Literatura Contemporânea

4 textos neste tema

Leitura – “Tudo na Natureza Apenas Continua” de Yiyun Li

Por: blogministeriodoslivros

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2026-03-06 14:03

Luto, Maternidade, Percepção da morte, Gestão da dor, Experiência humana, Resiliência

Mais sobre o livro AQUI

Começo por esclarecer que nada do que possa escrever a seguir fará justiça à qualidade deste livro, cada um tirará dele o enriquecimento pessoal que o momento da sua vida permitir e que a sua elasticidade de pensamento deixar.

Foi-me impossível chegar a meio do livro sem fazer juízos de valor. E agora que o acabei sei que a autora, a mãe destes dois jovens, me compreenderia melhor do que qualquer outra pessoa.

Esta talvez seja a principal razão pela qual me apaixonei por este livro que relata aquilo que mais temo na vida.

Os julgamentos que o meu raciocínio procurava fazer não queriam condenar a tragédia desta família nem esta mãe, queriam, numa constante procura de auto preservação, encontrar todos os elementos que separassem estes filhos dos meus filhos, o que esta mãe é da que eu sou, acalmando os meus medos e deixando-me segura de que, com essa distância, o que ali aconteceu, não é possível na minha realidade. Este raciocínio é natural, porque temos de acreditar que conseguimos o melhor para os nossos e que, fazendo-o, virando-nos do avesso se necessário for, controlamos a vida, apesar de a vida ter vida própria e por vezes sermos total e absolutamente impotentes quanto ao que está para vir.

A autora oferece-nos a sua história, um pequeno vislumbre daquilo que podemos imaginar ser a sua dor, e o seu pensamento. Um pensamento trabalhado, uma forma absolutamente racional de encarar a vida para conseguir seguir em frente, respeitar a memória dos que mais ama e, mais importante do que tudo, numa perspetiva que eu provavelmente não teria alcançado sozinha: evitar a ideia de luto, como forma de encontrar um fim para a dor, aceitando-a para manter vivo o que ainda resta dos seus filhos, recordando-os todos os dias apesar do sofrimento que isso implica.

Recordar, quando inclui encarar a perda de quem amamos, é sofrer.

Yiyun Li não usou a tragédia de cada morte para arrepiar a pele do leitor, em vez disso, escreveu sobre os filhos em vida e demonstrou em cada página, respeito e até aceitação por aquilo que lhes aconteceu.

À margem dos acontecimentos que estão na base deste livro, todos temos a aprender com o que nele está relatado. Não necessariamente aplicando essa aprendizagem à possibilidade de nos acontecer a perda mais inominável de uma vida, mas porque, para além dessa perda, está tudo o resto que apenas continua. A nossa relação com o outro, a franqueza em aceitar que não sabemos o que fazer, a humildade de perguntar o que podemos fazer e, por vezes, o que de melhor e mais sábio podemos fazer é nada. Simplesmente nada. Só estar. Compreender que nem todas as dores têm de ser ultrapassadas, mas geridas, porque a vida, queiramos ou não, desejemos ou não que seja de outra forma, continua sempre.

Ficam comigo pensamentos que aqui li e que, por muita sorte ou azar que a vida me reserve, me ajudam a ser melhor pessoa desde o dia em que passaram a fazer parte de mim.

Deixo abaixo algumas (poucas, comparando com o que sublinhei) das passagens que foram importantes para mim e remato, não recomendando, mas talvez pedindo, que leiam este livro.

“Um caso de vida e de morte nunca se encerra milagrosamente quando a morte é declarada.”

“É possível que a ficção seja mais mansa do que a vida.”

“As intuições são narrativas sobre potencialidades, possibilidades e alternativas. Nesse sentido, as intuições são ficção, até que, confirmadas pela vida, se transformam em factos.”

“Quando me perguntam onde estou no processo de luto, fico sem saber se fazem ideia do que é perder alguém. Que sozinhos se sentiriam os mortos se os vivos emergissem da sombra da morte, batessem palmas, sacudissem o pó das calças e anunciassem a si mesmos e ao mundo: o meu luto terminou; daqui em diante, as coisas retomam a normalidade, a vida continua.”

