Gervasio Troche/reprodução
Tranças e arrumações de última hora feitas sob um céu de anis. Podia mesmo se confiar, mesmo, que se podia confiar. Mesmo? Ah, deixa pra lá. Duas horas nunca fizeram falta a ninguém mesmo.
André Vieira
Laçada solta, gravata apertada, meia-calça joelho, sobretudo em ombros e cotovelos, pálida vermelho-rubro nos lábios, sério emburrado com o atraso. Todo dia que iam ao café desafogar a agenda e engordurar as páginas, voltavam pras velhas discussões de sempre aliadas às novas resoluções de nunca; “misto-quente com suco ou croque-monsieur e limonada?”; “picolé de menta e chocolate ou sorvete de pistache com abacaxi?”; “Café, preto, açúcar pra lá ou água quente, sachê-chá ? Aquelas dúvidas rotineiras rondavam aquela mesa quadrada de pontas pontuadas e pés chatos na esquina do Preto Zezinho, principalmente quando pingavam e ventavam opiniões alheias no fim de matinês pomposas e emergiam as bocas de lixo chiques no começo das juninas-julinas — e chovia pra caralho em casas sem teto, principalmente quando nublava.
Mas dessa vez o tempo parecia abrir. Gel e fita na estica, pernas longas de sapatos pretos, num desengonçado ajeitar de suspensórios no peito e sorriso torto no rosto do espelho: “’tá pra hoje”, dizia enquanto dedilhava as chaves num movimento rápido na palma grande. Descendo o sobrado, de escadas que davam pra rua, fechou a porta sem nenhuma preocupação; socou a jaqueta jeans no fusca marrom, esticou as coxas lee numa embreagem funda: (r)espirou com força o muco do alcatrão antigo e de pinheiro velho e foi buscar na caixinha a alegria dos estarrecidos. Vermelhos. Azuis. Amarelos dedos apertavam com força o guidão creme enquanto a maria-fumaça tomava rumo. Presente querida da ex-tada na estrada dos pinhais em busca de peças novas pro ferro velho. Lembranças espúrias dum sonho simples.
Só parecia. Já tinha desistido de desistir. Sutiã na sala, sapatos na varanda, sala de calças, hall de meias, sacada dos países baixos. Holanda, Bélgica, Bruxelas. Tranças e arrumações de última hora feitas sob um céu de anis. Podia mesmo se confiar, mesmo, que se podia confiar. Mesmo? Ah, deixa pra lá. Duas horas nunca fizeram falta a ninguém mesmo. A não ser, claro, que se quer, claro, chegar de praxe e não armar uma cena ali, claro. No escuro, se aposta até em número de azar. Atire a primeira pedra quem nunca torceu pro errado vir primeiro aos outros. Jogou uma jeans apertada e se espremeu no decote preto, sem muita perspectiva. Voou quinze andares sem fôlego, abrindo a do passageiro com tacho e vinte minutos de tolerância carimbados na cara: “cê tá bem?” Perguntou a da frente pro banco encharcado de glitter e perfume barato, “pé, na tábua, queride”, sorriu com os lábios tomados pelo estampar do vermelho nos dentes madrepérola.
Remexendo o espeto no que era copo com gelo, a paciência murchava. Dois mistos de tédio e rancor rasgavam os lábios besuntados pelo azedume dos molhos açucarados da praça. “o inferno são os outros”, se lamuriava fixo no espelho fosco no qual digitava as dores do dom narciso e encetava pra si a chegada daquela noite marejada. Noite clara. Misturava luzes a cada gole e copada que ouvia a porta tracejar poucos milímetros ou o garçom anunciar pela milionésima vez que não tinha Heineken e que só vendia de seiscentas. Dezenas, fileiras de soltos, esparsos e rasos pratos se prostravam à sua frente, junto com a pré-embriaguez que vinha com força estalando junto ao relógio acima do caixa: 19h39.No trono pela trigésima, coube o bico na quina pela quinta, e de novo se encontra de novo nos bastidores filando mascado com os funcionários. Não queria ser aquele, não teria que ser deste.
Discreta, de longe, o pavão finge não ouvir seu nome quanto faltam três conto na conta do uber. Que se foda. Tira do bolso um drops e sussurra, de leve: “um halls não cai mal, bebê”. Recebe uma geladeirada na cara e um belo cuspe no asfalto: aceita um chiclé? Oferece o segurança armário paletó preto listrado. Esboça um sorriso largo escondendo a cara de bosta e aversão pelos petroquímicos refinados. Puxa o alcatrão do fundo da consciência Lacoste e a faz encontrar seus lábios, sem antes de mentolá-la numa explosão de mau-hálito e alívio pós-esse-estresse. Justo. Quinze minutos de chá antes de poder se sentar no bar. Memorável. Retoca no espelhinho a memória do celular deixado no armário. Amigável. Puxa dois bofes no balcão: estica, belisca, palpita: “cês tão esperando por alguém?”. Rebita, menina. Se escolta ao saloon à caça: “pupilas arregaladas, narinas empinadas, olhos no prêmio”. Cadê o chapa? Soluça fundo o oceano e os cavalos marinhos de dentro do poço, cantarola uma cantiga com mar: “Chegou cedo, hein, caraio?” Brincantes.
