária. Recomendo, desde já, caso nunca o tenham feito: vejam a série "3 Mulheres", disponível na HBO, que fala de Natália Correia, Snu Abecasis e Maria Armanda Falcão (Vera Lagoa); grande parte do relato sobre Natália, nesta série, versa precisamente sobre a edição e publicação da obra que hoje vos trago, bem como as suas consequências.
Em Dezembro de 1965, foi publicada, pela Editora Afrodite, a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, na qual Natália reuniu poemas (e não só! Há textos em prosa) de autorias diversas, desde a Idade Média até a poetas seus amigos e contemporâneos. Saliente-se, desde já, que há apenas quatro mulheres representadas na Antologia, incluindo a própria Natália - que teve o cuidado de trazer para a edição nomes respeitabilíssimos como Luís de Camões, Almeida Garrett, Fernando Pessoa..., ancorando-se na tradição do escárnio para justificar a vertente satírica.
Cosmocópula
I
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras
II
O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso da água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
-- Natália Correia
Como expectável, uma obra de tamanho pendor escandaloso foi rapidamente apreendida pela PIDE, e os escritores e poetas Mário Cesariny, Luiz Pacheco, José Carlos Ary dos Santos, Ernesto de Melo e Castro e o editor Fernando Ribeiro de Mello, juntamente com Natália Correia, foram julgados e condenados em tribunal, num processo moroso, que se arrastou durante anos, e no qual apenas o lado erótico foi trazido a julgamento, com receio que a crítica política tomasse demasiado protagonismo.
Ribeiro de Mello previa já este destino, tendo inclusive preparado uma "edição pirata", simulando origem brasileira, de modo a manter a obra em circulação; e Natália preparou a sua defesa em tribunal numa intervenção em forma de poema (como fez mais tarde em Assembleia).
O conteúdo, volto a dizer, não me desperta particular interesse - tem alguma piada, é certo, e não sabia que as freiras outrora tinham sido musas de poesia erótica. Foi também interessante ter aqui uma primeira abordagem a alguns nomes que nunca tinha lido. De particular interesse, nesta edição da Ponto de Fuga, é o texto introdutório do editor, Vladimiro Nunes, que recorda e documenta algum do processo de elaboração do livro, bem como da perseguição de que Natália foi vítima durante o Estado Novo.
4/5
A edição aparece esgotada em tudo quanto é sítio, mas falem com a editora.
