Sofremos não apenas por causa dos vivos mas também por causa dos mortos.
(Karl Marx, em prefácio à primeira edição de O capital.)

No Brasil, a literatura de Thomas Mann ganhou o público por meio de romances robustos, principalmente A montanha mágica. Publicado em 1924, o livro é um ponto de virada para o romancista: representa a sua guinada democrática após a Grande Guerra de 1914. Até então, Mann nutria tendências beligerantes e nacionalistas, aferrando-se a uma determinada especialidade dos povos germânicos diante do continente europeu, que deveria ser assegurada a todo custo. Essa postura foi posta à prova nas trincheiras, e o escritor, sem jamais se entediar dos acontecimentos, notou o perigo que aqueles ideais ofereciam à humanidade. 

A forma de elaboração de sua mudança de posicionamento ocorreu de modo bastante especial em A montanha mágica, livro que narra a viagem de Hans Castorp, jovem recém-formado em engenharia naval em Hamburgo, para o Sanatório Berghof, em Davos, na Suíça, onde vai visitar seu primo Joachim, tuberculoso. Com essa premissa trivial, Mann dá início a um romance de formação bastante irônico: é neste ambiente que o jovem engenheiro trava contato com toda a vida cultural e intelectual da Europa antes de 1914. Trocando os termos, Mann encastela todos os debates da época num ambiente enfermo. Todos os personagens do romance aguardam pacientemente a “Indesejada das gentes chegar”, envenenando toda a atmosfera que possibilitou aquela beligerância anterior à Grande Guerra. 

A crítica especializada costuma chamar este livro de um “romance do tempo” — um “Zeitroman”, em alemão. O termo é um modo de configuração crítica do foco narrativo do livro. Antes da viagem de Hans Castorp, lemos o “Propósito” do narrador, que demonstra o afastamento histórico entre o leitor e a história que está prestes a ler: “é necessário que as histórias já se tenham passado, e quanto mais mergulhadas no passado, caberia dizer, melhor corresponderão à sua qualidade essencial de histórias, e mais adequadas serão ao narrador, esse mago que evoca o pretérito” (trad. Herbert Caro, Cia. das Letras, 2019). Nota-se, com isso, que a maneira de apreender aquela atmosfera social anterior à Guerra enfatiza a ruptura histórica, qualificando o narrador como um “mago” capaz de compor uma linha de eventos a partir de um “mergulho” no passado. Este ponto de inflexão da história da Europa estabelece também uma clivagem na poética de Mann, e esta moldura do passado, com a compreensão do narrador como um “mago” que o evoca, pode também ser entendida como a pedra de toque para os romances recém-publicados pela Companhia da Letras: As histórias de Jacó e O Jovem José, os dois primeiros livros da tetralogia bíblica José e seus irmãos (1933-1943), ambos com tradução de Agenor Soares de Moura.

Thomas Mann. Imagem do livro ‘1913’, do alemão Florian Illies Foto: Acervo Estadão.

Como no romance de 1924, a tetralogia se inicia com um “Prelúdio”, nomeado de “Descida ao inferno”, no qual o narrador também demonstra o afastamento entre o leitor e a história que se lerá. Contudo, a distância, agora, não é de apenas uma década, mas de milênios, dado que o narrador conjura os mitos do Velho Testamento: Jacó, José e sua travessia como escravo vendido até a regência do Egito. Pela natureza deste afastamento, o narrador dedica meia centena de páginas de difícil leitura na intenção de construir pontes entre o seus leitores e “os princípios da civilização humana”. É digna de nota a semelhança temática entre o “Propósito” e o “Prelúdio”, já que neste lemos, logo na primeira frase: “Fundo é o poço do passado. Não deveríamos antes dizer que ele é insondável?”.

A pergunta enseja uma longa digressão do narrador na busca pelo princípio de sua história. Ele opera como uma sonda enviada poço adentro, em que todas as vezes que imagina ter atingido o fundo, este se revela falso, abrindo novos “bastidores”, novas “províncias do passado” e, com isso, mais histórias a se contar. Este esforço se revela a força motriz de todo o romance: “por temerários que sejamos no comprimento que dermos à nossa sonda, ela se estira ainda, aprofundando-se cada vez mais. Não é sem razão que falamos em estirar-se e aprofundar-se, porquanto aquilo que é investigável, de certo modo, zomba dos nossos ardores inquisitivos”.

A zombaria se justifica ao avançarmos na leitura. A imensidão deste poço é dimensionada ao estabelecer um paralelo entre o personagem bíblico José e nós, na relação com os princípios da vida humana: “Tem-se mostrado que a criação do boi data da Idade da Pedra, antes do uso das ferramentas de metal, isto é, antes das Idades do Ferro e do Bronze; este menino da terra de amurrus, José, com sua cultura egípcia e babilônica, estava quase tão afastado daqueles tempos obscuros como o estamos nós: a diferença é mínima”. Tal comparação faz estarrecer e zomba da nossa sensibilidade científica: as montanhas de histórias e eventos humanos acumulados no passado faz com que nós, usuários de smartphones, e o filho do bíblico Jacó estejamos equidistantes “daqueles tempos obscuros”. Esta linha de raciocínio tem outro efeito: nos aproxima demais destes tempos bíblicos, fazendo-nos pensar que Jacó e José são, assim como nós, o mesmo homo sapiens sapiens. É o próprio narrador quem nos conduz a esta conclusão: “tenho dito tanto, só resta acrescentar — conquanto tremamos diante da ideia — que esses fatos [os eventos do livro Genesis] devem ter sido muito recentes, em comparação com os remotos inícios da raça humana”.

