J. R. R. Tolkien

21 textos neste tema

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (versão estendida)

Fonte: cinema de novo | Publicado em: 2021-08-01 00:00

Cinema, Fantasia, Adaptações literárias, Cultura nerd, Terra Média

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring

O que era ser nerd no período da sua adolescência? Na minha, acredito que o conceito estava mais vinculado com The Lord of the Rings do que com Star Wars, por exemplo. Obviamente, nada impedia que alguém muito nerd estivesse por dentro de tudo o que envolvia estes e outros universos. Mas, de qualquer forma, frequentar fóruns de internet sobre o tema e adentrar em conversas sobre os personagens de J.R.R. Tolkien já rendia algumas estrelinhas na carteirinha de nerd. E eu era uma dessas pessoas.

Assim, mergulhar nas versões estendidas destes filmes é praticamente como voltar no tempo e reviver algo muito especial – com bônus. Em The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, por exemplo, há 30 minutos de cenas adicionais, cuidadosamente espalhadas ao longo de um filme que já é originalmente bem longo. Se você não estiver investido na experiência, admito que talvez seja demais. Mas, para quem sempre queria mais, consegue ser bom sem passar (exageradamente) da medida.

A história, obviamente, segue a mesma. Frodo (Elijah Wood) é um hobbit que vive uma calma vida de hobbit em uma vila de hobbits perfeitamente normal, mesmo sendo sobrinho do excêntrico Bilbo (Ian Holm) que, no passado, viveu aventuras na companhia de anões. Sua vida muda depois que Bilbo decide partir em mais uma aventura, deixando para trás uma de suas relíquias mais preciosas: um anel.

Este anel, entretanto, é um item mais poderoso do que eles imaginariam inicialmente – muito mais. O senso de dever de Frodo faz com que ele parta em uma perigosa jornada, sendo eventualmente acompanhado por seu jardineiro, Sam (Sean Astin), outros dois hobbits (Dominic Monaghan e Billy Boyd), o mago Gandalf (Ian McKellen), o elfo Legolas (Orlando Bloom), o anão Gimli (John Rhys-Davies) e dois humanos, Aragorn (Viggo Mortensen) e Boromir (Sean Bean).

Com um grupo tão diverso, inúmeras tensões e desavenças acabam surgindo, seja sob o caminho a seguir ou sobre coisas mais profundas, envolvendo questões intrínsecas de cada raça e personagem. Ainda assim, o grupo se fortalece e se defende sempre que necessário, especialmente quando precisa enfrentar legiões de orcs, lutar contra inimigos enviados pelo perigoso mago Saruman (Christopher Lee), ou quando adentram a floresta dominada pela misteriosa elfa Galadriel (Cate Blanchett).

Por ser baseado apenas na primeira parte de um livro, The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring não funciona como uma história fechada, mas apresenta seus personagens e seu mundo de uma forma bastante eficiente. As dinâmicas prévias ficam claras e a importância da missão é posta de modo enfático.

Ao mesmo tempo, o filme traz algo único a ele e gera interesse pelo que vem a seguir. Todos no grupo vivem momentos importantes e passam por transformações: ao final, nenhum dos personagens é a mesma pessoa que iniciou a jornada. Inclusive, muitas das características que as pessoas gostam em relação à obra são intrínsecas a esta primeira parte, pois é apenas aqui que o grupo se mantém íntegro e unido.

Ainda que muitos tenham tentado – inclusive o próprio diretor Peter Jackson, em outras incursões à Terra Média –, é a construção da trama vista em The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring quem dá o tom para a história de ficção fantástica mais bem sucedida da história do cinema. Mesmo se os efeitos especiais tivessem envelhecido muito mal (e, convenhamos, nem todos são exatamente convincentes hoje em dia), a estrutura e o andamento da história ainda funcionariam de maneira eficiente.

Obviamente que, em uma adaptação de uma obra literária para o cinema, a parte visual também tem sua importância. Neste caso, as decisões tomadas foram muito acertadas: os cenários e figurinos são impecáveis – a escolha de elenco e as maquiagens também ajudam. Para completar, a trilha sonora é particularmente marcante, ajudando a dar o tom correto a este mundo fantástico (eu me peguei cantarolando trechos em mais de um momento).

Prestes a completar 20 anos de lançamento, The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring continua sendo um grande filme, que ainda agrada a seus fãs e tem capacidade para atrair a atenção de novas gerações. Isso, bem mais do que as quatro estatuetas do Oscar – Fotografia, Maquiagem, Trilha Sonora e Efeitos Visuais –, diz muito sobre a qualidade de um filme e o carinho que foi dedicado a sua realização.

Outras divagações:

The Hobbit: An Unexpected Journey
The Hobbit: The Desolation of Smaug
The Hobbit: The Battle of Five Armies

Texto originalmente publicado em cinema de novo

The Lord of the Rings: The Return of the King (versão estendida)

Fonte: cinema de novo | Publicado em: 2021-08-01 00:00

cinema, fantasia, adaptação literária, trilogia Senhor dos Anéis, versão estendida

Divagações: The Lord of the Rings: The Return of the King (versão estendida)

The Lord of the Rings: The Return of the King

Depois de mergulhar na nostalgia com The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring e de encarar uma versão bastante melhorada de The Lord of the Rings: The Two Towers, finalmente assistir The Lord of the Rings: The Return of the King parecia ser realmente o fim de uma jornada. Em sua versão mais longa, este filme foi o que mais recebeu acréscimos e fica mais difícil separar o que exatamente é diferente do corte que foi exibido nos cinemas em 2003 – mas tenho certeza de que o rei ganhou um bocado mais de atenção.

Dando continuidade à história, este longa-metragem traz o reino dos homens com um pouco mais de esperança, uma vez que Saruman (Christopher Lee) já foi derrotado. Ainda assim, defender Gondor dos avanços de Sauron vai exigir muito mais. Enquanto Gandalf (Ian McKellen) precisa lidar com a loucura do regente Denethor (John Noble) e com a batalha que se aproxima, Aragorn (Viggo Mortensen) deve assumir sua posição de verdadeiro herdeiro do trono, angariar exércitos e inspirar soldados – sempre acompanhado de seus fiéis escudeiros, o elfo Legolas (Orlando Bloom) e o anão Gimli (John Rhys-Davies).

Ao mesmo tempo, cada um dos hobbits tem uma jornada pessoal. Merry (Dominic Monaghan) se tornou um soldado de Rohan e busca provar seu valor em batalha ao lado da corajosa Eowyn (Miranda Otto). Já Pippin (Billy Boyd) jura lealdade ao regente de Gondor, mas logo descobre que cometeu mais um erro; ainda assim, sua posição privilegiada o permite lutar por Faramir (David Wenham). Por sua vez, Frodo (Elijah Wood) tenta se manter firme, mas já está cedendo ao peso do anel e a seus poderes, passando a ser facilmente manipulável por Gollum (Andy Serkis). Enquanto isso, Sam (Sean Astin) tenta mantê-lo são e garantir o cumprimento da missão.

Com muita coisa acontecendo e tantas pontas narrativas precisando de um fechamento, The Lord of the Rings: The Return of the King acaba não tendo uma linha narrativa própria tão consistente quanto seus antecessores. Além disso, nem todos os acréscimos efetivamente funcionam e o novo corte do filme parece atravancado ou forçado em alguns pontos, atrapalhando um pouco o ritmo geral.

Ainda assim, o filme segue sendo um ótimo fechamento para a trilogia. Ao contrário dos livros de J.R.R. Tolkien, o longa-metragem de Peter Jackson dá preferência para encerrar a trama principal e não se dá ao trabalho de mostrar exatamente o que acontece com todos os personagens e suas famílias. Eu fico um pouco triste por conta de algumas sequências que gostaria que tivessem sido incluídas, mas estou convencida de que foi uma decisão bem calculada e adequada.