Consumado o tento do tempo, os dois se viam, enfim, juntos, entre bafos mentolados de cachaça e pinga esgarçada de tabaco. Nunca se vira tão felizes. Até que da matraca veio o pigarro:
— “Mas me conta linda, qual é a boa de hoje?”, revirava os oculares baixos por debaixo da fumaça branca entre quatro paredes.
— “Cê sabe que eu não sei, mano. Tava pensando em esticar pruma lá no centro, fritar na pista, morder com força um pedaço do dia; abocanhar a face da lua”. Mordia os lábios, com um sorriso malicioso.
— “Mano, por mim eu esticava pra uma camisinha mais barata. Cê louco. Deixei trezentos contos te esperando aqui na birosca. E o teu celular? Te mandei mais de um milhão de áudio naquele grupo nem recebi confirmação que tinha ido.”. Braveava, enquanto seu nariz se tornava mais tomate-cereja.
— “Cara, nem te conto do aperto que passei. Encheção do trampo, paranoias na cabeça, devaneios acordada, ansiedade em te encontrar e te abraçar: te contar do meu dia, te falar que como vão as meninas, o mercado da arte, as margaridas recém-colidas, a samambaia nova, os gatos gordos, os pais chatos, o pão artesanal, as aquarelas, o infinito vazio que badala na concha oca e se faz sentir na madrugada adentro. As manhãs inocentes de noites insones e o trabalho acumulando no lombo das costas para ser entregue na primeira hora da tarde. Sei lá, essas coisinhas à toa.”. Se aproximou do rosto dele e pôs as mãos entre o queixo, numa forma de caricia que lembrava um abraço.
— Vendo de soslaio os olhos apaixonados, resvalou um sorriso sisudo tirando as mãos estrangeiras do pescoço, e meio sóbrio meio perdido, sustentou: “olha. Já falamos sobre isso, Mariana. Já te disse o que eu acho, e acho que isso não muda de uma semana pra outra. Podemos até tentar de novo”, matou uma de seiscentos numa golada só, “mas o que vai restar é a decepção”.
Do indispensável sorriso, só restaram a lágrima e o pulso firme contra a decepção das palavras. Do amargo, veio o buquê de nervos, junto com a ida repentina ao fumódromo em busca de respostas rápidas para perguntas complexas. De duas vozes, se fez uma tempestade que levantou tudo: os pratos, os garfos, os cadarços, os copos, os gritos, os corpos: a poeira. Reação incendiária? Fúria desmedida? Sanha aferida? Pras chagas e feriadas a ígnea chama no pulmão abranda tudo, principalmente se seguida pela confirmação por outros pares, mesas, bares e olhares nas redondezas do olho do furacão. A noite a dois que aguardasse.
Uma tonelada pesa depois da décima sétima. Os reflexos não respondem: braços, mãos, calça-carteira, olhos-olheiras, plantas-pés com tudo parecendo ser material rígido, duro e movediço enquanto se nada em águas claras e olhares reprovantes de causos alheios. A cabeça dói, o inconsciente geme, a barriga embrulha. “É hoje”, admite. Esfrega os olhos contra os ombros, em movimento atávico de embriaguezes mais simples enquanto peregrina até o caixa. Paga a comanda cheia. Desmente pelo menos dez vexames. Ignora a vergonha que lhe sobe à cabeça tomate. Agradece e segue pro inferninho dos pigas. Esbarra no armário terno listrado. “Opa xará, turo bom?”, é recebido calorosamente.
Delimitada por correntes de plástico e pontilhado amarelo, o quadrante do tédio desfoca das bitucas de pedras portuguesas pras luzes tênues de transeuntes sombrios e de desejos ávidos — pelo menos aqueles que não têm nome de fome, nem cara de miséria. No breu, uma mão encontra a dela e se unem no enlaçar de sombras, ébria-ébano, negro dourada, paz aferida. Egoica ferida.
Filha da puta. De súbito, se calam todos os ímpetos de piedade, ou todos os gestos investidos de pretextos autocongratulatórios. Por quem nos compadecemos, por quem rezemos e nos tolhemos mesmo? Mesmo? No escape-fumaça, o que vale é reafirmar o que já sabemos, vitimizando a culpa de quando e quem se viveu pela falta. Esbanja. Em olhares tristes de festas pela metade ou de expectativas muito altas, o que mais dói é saber que somos quem somos sem a máscara do Narciso, sem as tarjas que nos rotulam, dizendo quanto custamos no mercado das atenções.
— “Porra, meu chapa, vaza pra lá!”, estapeou o rosto virgem do colega negro. No próximo ato, seu joelho iria no seu corpo, decaído pela raiva do que não era e nunca poderia ser. Muito atento, armário terno listrado, de praxe, só aparta o ocaso quando o fim já estava próximo. “É preciso ter cuidado com caras, mano”, lhe sussurrou, acredito que a si mesmo, enquanto seu semelhante de afetos e valores punha castigava com força seu gêmeo de carne. A devoção ao outro só ocorre quando não o somos.
—“Porra, ele tá morrendo, caralho! Cê não vai fazer nada não, cara?”, entoavam os brados em torno do quadrado. “Senhores, por favor, se forem entrar, peguem primeiro uma comanda.”, resumiu.