Fica claro, então, que o narrador da tetralogia narra de certo ponto de vista histórico, e que se empenha em vasculhar, sondar, em afogar-se nas fontes do passado — cristalizadas, no romance, na imagem do poço. De onde ele narra? A interrogação é também constitutiva de A montanha mágica, já que o narrador deixa evidente que está narrando após a Grande Guerra. Qual, então, o posicionamento histórico do narrador de José e seus irmãos

Thomas Mann começou a composição da obra em 1926, e o primeiro volume — As histórias de Jacó — foi publicado em 1933; o segundo — O jovem José —, em 1934. Nestes dez anos, a Alemanha foi dominada pelo partido Nacional-Socialista. O primeiro volume, vale lembrar, sai no mesmo ano em que Hitler vence democraticamente as eleições para Chanceler do Reich. Nesse cenário, já é bastante relevante o fato de o escritor ter escolhido uma fonte da mitologia judaica e, sobretudo, tê-la apresentado com tamanha proximidade do leitor alemão, que estava submetido a uma violenta propaganda antissemita. Além disso, no ano de 1930 é publicado O mito do século vinte, de Alfred Rosenberg, uma pedra angular do pensamento nazista, do qual até 1944 foram impressas mais de um milhão de cópias. A principal investida do livro é a construção mistificadora de um passado no qual os povos do norte da Europa teriam sido gradativamente vilipendiados, desagregados e enfraquecidos por ideias cosmopolitas e republicanas, que, seguindo seu raciocínio, deslocavam os povos arianos de seu lugar histórico de poder e potência, obrigando-os a conviver em pé de igualdade com seus inferiores. Nasce, deste passado de enganos, o mito do século 20, no qual seria erigido o “Reich de mil anos” sob a forma do Partido Nacional-Socialista, assegurado, antes de tudo, pela premissa da eugenia, posto que, no princípio, eram “superiores” — e esta superioridade será reconquistada violentamente.

Registro de Thomas Mann em outubro de 1941. Fotografia em domínio público.

A busca pelas “fontes do passado” estaria, assim, na ordem do dia e, mais ainda, seria um elemento decisivo da propaganda nazista. O romancista percebe que a mistificação nacional-socialista parte da instabilidade econômica, e se efetiva num pano de fundo simbólico, dissolvendo a individualidade do sujeito numa suposta totalidade mítica, conectando sua superioridade com tempos há muito passados. Ou seja, mais do que respostas financeiras, o nazismo oferecia saídas espirituais. Estas, porém, como sabemos, se realizaram historicamente nos campos de concentração e de extermínio. Desse modo, a proximidade entre o leitor alemão e o mito judaico é calibrado de uma latente dimensão política, de oposição ao regime e de sua filosofia da história.

Numa carta de 1941, Thomas Mann deixa evidente a qualidade política da tetralogia: “é preciso tirar o mito das mãos do fascismo intelectual e amoldá-lo à esfera humana. Há muito tempo que eu não faço outra coisa”. Dessa maneira, a tetralogia é uma obra de impressionante envergadura documentária, mítica, religiosa, geográfica e, acima de tudo, política, pois ataca a espinha dorsal da mistificação totalitária: a criação de um mito originário.

Diante disso, a questão se reconfigura: como o escritor efetivou, na obra, esta oposição? Em poucas palavras, Mann apresentou o mito judaico por meio do realismo psicológico, representando Jacó como um homem comum, vivenciando sucessos e insucessos, que se preocupa, por exemplo, se seu filho comeu bem ou se está bem agasalhado. Este personagem bíblico, nas mãos do romancista, ganha o poder de enxergar o acúmulo das camadas históricas do passado e, assim, notar as repetições dos acontecimentos, os arquétipos se reinserindo no tempo e, assim, atribuir novo sentido à potência individual, timbrando em inserir o sujeito neste patrimônio humano do passado, se contrapondo à dissolução do indivíduo no Partido. Nos termos do narrador: “para ele [Jacó] era como se o chão debaixo de seus pés fosse transparente, formado de camadas de cristal, que desciam cada vez mais sem nenhum fundo e alumiado por lâmpadas que ardiam entre as camadas” (grifo meu), de maneira que “nos dias sobre os quais escrevo a distinção entre espírito em geral e espírito individual não exercia tanto poder sobre a mente como no mundo hodierno, que deixamos atrás para falar do outro”. A disputa, portanto, reside no modo com que será enviada a sonda para o passado: se para inventar uma origem pura, ou se para narrar a combinação cosmopolita de culturas.