Um ponto interessante é que a versão estendida, com um pouco mais de ênfase que a tradicional, dá peso aos “acontecimentos históricos” sendo retratados. Ela caracteriza a destruição do anel e o retorno do rei de Gondor como o início de uma nova era da Terra-Média, que passará a ser dominada pelos homens. Isso garante um sentido de grandeza que talvez tenha ficado um pouco pálido inicialmente.

Além disso, mesmo considerando que já se passou uma distância considerável desde o lançamento, os efeitos visuais ainda funcionam bem. Para os orcs, um figurino pesado e um bocado de maquiagem garantem que, por mais ridículos que eles possam parecer, eles são definitivamente reais. Algumas criaturas digitais, como a aranha gigante, que era particularmente impressionante em 2003, seguem funcionando muito bem e contam com o apoio de cenas um pouco mais escuras que o normal. Talvez as batalhas tragam algum estranhamento para o público atual, mas nada particularmente incômodo. Com isso, o maior distanciamento acaba sendo o próprio Gollum, porém, o bom trabalho de voz de Andy Serkis garante que o visual do personagem e seus grandes olhos criados digitalmente não quebrem a ilusão.

Após toda essa jornada, The Lord of the Rings: The Return of the King é um encerramento bastante satisfatório. Acompanhar tantos personagens por uma trama cheia de idas e vindas é algo que não conseguimos ver no cinema com frequência. Querendo ou não, a trama não é exatamente rocambolesca ou particularmente hollywoodiana, mas as interações entre diferentes pontos de vista e objetivos é o que faz a história permanecer interessante por tanto tempo, mesmo em versões estendidas.

Outras divagações:
The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring
The Lord of the Rings: The Two Towers

Texto originalmente publicado em cinema de novo

The Lord of the Rings: The Two Towers (versão estendida)

Fonte: cinema de novo | Publicado em: 2021-08-01 00:00

Cinema, Trilogia, Adaptação, Fantasia, Crítica cinematográfica

The Lord of the Rings: The Two Towers

Em uma trilogia, a parte do meio acaba sempre prejudicada. Ela não conta com a introdução ao mundo, feita anteriormente, e nem com a esperada conclusão da história, que só ocorrerá posteriormente. Mesmo em séries que contam com várias pequenas histórias, a segunda acaba frequentemente soando como a mais fraca, pois perde a novidade da primeira sem ainda contar com a familiaridade a serem vinculadas às demais.

Na adaptação de uma obra literária complexa – como a que temos aqui – The Lord of the Rings: The Two Towers acabou encontrando ainda uma dificuldade adicional. No miolo de uma história maior, a produção inseriu uma série de novos personagens e cenários, permanecendo com uma série de pontas soltas e tramas sem desenvolvimento que, no final das contas, também não foram exploradas com mais profundidade no último longa-metragem (que tinha suas próprias questões a abordar).

Em sua versão estendida, The Lord of the Rings: The Two Towers consegue resolver uma série de seus problemas intrínsecos. Este (obviamente) continua sendo o filme do meio, o que não é uma missão fácil, mas coisas efetivamente acontecem e há um direcionamento claro para seus principais personagens.

Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd), que haviam sido sequestrados por orcs ao final do longa-metragem anterior, agora rumam para a Isengard controlada por Saruman (Christopher Lee). Eles precisam se manter vivos e, se possível, tentar ajudar na grande guerra que já se articula.

Já Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies), que partiram no encalço dos hobbits, acabam se envolvendo com mais afinco na guerra, especialmente ao cruzarem com um misterioso mago (Ian McKellen). Eles também se envolvem com questões políticas de Rohan, onde o rei Theoden (Bernard Hill) está enfeitiçado pelas palavras de Grima (Brad Dourif), para desespero dos sobrinhos do rei (Miranda Otto e Karl Urban).

Por fim, Frodo (Elijah Wood), Sam (Sean Astin) e Gollum (Andy Serkis) estão indo, vagarosamente, rumo a Mordor, onde os hobbits pretendem destruir o anel de poder. Seu trajeto, entretanto, é prejudicado por Faramir (David Wenham), irmão de Boromir (Sean Bean), que quer levar esta importante arma para a cidade de Gondor.

Com tudo isso acontecendo, não sobra espaço para The Lord of the Rings: The Two Towers ser entediante, embora a longa duração do filme possa ser cansativa. De qualquer modo, as cenas mais longas da versão estendida e até mesmo os acréscimos feitos ao longa-metragem fazem com que ele se torne mais claro e funcione com um novo objetivo: antes de chegar ao inimigo final, é preciso derrotar Saruman.

No final das contas, a palavra-chave desta produção é “esperança” – o que não deixa de ser estranho, considerando que ainda há um filme pela frente (se bem que este é o tipo de obra em que o final feliz parece quase certo). O filme se deixa afundar tanto quanto possível – inclusive com uma paleta de cores fria e acinzentada –, ao mesmo tempo em que procura levantar a ideia de que as coisas podem melhorar, de que sempre é possível fazer algo, de que a maré pode virar. Como esta estrutura se repete nos três grupos de personagens, a mensagem é passada com precisão, talvez até demais.

The Lord of the Rings: The Two Towers não deve ser a parte favorita de muita gente, mas é preciso dizer que ele é essencial para que a grandiosidade esperada para a parte final seja atingida. É aqui que a real dimensão do poder do anel é estabelecida e que fica claro o que pode vir a ser destruído. Enquanto os elfos estão, literalmente, abandonando a Terra-Média e outras criaturas mágicas já perdem forças, a era dos Homens pode acabar antes mesmo de mostrar a que veio.

Quase 20 anos após seu lançamento, os efeitos especiais já não são mais tão fantásticos, mas ainda se seguram muito bem e permanecem críveis. Toda atenção aos detalhes dada por Peter Jackson e sua equipe segue efetiva e faz com a magia permaneça de pé – espero que esses filmes estejam sendo apresentados a novas gerações, que também se encantarão com tudo isso. Pessoalmente, eu preferia que Gimli não fosse usado como alívio cômico com tanta frequência, mas é algo que aprendi a engolir.

Outras divagações:
The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring

Texto originalmente publicado em cinema de novo

The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim

Fonte: cinema de novo | Publicado em: 2024-12-01 00:00

fantasia, cinema, animação, adaptações, representação feminina

Divagações: The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim

The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim

Por mais que eu goste muito da obra de J.R.R. Tolkien, estou bem longe de ser uma especialista. Então, para me preparar para ver The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim, resolvi dar uma pesquisada básica.

Infelizmente, uma das informações mais comuns sobre o filme não tem relação com a trama ou com as origens dos personagens. Aparentemente, a produção foi realizada para garantir que a New Line não perdesse os direitos sobre o trabalho do escritor, já que o contrato prevê que ocorra um lançamento a cada tantos anos. Convenhamos que isso não é muito animador.

The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim conta a história de uma disputa de poder em Rohan, ocorrida quase dois séculos antes da trama envolvendo Frodo e companhia. Helm Hammerhand (Brian Cox) é o rei que nunca perdeu uma batalha, enquanto Wulf (Luca Pasqualino) vem de uma linhagem nobre, mas relegada. Movido pela vontade de se vingar, Wulf elabora um plano complexo e decide ir até as últimas consequências.

O detalhe é que os acontecimentos são narrados por Éowyn (Miranda Otto) a partir do ponto de vista de Hèra (Gaia Wise), a única filha do rei. Embora seja rotulada como “rebelde”, ela é bastante leal a sua família, tem sua própria história com Wulf e se envolve na disputa tanto quanto possível, inclusive liderando a resistência e buscando saídas quando todos os caminhos parecem fechados.

Com isso, The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim consegue se manter fiel às principais temáticas ligadas ao povo de Rohan – do amor aos cavalos ao orgulho desmedido, passando pelas mulheres fortes e guerreiras – e desenvolver uma história que se encaixa bem com os filmes já realizados. Por mais que a trama apele para algumas retomadas fáceis e clichês, elas não incomodam muito em um contexto que lembra lendas contadas e recontadas.

