Nada como iniciar com um saudável clichê, então não existe nada como um dia depois do outro. Ontem, escrevi uma postagem sobre o xadrez, mencionando o conto “O homem despedaçado”, onde o jogo possui participação decisiva como uma das chaves de interpretação (ainda que narrador e autor tenham seguido a vereda tranquila de indicar um número, como se o número contivesse uma resposta possível).
Hoje, encontro esta genial poesia de Jorge Luis Borges sobre o xadrez. Não irá adiantar muito dizer que eu nunca a li. Contudo, ainda que não seja verossímil, é a verdade. Gosto muito das poesias de Borges, em especial aquelas mais frias, que considero pulsionais de uma forma diferente. A minha pulsão criativa também ocorre desta forma distorcida: a emoção passa por um agrupamento ríspido de controles e depurações. Aquilo que chega ao papel é muito diferente do sentimento original. Eu sou capaz de senti-lo, mas poucas pessoas até hoje entenderam que, na orquestra da literatura, a minha pulsão equivale ao som discreto de um oboé: a emoção está ali, mas tão contida que mal se pode reconhecer a sua sombra.
Se pensar naquilo que escrevi ontem em comparação com a poesia que segue abaixo, impressiona-me que as mesmas inquietações turvaram a minha cabeça e a de Borges. O xadrez é um jogo inocente? Qual o papel do jogador? Estamos jogando as peças ou sendo jogados por elas? As peças também sentem dor? As duas cores se odeiam, mesmo sendo irmãs na sua tragédia e na repetição de mortes infinitas?
São perguntas que não deveriam sequer existir. Respostas desagradáveis me esperam no final deste caminho. Enquanto isto, vamos à poesia, ouçamos a pulsão de Borges, esta estrela gélida que capta a emoção do leitor e a decompõe:
XADREZ
Jorge Luis Borges
I
Em seu grave rincão, os jogadores
as peças vão movendo. O tabuleiro
retarda-os até a aurora em seu severo
âmbito, em que se odeiam duas cores.
Dentro irradiam mágicos rigores
as formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, armada rainha, rei postreiro,
oblíquo bispo e peões agressores.
Quando esses jogadores tenham ido,
quando o amplo tempo os haja consumido,
por certo não terá cessado o rito.
Foi no Oriente que se armou tal guerra,
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como aquele outro, este jogo é infinito.
II
Rei tênue, torto bispo, encarniçada
rainha, torre direta e peão ladino
por sobre o negro e o branco do caminho
buscam e libram a batalha armada.
Desconhecem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.
Também o jogador é prisioneiro
(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.
Deus move o jogador, e este a peleja.
Que deus por trás de Deus a trama enseja
de poeira e tempo e sonho e agonias?

Às vezes lembro as gentis palavras que a minha orientadora Léa Masina escreveu na orelha de “O homem despedaçado” e fico assustado: como discordar da expressão “conjunto de narrativas que se aproximam de vertentes borgianas” se os fatos insistem em me contrariar, se mais pistas e evidências aparecem? Insisto em dizer que gosto de Borges, mas não muito, acho algumas narrativas até pueris demais. O que eu realmente curto é o jogo com o leitor e com as suas percepções. Mas também gosto de Faulkner, Dickens e Cortázar pelos mesmos motivos.
Tenho o certo receio de, um dia, encontrar um texto do Borges que defina com exatidão ímpar tudo aquilo que sou quando escrevo, por isto evito trechos da sua obra que podem me desmascarar. Esta coincidência com o xadrez não é uma coincidência. Estamos na mesma sintonia, gostemos ou não.