Os nazistas realizavam esta travessia diluindo o “espírito individual” do sujeito na totalidade do Partido, sustentada pela premissa mitológica da superioridade racial. Neste ponto de vista, o indivíduo é dissolvido junto de suas categorias liberais — a verdade, a liberdade, o direito e a razão —, uma vez que estas se tornavam uma função daquela totalidade mítica. Assim, a mitologia nazista destitui o indivíduo de sua autonomia e só o fortalece por meio da sua dissolução naquele passado remoto. Aqui, o homem só é potente quando age impulsionado pela premissa do ressentimento, validando sua ação por meio da totalidade partidária. Para alcançar a promessa do Reich milenar, qualquer — friso, qualquer ação é válida. 

Também a partir de uma exaustiva pesquisa das fontes do passado, Mann figura Jacó de modo completamente diverso — e, na verdade, em clara oposição a esta dissolução totalitária. A sina de Jacó é carregar o fardo de ser o representante do povo eleito, enxergando naquelas “camadas de cristal” a sua descendência de Abraão, seu avô. Jacó, porém, é dotado de características que, ao mesmo tempo, o confundem com seus antecessores e o destacam deles. Não se trata, assim, de uma dissolução, mas de uma integração a esta linha sucessória que liga presente e passado. Jacó age segundo seus próprios princípios, seus próprios desejos, que ele sabe, em seu íntimo, estarem ligados por um fio da memória aos “bastidores” do passado. Desse modo, o protagonista do primeiro volume vive cismado, pensativo e consternado, indicando que as suas ações dizem respeito a ele e aos seus antecessores e, sobretudo, sabe que, mesmo agindo individualmente, estas ações iluminam camadas pretéritas. 

No excelente posfácio à edição da Companhia das Letras, Irmela von der Lühe, professora aposentada de literatura alemã da Universidade Livre de Berlim, define a tetralogia como “como esboço alternativo a um presente opressivo e como visão de uma futura comunidade mundial” (trad. Marcus V. Mazzari). Esta comunidade, no sentido que estamos determinando aqui, é composta de uma humanidade que conserva seu passado, direcionando o inúmero acúmulo de camadas para a construção de um convívio cultural que supere as fronteiras nacionais, e não como justificativa das práticas nacionalistas autoritárias e de extermínio.

A ascensão do Nacional-Socialismo durante os anos 1920 e a sua consolidação no poder nos anos 1930 agravaram a ruptura histórica da Grande Guerra, impondo ao romancista a procura por histórias ainda mais antigas, como se o mundo imediatamente anterior a 1914 soasse ainda próximo demais, contaminado demais pelo ar pestilento do nazismo. Seguindo este princípio, a tetralogia, da qual o leitor brasileiro pode agora ler os dois primeiros livros, é uma forma aquilatada e desenvolvida do “romance do tempo” [Zeitroman] de 1924. A crise que seguiu à de 1914 era ainda mais severa, pois agora sequer os mortos estariam a salvo, o que exigiu de nosso autor um empreendimento literário de maior envergadura, disputando palmo a palmo as origens da humanidade, demonstrando que estamos destinados ao convívio pacífico entre diferentes origens humanas. Nesta obra da modernidade, todas as formas de cultura humana fazem parte de um mesmo quadro, todas se comentam e se retroalimentam. Em José e seus irmãos, a humanidade se efetiva na diferença cultural, não na superioridade, visto que todas as origens se perdem no poço infinito do passado.

Essas origens seriam combinadas, segundo a conclusão do próprio narrador na “Descida ao inferno”, pela “festa da narração”, ou seja, “o traje festivo do mistério da vida, pois evoca a eternidade na mente do povo e o mito, para que ele possa ser revivido no tempo atual!”. A questão decisiva se concentra na natureza desta festa: será ela um palco em que cada homem, pelo ato de narrar, dá voz à sua origem e à sua cultura como válida manifestação do espírito humano e, portanto, participante desta fecundação recíproca entre vida e morte, presente e passado, o eu e o outro; ou será “a festa mundial da morte”, como diz a frase derradeira de A montanha mágica, designando o front da Guerra de 1914? Assim, a engenharia poética de José e seus irmãos é um apelo à fé e ao humanismo que jazem adormecidos nas insondáveis fontes do passado. Eles estão latentes em todo ser humano todas as vezes em que alguém levanta a voz para contar uma história. Na época das vitórias de Hitler, o “mago que evoca o pretérito”, resistindo ao completo estropiamento da cultura ocidental, elabora esta longa jornada épica como seu alicerce fundamental no século 20. Qual será o nosso, no século 21?


Leonardo Thomaz é doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo. Sua pesquisa, orientada pelo professor Marcus Vinicius Mazzari, dedica-se à velhice de Thomas Mann, seu estilo tardio e às inflexões teóricas da existência de um “estilo de velhice” em grandes escritores. Em paralelo à vida de pesquisador, Leonardo também é professor de literatura para o Ensino Médio e Pré-Vestibular.


Confira abaixo um curso de extensão ministrado por Leonardo Thomaz sobre a obra de velhice de Thomas Mann. As cinco aulas estão disponíveis gratuitamente no YouTube da FFLCH-USP.