Outro ponto é que uma das principais motivações da protagonista envolve ser ouvida em uma sociedade patriarcal, machista e hierarquizada e, considerando um contexto “histórico” sem feminismo, ela o faz a sua própria maneira. Assim, ao mesmo tempo em que um público de masculinidade frágil pode simplesmente ignorar certos pontos do roteiro (às vezes, até mesmo inconscientemente), outra parcela vai encontrar muitos paralelos e questões importantes para discutir. O fato de que as ações de Hèra não viraram canções, por exemplo, é só um começo.

A escolha por fazer o filme em animação, entretanto, não parece ter uma justificativa clara. Acredito que o longa-metragem funcionaria bem com atores e um bom orçamento para figurinos e efeitos especiais, já que há muitas cenas de batalhas (mas não sei se isso estava disponível). De qualquer modo, os cenários estão belíssimos e são muito bem detalhados, ainda que alguns momentos deixem a desejar na fluidez dos movimentos.

Além disso, também não entendi muito bem a estética de anime escolhida para os personagens. Obviamente, há um vínculo com o diretor Kenji Kamiyama e entendo que esse tipo de traço tem ganhado espaço no “ocidente”, mas não vejo uma relação direta com Rohan e o estilo da história. Por mais que eu goste de animes, há um claro descolamento, ainda que isso não atrapalhe diretamente o andar das coisas.

Com isso, preciso dizer que The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim é um filme com irregularidades, mas que consegue ocupar um espaço interessante. É uma produção para quem gosta de fantasias grandiosas em essência, mas já se cansou um pouco dos excessos que algumas produções do gênero receberam. Para completar, a história é bem construída e fechada em si mesma, o que é um bálsamo em meio a tantas continuações e/ou finais com cliffhangers.

The Lord of the Rings: The War of the Rohirrim pode não ser particularmente inovador ou um grande chamariz para novos fãs, mas ele é uma boa pedida para esse final de ano. Enquanto alguns fazem compras de última hora, outros vão ao cinema.

Outras divagações:
The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring
The Lord of the Rings: The Two Towers
The Lord of the Rings: The Return of the King
The Hobbit: An Unexpected Journey
The Hobbit: The Desolation of Smaug
The Hobbit: The Battle of Five Armies

Texto originalmente publicado em cinema de novo

O Hobbit – J. R. R. Tolkien

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2012-12-30 00:21

Literatura, Fantasia, RPG, Jornada do herói, Terra Média

hobbit

Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

(Confiram o texto que Eduardo escreveu sobre O Hobbit aqui)

Apesar de eu ter jogado RPG um longo tempo, gostar muito de histórias de fantasia, conhecer de cor características dos Orcs, Goblins, Hobgoblins, Elfos, Elfos da Floresta e outras raças que povoam o universo criado por Tolkien, e ter vibrado muito quando vi a trilogia O Senhor dos Anéis chegar aos cinemas, nunca me senti especialmente interessado na leitura das obras do escritor inglês. Não sei exatamente o motivo desta indiferença, mas presumo que seja proveniente de algum preconceito erroneamente desenvolvido por mim a partir de opiniões que ouvi (de fontes que hoje sei não serem confiáveis) que diziam que a trilogia do anel era um livro chato, em que Tolkien se preocupava mais em descrever em minúcias uma árvore do que em propriamente contar uma história.

Assim, vi os três filmes no cinema e nem depois da minha segunda fase de leitor (a partir da criação deste blog) tive interesse em ler O Senhor dos Anéis e muito menos qualquer outro livro de Tolkien.

Estava na casa dos meus pais, de férias, quando O Hobbit estreou no cinema. Estava decidido a ver o filme, mas, tendo terminado um livro, fiquei naquele inquietante estágio que os apaixonados por literatura experimentam ocasionalmente: a agonia de não estar lendo nenhum livro. Não tendo trazido nenhum dos meus livros, fui às estantes de meus irmãos. De um lado, Eduardo, cuja estante é povoada de livros de aventura e fantasia; do outro, Reinaldo, com mais russos por metro quadrado que qualquer praça de Moscou.

Perguntei a Eduardo sobre O Hobbit e ele garantiu-me que era divertido e que eu terminaria em um dia. A leitura era fácil e ligeira, já que Tolkien havia escrito o livro para seus filhos.

Decidi-me, portanto, me aventurar na Terra Média a partir justamente do livro que deu origem a tudo.

O Hobbit é um livro simples, e que isso não seja entendido, de forma alguma, como uma crítica. Eu diria que 90% (dizem que brasileiros, mais do que usar estatística, gostam de inventá-las) das aventuras de RPG num universo de fantasia medieval têm essa estrutura: um grupo de bravos heróis (alguns nem tão bravos assim) parte em busca de um tesouro (uma quest) guardado/protegido por um vilão cujo poder está além das suas próprias forças. Ao longo do caminho esse grupo vai enfrentando dificuldades, e aqui e acolá, em meio às agruras que lhes impõe o mestre do jogo, eles encontram aliados, que lhes proverão com comida, água, descanso, cura para os ferimentos, novas armas etc.

É basicamente esta a história de O Hobbit. Bilbo Bolseiro, um hobbit pacífico, tranquilo e respeitável (justamente por não participar de aventuras) está na frente da sua casa, fumando tranquilamente seu cachimbo, quando o mago Gandalf aparece e seleciona-o (mesmo contra a vontade do hobbit) para participar de uma aventura. Mais tarde, depois de ter a sua casa invadida por treze anões mal educados e comilões, Bilbo fica sabendo o que os anões buscam e o que querem dele: eles estão a caminho da Montanha Solitária, onde outrora viviam, até que o cruel e aparentemente indestrutível dragão Smaug os expulsasse de lá para ficar com a montanha e com o gigantesco tesouro que os anões acumularam ao longo dos anos. Bilbo foi indicado por Gandalf para ser o ladrão do grupo, já que em alguns momentos eles precisariam de furtividade e silêncio, características natas aos hobbits e ausentes nos anões.

Mesmo dizendo não, Bilbo acaba indo, e, o narrador explica, isso se deve a uma veia aventureira herdada do lado materno da família do Hobbit.

O Hobbit é mais um conto clássico da jornada do herói. Bilbo começa desacreditado, a partir dele mesmo, que se julga inapto para a aventura. À medida que a aventura vai acontecendo – e muita, muita coisa acontece mesmo! – ele vai percebendo que ser um aventureiro não é privilégio somente reservado aos guerreiros ou aos magos. Um simples hobbit pode se dar bem, desde que tenha coragem, esperteza… e muita sorte!!! Bilbo deve ser o personagem mais sortudo que já encontrei nas páginas dos livros (acho que só perde para Gastão, o incomparável primo de Donald).

A impressão clara que tive enquanto lia é que Tolkien leu todo o livro em voz alta para seus filhos. O tom da narrativa, as pausas explicativas, os diálogos, tudo remete à voz, ao som, à literatura oral. Uma característica que reforça isso é o número de canções presentes no livro. Os anões cantam quando estão tristes e quando estão alegres. Os trolls cantam, os orcs cantam, os elfos cantam. Sim, é um livro com um tom mais “infantil”, já que muitas vezes o autor faz alguns parênteses para explicar algumas emoções, alguns termos ou situações que uma criança teria dificuldade em interpretar. No início estranhei esta forma de contar a história. Comecei a achar que o livro seria chato, maçante. Avancei e não em arrependi. Tolkien sabe contar histórias. Sabe criar personagens. Sabe conduzir a narrativa.