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros

Educação da tristeza de Valter Hugo Mãe

Por: Inês

Fonte: Mar de Maio | Publicado em: 2026-02-03 10:02

luto, perda, literatura, sentimentos, emoções

Quando perdemos alguém, vivemos um luto particular. Um luto que é só nosso, que é diferente do luto de todas as outras pessoas e que é diferente do luto que fazemos das outras pessoas que já perdemos.

Além disso, temos de lidar com a incongruência do mundo. O trabalho tem de continuar. A vida continua. Para as outras pessoas, o mundo continua a girar como se aquela pessoa que nos dizia tanto não tivesse desaparecido. Como se nunca mais a fossêmos ver, ouvir. O mundo simplesmente continua a girar, completamente indiferente à nossa dor.

«Educação da tristeza» de Valter Hugo Mãe é um livro cheio de ilustrações do próprio autor, com capítulos curtos, sobre as suas perdas: o sobrinho sonhador, o pai que já morreu há 20 anos e a amiga Isabel.

O que trocaria, na verdade, é a ideia de ter menos quando se pode ter mais, no sentido bravo dos afectos, no sentido bravo de gostar de mais gente, cuidar de mais gente, declarar a mais gente que nos importa, que admiramos quem são e o que fazem, que nossas vidas ganham razão também pelos instantes em que só nos ocupamos de pensar nos outros.

É um livro triste e algo pesado, mas está muitíssimo bem escrito e faz-nos sentir menos sozinhos com as nossas próprias perdas.

Já leram? Partilham nos comentários!

Texto originalmente publicado em Mar de Maio

Leitura – “Em Tudo Havia Beleza” de Manuel Vilas

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2025-04-15 08:00

luto, relação entre pais e filhos, reflexão sobre a idade, literatura

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Há livros que precisam que estejamos preparados para que os possamos sentir e entender. Acredito que assim é com este livro. Um leitor que tenha perdido os pais sentirá o que está relatado de uma forma e, quem ainda os tenha, sentirá de outra. Mas em ambos os casos ajudará, seja a fazer um luto que já existe ou um luto que sabemos que está para vir.

O mesmo vale para a idade do leitor, sei que, se tivesse lido este livro com vinte, precisaria de o ler novamente agora, depois dos quarenta.

Os livros ajudam-nos a resolver a vida, disso tenho a certeza e este, este ajuda a resolver muita coisa. Mesmo que as nossas bases estejam a anos luz daquelas que teve o autor.

Acontece que muito do relatado por Manuel Villas se aproxima de uma realidade que conheci. Por momentos pensei que seriamos família e que o autor estava lá comigo.

Percebemos tarde demais o quanto gostamos dos nossos pais, percebemos tarde o quanto eles nos amavam. É provável que por isso mesmo tenhamos o cuidado de dizer aos nossos filhos o quanto os amamos, porventura para evitar que eles tenham de esperar quarenta anos para compreender o tamanho desse sentimento.

Nos nossos erros compreendemos aqueles que tanto amamos e perdoamos porque, por fim, os compreendemos humanos.

O meu exemplar deste livro está incapaz de ser usado por outra pessoa, demasiado sublinhado, anotado, manuseado. No fim da leitura passou a ser do Manuel Vilas e meu.

Espero que o leiam.

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros

Leitura – “O Meu Pai Voava” de Tânia Ganho

Fonte: Ministério dos Livros | Publicado em: 2024-10-07 08:00

luto, literatura, perda, memórias

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Gosto de livros que reúnem anotações, pensamentos, pequenos episódios de vida. Há qualquer coisa se muito cru nessa escrita. Não se estão a trabalhar as palavras, escreve-se das entranhas, o que se sente, sem pensar no leitor, porque se escreve para silenciar uma qualquer dor, para acalmar e não porque se quer contar.

Ou talvez esta seja uma coisa que conto a mim mesma.

Se este ano tivesse sido “normal” teria adorado ler este pequeno livro. Mas o meu pai também morreu este ano e eu, que ainda não estou certa de ter aceitado essa partida, senti ainda mais o que está escrito nestas páginas. Não porque a história se pareça. Nada têm em comum para além de ambos serem pais (o meu e o da autora), mas a dificuldade em aceitar a partida aproxima-me de quem escreve.

Gostei muito de ler este livro.

Texto originalmente publicado em Ministério dos Livros