
Mais sobre o livro AQUI
Começo por esclarecer que nada do que possa escrever a seguir fará justiça à qualidade deste livro, cada um tirará dele o enriquecimento pessoal que o momento da sua vida permitir e que a sua elasticidade de pensamento deixar.
Foi-me impossível chegar a meio do livro sem fazer juízos de valor. E agora que o acabei sei que a autora, a mãe destes dois jovens, me compreenderia melhor do que qualquer outra pessoa.
Esta talvez seja a principal razão pela qual me apaixonei por este livro que relata aquilo que mais temo na vida.
Os julgamentos que o meu raciocínio procurava fazer não queriam condenar a tragédia desta família nem esta mãe, queriam, numa constante procura de auto preservação, encontrar todos os elementos que separassem estes filhos dos meus filhos, o que esta mãe é da que eu sou, acalmando os meus medos e deixando-me segura de que, com essa distância, o que ali aconteceu, não é possível na minha realidade. Este raciocínio é natural, porque temos de acreditar que conseguimos o melhor para os nossos e que, fazendo-o, virando-nos do avesso se necessário for, controlamos a vida, apesar de a vida ter vida própria e por vezes sermos total e absolutamente impotentes quanto ao que está para vir.
A autora oferece-nos a sua história, um pequeno vislumbre daquilo que podemos imaginar ser a sua dor, e o seu pensamento. Um pensamento trabalhado, uma forma absolutamente racional de encarar a vida para conseguir seguir em frente, respeitar a memória dos que mais ama e, mais importante do que tudo, numa perspetiva que eu provavelmente não teria alcançado sozinha: evitar a ideia de luto, como forma de encontrar um fim para a dor, aceitando-a para manter vivo o que ainda resta dos seus filhos, recordando-os todos os dias apesar do sofrimento que isso implica.
Recordar, quando inclui encarar a perda de quem amamos, é sofrer.
Yiyun Li não usou a tragédia de cada morte para arrepiar a pele do leitor, em vez disso, escreveu sobre os filhos em vida e demonstrou em cada página, respeito e até aceitação por aquilo que lhes aconteceu.
À margem dos acontecimentos que estão na base deste livro, todos temos a aprender com o que nele está relatado. Não necessariamente aplicando essa aprendizagem à possibilidade de nos acontecer a perda mais inominável de uma vida, mas porque, para além dessa perda, está tudo o resto que apenas continua. A nossa relação com o outro, a franqueza em aceitar que não sabemos o que fazer, a humildade de perguntar o que podemos fazer e, por vezes, o que de melhor e mais sábio podemos fazer é nada. Simplesmente nada. Só estar. Compreender que nem todas as dores têm de ser ultrapassadas, mas geridas, porque a vida, queiramos ou não, desejemos ou não que seja de outra forma, continua sempre.
Ficam comigo pensamentos que aqui li e que, por muita sorte ou azar que a vida me reserve, me ajudam a ser melhor pessoa desde o dia em que passaram a fazer parte de mim.
Deixo abaixo algumas (poucas, comparando com o que sublinhei) das passagens que foram importantes para mim e remato, não recomendando, mas talvez pedindo, que leiam este livro.
“Um caso de vida e de morte nunca se encerra milagrosamente quando a morte é declarada.”
“É possível que a ficção seja mais mansa do que a vida.”
“As intuições são narrativas sobre potencialidades, possibilidades e alternativas. Nesse sentido, as intuições são ficção, até que, confirmadas pela vida, se transformam em factos.”
“Quando me perguntam onde estou no processo de luto, fico sem saber se fazem ideia do que é perder alguém. Que sozinhos se sentiriam os mortos se os vivos emergissem da sombra da morte, batessem palmas, sacudissem o pó das calças e anunciassem a si mesmos e ao mundo: o meu luto terminou; daqui em diante, as coisas retomam a normalidade, a vida continua.”