Assim como Bilbo foi encontrando seu lugar nesse mundo de aventura, eu fui conhecendo os personagens, apegando-me a eles, torcendo pelas suas vitórias. Em alguns momentos tive muita raiva de Thorin ou de Bilbo. Depois, eles se redimem e ao final do livro a certeza é de que O Hobbit é a melhor história de aventura que já li. Claro, não sou um grande fã do gênero, não tenho grandes livros de aventura no meu currículo, mas recomendo O Hobbit para quem quiser embarcar numa grande jornada, repleta de bom humor, atos de coragem, sorte e heroísmo.

Minha Avaliação:

5 estrelas em 5

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

O Senhor dos Anéis reescrito por autores famosos

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2012-08-21 19:02

Literatura, Paródia, O Senhor dos Anéis, Estilos literários, Escrita criativa

Encontrei esse interessantíssimo post no site Changing the Times. Como seria O Senhor dos Anéis reescrito por autores alternativos?

Meus destaques vão para as seguintes versões:

Lord of the Rings, by Ian Fleming

Aragorn placed his hand on the cool, ivory hilt of his 6.38 Anduril sword, half-holding it in as casual manner as possible. His eyes swept the room of the Prancing Pony, eyeing up the potential threats. He took out his pipe, made from the warmed heartwood of a mature oak. In the palm of his left hand, he unwrapped his leather tobacco pouch filled, as he preferred, with Gondorian Silk Cut. Aragorn preferred it to the harsher, stronger Numenorian blend…

Lord of the Rings, by Oscar Wilde

“He bested me in a riddle contest.”

“A riddle contest?”

“It was so. And he cheated.”

“To cheat in a riddle contest is a riddle in itself, and is therefore not cheating, but just another riddle.”

“He cheated and asked me what he had in his pockets.”

“He picked and pocketed a pretty prize, performing perfidious behaviour. How very noble, so like our own Lords and Masters”….

Lord of the Rings, by Raymond Chandler (a melhor de todas, na minha opinião)

“Frodo Baggins?” said the old man in the doorway, rain dripping from his oversized hat with all the ease of a dwarf burrowing after gold.

“That’s the name on the door. Guess I’m gullible enough to believe what it says about me.”

The old man came in a dripped water on the earth floor. Added a touch of class, so I didn’t complain.

“Frodo, you’ve got a problem.”

“I pay my taxes, and I’m clean with the Rangers. What’s my problem?”

“Bilbo shafted you with that heirloom. Gold ring? Gold ringer, more like.”

“A dud, huh. Can’t say I’m surprised.”

“If it was a dud, you wouldn’t have a problem. Your problem is that this little heirloom has a history, a history with a pearl-handled stiletto in the back. It goes back all the way through the biggest string of mugs you find as wallpaper on Minas Tirith’s finest. Goes all the way back to Night-Time Sauron…..”

Lord of the Rings, by George Lucas

“Did you ever wonder who your father was, Frodo?”

“Uncle Bilbo was my father, Obi Gan Dalf.”

“Your Uncle is a fine man, but he is not your father. Your father was a fine warrior and a great captain, strong in the Force. He was called Sarumann the Wise, and he was a good friend.”

“Was? Is he dead?”

“He is no more. It is your destiny to avenge his death, young Baggins.”

Lord of the Rings, by James Joyce

Old man willow, whistling like a tea pot, shining like a star, oh so brilliant in the dreaming and smoke and by the river, Goldberry’s river, dancing like a vision, Bombadil, Bombadil, Bombadillo. Rock of ages, youg and ageless, naked before my eyes like Rivendell Rock, sweet and hard and trusting….

The Lord of the Rings, by Ernest Hemingway

Frodo Baggins looked at the ring. The ring was round. It was a good ring. The hole at the heart of the ring was also round. The hole was clean and pure. The hole at the heart of the ring had an emptiness in it that made Frodo Baggins remember the big skies of the Shire when his father had taken him out and taught him to tear the heads off the small, furred things that walked there, even though he hated blood in those days and the stink of the blood was always part of the emptiness for him then and ever after.

Frodo Baggins could put the ring on his finger now. The stink of the blood and the hole and the emptiness could never leave him now. Frodo Baggins looked at the ash-heap slopes of Mordor and remembered the Cuban orc who had kept the ash on his cigar all the way to the end. The orc just drew on the cigar and smoked the cigar calmly and kept the ash in a long gray finger, a hard finger, right to the moment that the Rangers beat hit to death with clubs. He was mucho orco, the Cuban.

Frodo Baggins looked at the ring and the hole and smelled the sulfur smell that came from the vent in the mountain. There were scorched black bushes round the vent. The vent was like the cleft of the old whore at the Prancing Pony on the night that the Black Riders came. Frodo Baggins reached in his pouch and took out the flask of good grappa there and filled his mouth and swallowed the grappa. She was mucha puta, the old whore.

Frodo Baggins could spit again so he spat hard, once. He took the ring and threw it into the vent.

The earth moved.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

0381) Tolkien no Far-West do futuro (9.6.2004)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-05-01 00:00

Literatura, Stephen King, Fantasia, Faroeste, Estilo literário, A Torre Negra


Acabei de ler um livro que me deixou pensativo: The Gunslinger, o primeiro volume da série “The Dark Tower”, escrita pelo subestimado Stephen King. São sete enormes livros que King começou a escrever em 1970 e concluiu no ano passado, ou seja, 33 anos depois. 

Diz ele que quando leu O Senhor dos Anéis aos 19 anos teve um impulso imediato de escrever uma história parecida. Centenas de jovens tiveram o mesmo impulso, daí a existência, hoje, do gigantesco mercado de histórias de Fantasia, não só na literatura (Terry Brooks, Stephen Donaldson, Fritz Leiber, George R. R. Martin, Marion Zimmer Bradley, etc.) como no cinema, nos quadrinhos, nos “role playing games”.

A primeira idéia de King foi fazer o que todos fizeram: escrever uma batalha épica entre o Bem e o Mal, com elfos, orcs, dragões voadores, espadas mágicas... Mas ele não se sentia à vontade escrevendo uma fantasia baseada em campônios ingleses e ambientações escandinavas. 

A revelação lhe veio ao assistir O Bom, o Mau e o Feio, faroeste italiano de Sérgio Leone, e ver “um Clint Eastwood com dez metros de altura” e “um Lee Van Cleef com rugas que pareciam desfiladeiros”. Os dois universos se fundiram em sua mente: 

“Percebi que o que eu queria escrever era um romance que tivesse o mesmo sentido épico e mágico de Tolkien, mas cuja história acontecesse naquele ambiente do Oeste, majestoso, absurdo.”

The Gunslinger conta a história do pistoleiro Roland de Gilead, e de sua caça ao Homem de Preto, feiticeiro do Mal (uma espécie de Saruman). Ao longo da história vamos percebendo que aquele mundo fica vagamente no futuro. A ambientação é de faroeste, mas aqui-acolá os personagens evocam um passado onde havia grandes cidades, arranha-céus... Das areias do deserto, emergem maquinarias gigantescas e enferrujadas. 

Ficamos com a sensação de que em algum ponto do século 21 houve o colapso da nossa civilização, e que a humanidade se reorganizou como pôde. Nesse faroeste futurista, existem mutantes radioativos, ferrovias subterrâneas abandonadas, e pianistas de “saloon” que tocam “Hey Jude”. 

Quem quiser mais informações sobre a série, pode achá-las em: http://www.stephenking.com/DarkTower/.

Não é mais Tolkien, portanto. É uma resposta orgulhosa e viril dos sertanejos norte-americanos à obra de Tolkien, da qual o livro de King guarda aquele mesmo espírito épico, mas traduzido em elementos próprios (o faroeste, a ficção científica). 

Em “Tolkien e Guimarães Rosa” (14.1.2004) e em artigos nos dias seguintes, comparei estes dois autores, e agora quero colocar Stephen King nessa mesma prateleira. Aquietai-vos, ó críticos: não estou dizendo que King é um estilista comparável a Rosa. Mas ser escritor não é apenas ter estilo, é também ser fabulista, como disse Drummond. 

King é injustamente chamado de “fast-food” literário, mas para mim seu livro é uma carne-de-sol com macaxeira e um café bem forte, que é como eu gosto dessas coisas.




Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

Contos Inacabados – J. R. R. Tolkien

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2014-04-03 01:09

Literatura fantástica, Terra Média, J.R.R. Tolkien, Processo criativo, Mitologia

contos inacabados

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Contos Inacabados é meu quinto livro de Tolkien. Antes dele li O Senhor dos Anéis, O Hobbit, O Silmarillion e Mestre Gil de Ham. Não é segredo nenhum que meu estilo literário preferido é a literatura fantástica, e dentro desse conjunto, Tolkien impera como meu preferido por vários motivos.

Tolkien é conhecido por ser super descritivo. E é esse “excesso” de descrição que torna sua obra tão atraente. E quando falo em excesso de detalhes, não me refiro à descrição física do mundo, que sim, é rica e impecável, mas principalmente à construção do universo. A cada página que viramos, sentimos todo o feeling da Terra Média, como se realmente estivéssemos a viajar em um mundo possível, palpável. Nos sentimos em casa no condado. E morremos de vontade de poder passar uma temporada de férias em Imlandris (Rivendell/ Valfenda). Mas por quê?

Tolkien criou idiomas, culturas, se preocupava com cada personagem, com árvores genealógicas, com a mudança que o nome dos rios/regiões/florestas sofriam ao longo do tempo, levando em conta os povos que viveram na região nas diferentes eras do mundo. Se, por exemplo, Legolas cita uma fato da primeira era do mundo, sobre um elfo lendário, essa história não é ilustrativa. Ela é real. Tolkien escrevia incessantemente, construindo uma cronologia de quatro grandes eras (a terceira era encerra com os fatos ocorridos no livro O Senhor dos Anéis).

Tendo isso em mente, podemos falar sobre Contos Inacabados. A maior parte da obra de Tolkien foi publicada postumamente. Perfeccionista como era, Tolkien escrevia vários e vários esboços da mesma história, alterava constantemente fatos para uma forma que enquadrasse melhor cada elemento que criava. E dificilmente ficava satisfeito. A partir desses textos, Christopher, seu filho, publicou O Silmarillion, livro preferido pelos fãs, que narra histórias da primeira era do mundo, e depois Contos Inacabados, que como o próprio nome diz, Tolkien não havia entregado uma versão pronta dessas histórias. Em algumas delas, seu filho teve que se utilizar de 2 ou mais versões da mesma história, algumas vezes textos manuscritos, discutindo, no livro, qual texto deveria ser adotado como oficial para a cronológica da Terra Média.

Dentre os vários contos do livro, destaque para a história de Tuor, avô de Elrond meio elfo, na qual ele encontra Ulmo, vala da água (capa do livro); Uma descrição da ilha de Númenor, e alguns de seus mais virtuosos reis (Númenor era uma ilha povoada por uma raça de homens, os dúnedain, que fundaram o reino de Gondor na Terra Média, antepassados de Aragorn); É contada a história de Galadriel, rainha de Lothlorien, uma das elfas mais poderosas em todas as eras (interpretada por Cate Blanchett na trilogia de filmes); Há um belo relato sobre a formação militar de Rohan, e como os dois reinos tornaram-se aliados; Conta-se como Gandalf encontrou Thorin Escudo de Carvalho, e por que resolveu escolher um Hobbit para participar da difícil missão em Erebor; A origem dos Istari, os magos (Gandalf, Saruman, Radagast, Alatar e Pallando), e as Palantiri, as sete pedras videntes.

Contos Inacabados é uma leitura lenta. Algumas vezes é como ler um livro de história. Mas é recompensador. Para quem gosta da Terra Média, o livro é indispensável. Mas se nunca houve um contato com a obra Tolkeniana, não é uma boa ideia começar por ele.

3 estrelas em 5.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

O Hobbit – J. R. R. Tolkien

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2010-07-08 23:17

Literatura Fantástica, RPG, Terra Média, Experiência de Leitura, J.R.R. Tolkien

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

08/07/2010

Terminei de ler mais um dos livros que estava na minha lista desde sempre: O Hobbit. Quando começamos a jogar RPG, mais ou menos no final de 1999, ouvíamos falar em O Senhor dos Anéis, o livro que havia inspirado o D&D, e sempre nutrimos a vontade de ler os grandes romances. Muito difícil em nossa realidade de habitantes do interior, sem dinheiro e sem livrarias para nos informar, ler, olhar etc., o sonho quase que se tornou uma utopia, ou algo do gênero. Sempre quis ler o livro, ainda mais depois dos filmes.

Há algum tempo comprei o volume único com os três livros do Senhor dos Anéis (nos próximos meses pretendo relê-lo), e me apaixonei por Tolkien e sua criação. A terra média é impressionante, pois nas mãos de seu autor, ganhou vida, em cada detalhe, cada grão de pó, cada folha é descrita por Tolkien. Isso criou em mim uma obsessão em conhecer todos os trabalhos  deste autor, e começo pelo relato de onde tudo começou.

O Hobbit foi escrito para os filhos de Tolkien. Diferente da trilogia, a linguagem, apesar de descritiva, é simples e muitas vezes o narrador se põe a falar diretamente com o leitor, para criar atenção. Não pretendo aqui dissecar a obra, já que estragaria surpresas para aqueles que pretendem ler um dia, então ditarei apenas uma sinopse geral. Bilbo Bolseiro é um Hobbit comum, vivendo em sua toca confortável no Condado. Gosta de comer, beber, fumar, e é muito gentil com as pessoas. Um típico hobbit. Apesar de ser Bolseiro, Bilbo tem um pouco de sangue Tûk, uma família mais dada a “aventuras”, e por isso tem um status de “perturbadores da paz” no pacífico condado. Um dia, de tardinha, Bilbo estava fumando seu cachimbo em frente a sua casa, e eis que aparece Gandalf e o convoca para uma aventura que o deixaria rico. Depois disso acontecem várias coisas para atormentar o pobre Bilbo: treze anões chegam em sua casa, eles partem para matar um dragão, enfrentam trolls, orcs, aranhas gigantes e elfos, recebem ajuda de águias, corvos, e conhecem um curisoso homem urso, chamado Beorn.

Exceto em algumas poucas ocasiões, quando Bilbo já estava com o suposto anel de invisibilidade, eles sempre fogem nos momentos de perigo. Este sempre era superior às suas forças, o que torna, claro, o mundo realista. E como o livro foi escrito para seus filhos (crianças), fica fácil imaginar-se como parte de um mundo onde temos algo a temer. Os leitores reconhecem melhor os protagonistas, e se identificam com eles. Outro ponto importante é o fato de que sempre que o livro abordava um ponto mais calmo da jornada, o narrador utilizava de ferramentas para aguçar a curiosidade do leitor, liberando “Spoilers” discretos do que pode acontecer no futuro. Por exemplo, quando Bilbo acaba de enfrentar uma dificuldade, e conclui que passou pelo maior perigo de toda sua vida, o narrador fala algo como “mas Bilbo estava enganado,pois havia uma guerra por vir, porém falaremos dela mais tarde.”

E diferente do que acontece em O Senhor dos Anéis, onde o final é cheio de melancolia, o “nunca mais nos veremos de novo” rola solto (num livro onde a amizade entre os heróis é o mais importante, o adeus final é muito triste), em O Hobbit temos um verdadeiro final feliz. O Dragão morto, Os elfos, anões e humanos com uma grande aliança pro futuro, os orcs derrotados, e todos cheios de dinheiro no bolso.

Termino O Hobbit com muita alegria, e a sensação de ter lido algo realmente bom. Para os fãs de Tolkien, leitura obrigatória, para aqueles que desejam um livro divertido, rápido e cheio de aventuras em um mundo desconhecido e perigoso, O Hobbit é obrigatório.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

0257) Frodo e Riobaldo (16.1.2004)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-03-01 00:00

literatura comparada, arquétipos, Riobaldo, Frodo Bolseiro, análise literária



(Elijah Wood como Frodo)

Na coluna de ontem, comparei o perfil do Riobaldo de Grande Sertão: Veredas com o de Aragorn em O Senhor dos Anéis. Chamo isto de “recorrência arquetípica”. Todo autor, ao recriar um tipo clássico de personagem (no caso, o Guerreiro Heróico) dá-lhe (mesmo sem perceber) traços que pertencem a uma tradição literária. 

Aragorn e Riobaldo são grandes guerreiros, merecedores do posto mais alto do Poder, mas cheios de dúvidas e de hesitações. A literatura está cheia de riobaldos, mas nenhum como o de Rosa, e de aragorns, mas nenhum como o de Tolkien.

Há outro herói no Senhor dos Anéis, contudo, que tem muitos traços em comum com Riobaldo: é Frodo Baggins (na tradução brasileira, “Frodo Bolseiro”). 

Se Aragorn é o Herói Guerreiro a quem cabe derrotar os exércitos do Mal e unificar sob um poder central os clãs rivais, Frodo é, como Riobaldo, o sujeito pacífico sem vocação para herói mas que, é jogado pela circunstâncias no meio de uma batalha, e vira guerreiro a contragosto. 

É, assim como Riobaldo, um herói problemático, pouco à vontade com este papel (Riobaldo: “Sou de ser e executar, não me ajusto de produzir ordens”). E, como Riobaldo, é também um herói atormentado pela presença do Diabo.

Riobaldo, embora se torne grande guerreiro, foi criado para uma vida pacífica, e entrou na jagunçagem por acaso. Muito apegado aos livros, é contratado para ser professor e secretário de Zé Bebelo, o capitão das tropas que perseguiam os jagunços. Ao ver o primeiro combate de verdade, desgosta-se daquilo e abandona o patrão. 

Uma série de acasos o faz entrar em contato com o bando de jagunços de Joca Ramiro, entre os quais reconhece o “Reinaldo”, ou Diadorim, um menino que conhecera anos antes. E é por essa amizade, depois transformada em amor, que Riobaldo se junta ao grupo, e de intelectual vira guerreiro.

Riobaldo vai à encruzilhada das Veredas Mortas para fazer um pacto com o Diabo. O Diabo não aparece, mas o jagunço volta de lá transformado, mais seguro, mais ambicioso, e pela primeira vez disposto a tornar-se líder do bando. 

Nos “Anéis”, Frodo, tendo colocado o Anel, entra em contato direto com Sauron, o Senhor das Trevas, fica daí em diante sob a mira deste, e acaba oferecendo-se a contragosto para destruir o Anel e fazer desmoronar o império do Mal. 

Tanto Frodo quanto Riobaldo são heróis contaminados por esse contato com o Mal. Frodo diz, após o fim da aventura: “Estou ferido, Sam, ferido, e nunca vou me curar.” Riobaldo, na encruzilhada: “Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim. E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.” Cada frase poderia ter sido dita pelo outro.

Note-se também que ambos exorcizam o Mal virando “escritores”: Riobaldo constrói oralmente sua epopéia, ditando-a a um interlocutor invisível (implicitamente o próprio Guimarães Rosa); Frodo é o cronista que passa para o papel a Guerra dos Anéis, finalizando o manuscrito iniciado por Bilbo.


Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

0255) Tolkien e Guimarães Rosa (14.1.2004)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-03-01 00:00

Literatura brasileira, Alta fantasia, Crítica literária, Análise comparativa, Maniqueísmo


Uma vez, conversando com amigos estrangeiros, perguntaram-me quem era o maior escritor brasileiro; respondi que era Guimarães Rosa. Ninguém tinha ouvido falar nele; quiseram saber que tipo de escritor era. Eu disse: “Imagine os romances de J. R. R. Tolkien escritos por James Joyce.” 

Riram porque pensaram que era piada, mas não era, era um mero exagero. A crítica literária brasileira, especialmente a que sofreu influência do Concretismo paulistano, sempre compara Rosa com Joyce; nunca vi ninguém compará-lo com Tolkien. E no entanto a obra dos dois tem imensas semelhanças, que me voltam à mente ao assistir o terceiro episódio da magnífica trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson.

Tanto Rosa quanto Tolkien imaginaram uma região mítica, fundada em suas vivências pessoais e em suas fantasias metafísicas. 

O Sertão de Rosa é, para usar uma linguagem meio pedante, semanticamente realista (porque tudo ali é observado, é anotado em caderneta, é pesquisado junto aos mais-velhos: usos, costumes, lugares, plantas, bichos) mas sintaticamente mágico, porque os acontecimentos e os destinos dos personagens parecem orquestrados por potestades invisíveis. 

Esse sertão que na superfície é tão mineiro, tão geográfico, tem uma escala épica que o transforma no campo de batalha entre as forças de Deus e as do Diabo.

Quanto a Tolkien, criou a Terra Média (Middle Earth), supostamente uma era remota no passado do nosso planeta, povoada por reis, guerreiros, e raças fantásticas (elfos, anões, orcs, trolls, etc.), que foram varridas da Terra depois que o Homem tornou-se o seu dono. 

À primeira vista, o mundo de Tolkien é totalmente fantástico, mas basta ler uma biografia sua (especialmente a de Humphrey Carpenter) para ver como seu processo criativo era realista. 

Tolkien compunha para seus reis árvores genealógicas inteiras, que se estendiam por milênios. Os elfos têm uma linguagem completa, toda inventada por ele (e falada pelos atores em trechos dos filmes). Seu cuidado ao descrever as aventuras de Frodo o fazia calcular desde a fase da lua em determinada noite até quanto tempo alguém levaria para ir a pé ou a cavalo de um lugar para outro (aspecto em que autores de romances não-fantásticos, como Walter Scott, muitas vezes se fazem de doidos).

Apesar das evidentes diferenças entre Grande Sertão: Veredas e O Senhor dos Anéis, ambos têm um sopro épico semelhante, ambos são a epopéia de um grupo pequeno de guerreiros do Bem enfrentando um grupo impiedoso de guerreiros do Mal. 

Os “orcs” da Terra Média e os “hermógenes” que Riobaldo enfrenta nas batalhas sertanejas são personificações do Mal que um herói hesitante e problemático precisa derrotar. 

Há muitos paralelos de detalhes que podem ser traçados entre as duas obras, mas mais importante do que isto é o espírito de nobre maniqueísmo medieval que os dois autores compartilhavam. O Bem existe. O Mal também. E é preciso pegar em armas para combater o Mal.




Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2010-09-12 20:29

Literatura Fantástica, Mitologia, Terra Média, J.R.R. Tolkien, Linguística, Cultura Pop

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Esta obra, considerada pela maioria dos fãs a melhor e mais importante de Tolkien, é uma coletânea de textos escritas pelo autor, e adaptadas por seu filho Christopher Tolkien, visto que muitos destes textos ainda estavam sobre a forma de rascunho, a lápis. É um livroque segue o estilo ame ou odeie: para quem se apaixonou pela mitologia, lendas e universo criado por Tolkien, ler este livro será uma experiência sem igual. Para os demais, será chato e entediante.

O livro descreve acontecimentos da primeira era da Terra Média, e é dividida em cinco partes: Ainulindalë, A música dos Ainur, que fala sobre a criação de Eä, o mundo; a Valaquenta fala sobre os Valar e os Maiar, os seres poderosos que moldaram o mundo; o Quenta Silmarillion, relata os principais acontecimentos de antes e durante a primeira era, sendo a principal parte do livro; Akallabèth, fala sobre os humanos do reino de Númenor, e a queda do mesmo pelas mãos de Sauron; e, finalmente, Dos Anéis de poder e da Terceira Era, fala brevemente sobre acontecimentos da terceira era (a destruição do Anel de poder marca o fim da terceira era da Terra Média).

O foco do livro é os Elfos, os primogênitos. Descreve como e por que alguns viajaram para as terras imortais, enquanto outros ficaram na terra média por amor as estrelas, fala sobre as decisões das principais famílias dos elfos, e sobre Fëanor, o maior de todos os elfos, e suas grandes criações, entre elas as Silmarils, jóias que, mais tarde, levariam os reinos élficos à ruína. Alguns contos merecem destaque, como a história de amor de Beren, um humano, e Lúthien, uma princesa élfica, o verdadeiro amor impossível do mortal e a imortal (em O Senhor dos Anéis, Frodo encontra Aragorn cantarolando uma música triste, a música de Beren e Lúthien, história que estava para se repetir com Aragorn e Arwen).

Há pouquíssimos diálogos; geralmente o próprio narrador é quem descreve as falas e as atitudes do personagem. Na verdade o que apaixona nesse livro não é sua própria existência, não é o livro em si, mas o conjunto, a obra que Tolkien escreveu. Para aqueles que não sabem, Tolkien era um grande professor de lingüística, sendo um renomado filólogo, ou estudioso da lingüística histórica, uma grande autoridade em literatura nórdica, estudando Beowulf e o Kalevala (conheci essas obras através das HQs de Carl Barks e Don Rosa, com Tio Patinhas e Cia, mas isso já é outra história). Criou vários idiomas (os mais completos são o Quenya e o Sindarin, mas há vários outros menos detalhados na lista), sistemas de escrita rúnicos, as Angerthas, e os Tengwar, caracteres de Fëanor. Era apaixonado pelos detalhes, runas e idiomas como o finlandês.

Sua obra grandiosa inspirou e inspira milhares de pessoas. Em jogos de vídeo-game é comum encontrar nomes e referências a obra de Tolkien (em castlevania temos o First of Tulkas, em Dota temos Mithril Hammer). Blind Guardian baseou seu CD Nightfall in midle earth neste livro. Uma coisa curiosa é que na lápide de Tolkien e de sua mulher está escrito, abaixo de seus nomes, as inscrições “Beren” e “Lúthien”, o grande amor que inspirou seu conto.

É uma obra fantástica. Se você leu as obras mais famosas do autor e se apaixonou, ou é viciado em mitos, lendas e contos nórdicos ou celtas, leia o livro. Mas se você acompanhou o sucesso do cinema mas não sentiu muito interesse pela terra média, fique longe do livro. O silmarillion não é para você.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

0258) Da Terra Média ao Sertão (17.1.2004)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-03-01 00:00

Literatura, Adaptação cinematográfica, Estilo literário, J. R. R. Tolkien, Guimarães Rosa, Comparação literária



(ilustrações: Poty / J. R. R. Tolkien)

A trilogia O Senhor dos Anéis foi trazida para o cinema por Peter Jackson com a fidelidade possível quando se trata se adaptar um livro tão imenso – na edição de bolso que possuo, ele ultrapassa as 1.500 páginas.

A comunidade internacional de fãs de J. R. R. Tolkien teve um papel importante nisto, pressionando diretor, roteiristas e produtores, e impedindo as catástrofes dramatúrgicas típicas das adaptações dos clássicos feitas em Hollywood. Assim, grande parte da substância do livro acabou tendo um equivalente aceitável na tela.

Tolkien era um sujeito introvertido, ascético. Teve uma terrível experiência nas trincheiras durante a I Guerra Mundial, quando perdeu vários amigos. O Senhor dos Anéis foi escrito entre 1936 e 1949, durante a II Guerra, portanto.

É comovente (e educativo) nos dias de hoje, ver Tolkien afirmar que o manuscrito inteiro foi duas vezes datilografado por ele próprio, porque mesmo sendo professor em Oxford não podia pagar um datilógrafo.

Era um conservador, apaixonado pela Idade Média, sobre a qual falava aos seus alunos com entusiasmo; conta-se que costumava encerrar essas descrições dizendo: “E aí veio a Renascença, e estragou tudo.”

Era profundamente católico, misoginista como muitos britânicos de sua geração, detestava a tecnologia e a modernização.

O “Condado” (Shire) onde vivem os hobbits é sua utopia pessoal, uma visão idealizada de uma Inglaterra rural, pacífica mas resoluta, amante do sossego e dos livros, mas capaz de ganhar uma guerra se ameaçada de invasão.

O Senhor dos Anéis, apesar de ser aquele catatau, é apenas a ponta do iceberg ficcional de Tolkien, que imaginou uma história-do-mundo completa, desenhou mapas, criou genealogias, idiomas e alfabetos.

Tolkien fundou o que podemos chamar de “ficção catalográfica”, onde o autor inventa todos os detalhes de um mundo. Ele inventou primeiro o idioma dos elfos, e ao imaginar sua História começou a inventar as narrativas que hoje conhecemos. Neste aspecto, sua obra tem uma coerência e um mapeamento interno muito maior que a obra de Guimarães Rosa.

Rosa era meticuloso ao pesquisar, e totalmente intuitivo e instintivo ao escrever. Seus arquivos guardam uma quantidade impressionante de material, mas ele não lhes deu a coerência catalográfica que existe na obra de Tolkien.

Extrovertido, vaidoso, bem-humorado, cosmopolita, Guimarães Rosa era em muitos aspectos o avesso de Tolkien.

Seus heróis (Riobaldo, Diadorim, Augusto Matraga) são tomados muitas vezes por uma alegre ferocidade, uma euforia-de-batalha que está ausente nos heróis dos “Anéis”.

Por outro lado, o romance de Tolkien é otimista (dos nove membros da Irmandade do Anel, apenas Boromir morre), enquanto que o Grande Sertão é no fundo a história de um fracasso, ou de uma vitória de Pirro: no final, Riobaldo é feliz no jogo (na guerra) e infeliz no amor.

Tolkien era um homem triste que sonhava com finais felizes, e Rosa um homem alegre que temia o Final.

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

0049) Os Beatles e o Senhor dos Anéis (18.5.2003)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2008-03-01 00:00

Beatles, J. R. R. Tolkien, Cinema, Cultura Pop, Adaptações literárias

Os filmes da saga O Senhor dos Anéis colocaram em evidência o nome de J. R. R. Tolkien, um carrancudo professor de Filologia em Oxford que se tornou a contragosto um dos maiores best-sellers do século 20.

Seus livros vinham tendo sucesso na Inglaterra, a partir de 1955; na década de 1960, lançados em edição de bolso nos EUA, caíram no gosto da juventude universitária norte-americana, que começava a flertar com a Contracultura, o estilo hippie, as drogas alucinógenas.

Em sua The Ultimate Beatles Encyclopedia, Bill Harry conta que em 1968 os Beatles, já tendo lançado Magical Mystery Tour, decidiram que a obra de Tolkien seria o seu próximo projeto cinematográfico.

O primeiro diretor sondado foi Stanley Kubrick, então envolvido com a finalização e o lançamento de 2001, uma Odisséia no Espaço. Kubrick não se interessou, e a seguir foi contactado Michelangelo Antonioni, que tinha causado grande impacto em Londres pouco antes, com Blow Up.

Quando os representantes dos Beatles entraram em contato com o agente literário de Tolkien, descobriram que os direitos de adaptação para o cinema já haviam sido negociados. E fica para os cinéfilos e os beatlemaníacos a conjetura sobre em que resultariam essas combinações entre os quatro músicos-atores, um clássico da literatura de fantasia, e cineastas no auge de sua criatividade.

É revelador, porém, saber os papéis que os Beatles tinham escolhido para si próprios.

Paul MacCartney decidiu ser Frodo, o portador do Anel e protagonista da história, interpretado hoje por Elijah Wood. Uma escolha óbvia para quem, com o sucesso de Sergeant Pepper´s e a morte de Brian Epstein, tinha virtualmente se tornado o líder da banda.

Ringo Starr seria Sam Gamgee, o amigo de Frodo, símbolo da lealdade (no filme de Peter Jackson, interpretado por Sean Astin).

George Harrison, em plena descoberta do misticismo oriental, não poderia ter feito uma escolha mais adequada do que o mago Gandalf (agora a cargo de Ian MacKellen).

A escolha mais curiosa é a de John Lennon, que começava a emergir da longa viagem de LSD em que esteve mergulhado a partir de 1966 e ao longo de 1967. Em Revolution in the Head, Ian MacDonald o descreve em 68 como “um destroço mental, lutando para colar de volta os próprios cacos”.

Lennon escolheu o papel de Gollum, o ser que durante séculos usou o Anel do Poder até que este lhe exauriu as forças e o transformou numa espécie de parasita monstruoso (no filme atual, Gollum foi criado através de computação gráfica).

Lennon sempre viu a si próprio como um desajustado, o que lhe dava uma auto-imagem monstruosa (“I am the walrus”) e uma constante sensação de vazio (“I´m a Loser”, “Nowhere Man”). Gollum é talvez o mais patético exemplo do Viciado na literatura contemporânea, a criatura capaz de gritar repetidamente, como Lennon: “I want yooou, I want you so baaad!... It´s driving me mad, it´s driving me mad!...”

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

1630) “Príncipe Caspian” (3.6.2008)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2010-02-01 00:00

literatura fantástica, adaptações cinematográficas, J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, fé cristã, crítica literária

O segundo filme da série As Crônicas de Narnia, em cartaz na Paraíba, tem efeitos especiais bem bolados e usados sem exagero, um quarteto de protagonistas infanto-juvenis (o que é uma raridade no gênero, que geralmente se concentra em um ou dois) e uma trama de fantasia clássica – um reino em perigo, ameaçado por nobres ambiciosos. C. S. Lewis e seu amigo J. R. R. Tolkien geraram uma mega-franquia editorial e cinematográfica, mais de meio século depois que escreveram suas obras.

C. S. Lewis era um professor de Oxford, um sujeito erudito e profundamente religioso. Pertencia a um grupo de intelectuais de perfil semelhante que incluía Tolkien e Charles Williams. Denominavam-se “os Inklings”, e todos escreveram histórias fantásticas ou de ficção científica. Lewis e Tolkien tinham uma daquelas amizades polêmicas, feitas de profundo afeto mútuo e profundas divergências (Lewis era anglicano, Tolkien era católico). Tolkien estava escrevendo sua série do Senhor dos Anéis desde 1937 com O Hobbit; os três volumes principais da trilogia saíram entre 1954 e 1955, embora Tolkien já viesse trabalhando neles há mais de dez anos. Lewis, por sua vez, publicou toda a série “Narnia” entre 1950 e 56. Os dois costumavam ler trechos dos respectivos manuscritos em suas noitadas literárias em Oxford. Tinham numerosos pontos de concordância e de divergências, e hoje não há dúvida de que essa relação de crítica e encorajamento recíproco contribuiu muito para o alto nível literário de ambas as séries. A gente sempre escreve melhor quando sente que tem leitores atentos, respeitosos e exigentes, ainda mais quando são amigos, e amigos mais chegados a um debate do que a fazer elogios protocolares e mudar de assunto.

Este segundo filme de Narnia mostra o quanto o universo de Lewis se parece com o de Tolkien. Em ambos, coabitam seres humanos e seres fantásticos ou mitológicos. Em Tolkien são os elfos, hobbits, anões, orcs, etc. Em Lewis são faunos, centauros, animais falantes. O mundo de Tolkien se situa no planeta Terra, mas numa época antiqüíssima, anterior à nossa; Narnia é um outro mundo, paralelo ao nosso, que pode ser acessado através de “fendas” em lugares especiais (como o guarda-roupa mostrado na primeira história).

O leão Aslan, em “Narnia”, é um símbolo de Cristo: ele morre e ressuscita, serve como um símbolo de grandeza moral, ajuda as crianças a enfrentarem seus inimigos mas na maioria das vezes se mantém à distância, intervindo apenas em alguns momentos. Em Príncipe Caspian há um momento em que Lucy diz ao leão: “Eu sabia que você estava aqui, mas os outros não acreditaram em mim”. E Aslan responde: “Mas, se você acreditava, por que não veio?” É uma resposta cristã e sábia, porque na verdade a medida de uma fé é o tipo de conseqüências que ela produz em nossa atitude diante da vida. Se você acredita em alguma coisa, por que não vai atrás dela? Por que não pratica?

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

0850) As Crônicas de Narnia (7.12.2005)

Fonte: Mundo Fantasmo | Publicado em: 2009-02-01 00:00

Literatura Fantástica, C. S. Lewis, J. R. R. Tolkien, Inklings, Adaptações literárias

Está em todas as livrarias onde entro, espreitando-me do balcão principal, a maciça cabeça de um leão de olhos pensativos. Trata-se da tradução brasileira (Ed. Martins Fontes, 750 pgs.) das Crônicas de Narnia, o clássico de literatura infantil de C. S. Lewis, pela primeira vez com todos os sete livros reunidos num único volume. Cheguei a ler o primeiro, The Lion, the Witch and the Wardrobe, mas era difícil encontrar os títulos na ordem certa, e acabei deixando pra lá. Lewis foi um grande amigo de J. R. R. Tolkien, e não duvido de que o sucesso recente de O Senhor dos Anéis tenha trazido o nome e a obra dele à lembrança dos produtores de cinema (o filme de “Narnia” vai estrear em breve) e das editoras.

Lewis e Tolkien são uma dupla curiosa de escritores. Eram amigos, ambos ensinavam em Oxford, ambos eram homens introspectivos, ambos tinham um profundo problema religioso. E tornaram-se, quase ao mesmo tempo, dois dos principais autores de literatura fantástica da Inglaterra. Tolkien criou seu gigantesco universo da “Terra Média”, onde ambientou as histórias de O Hobbitt, O Senhor dos Anéis, O Silmarillion e tantas outras. Lewis escreveu uma trilogia de romances de ficção científica (Out of the Silent Planet, 1938; Perelandra, 1943; That Hideous Strength, 1945), em que os planetas do Sistema Solar servem como cenário da luta entre o Bem e o Mal. No final dos anos 1940, ele começou a publicar a série das “Crônicas de Narnia”.

Lewis era anglicano, Tolkien era católico. Os dois discutiam extensamente questões de literatura e religião, e tiveram profunda influência na obra um do outro. A rigor, quem quer que se interesse pela obra de Tolkien precisa dar uma espiada na obra de Lewis, para entender melhor o contexto em que as duas foram criadas. Não se pode esquecer também um terceiro escritor, Charles Williams, também autor de obras fantásticas; s três formavam um grupo informalmente chamado “os Inklings”. Lewis foi um típico intelectual solteirão até a idade madura, quando conheceu uma americana com quem se casou e teve um breve episódio de felicidade conjugal até a morte dela, poucos anos depois. Há um belo filme contando esta história, Shadowlands, com Anthony Hopkins e Debra Winger.

“As Crônicas de Narnia” foram lidas por milhões de crianças no mundo inteiro pelo simples prazer das aventuras que narram, e foram estudadas por centenas de acadêmicos pela complexa simbologia cristã que encerram. Fico meio temeroso quando vejo Hollywood adaptar obras desse tipo, porque na melhor das hipóteses o que pode acontecer é o que Walt Disney fez com “Alice no País das Maravilhas” de Carroll – um desenho simpático, criativo, divertido, mas a léguas de distância da riqueza de referências contidas no livro original. Em todo caso, os livros estão disponíveis em português, tanto na edição conjunta quanto em volumes separados.

Texto originalmente publicado em Mundo Fantasmo

Algumas considerações sobre Tolkien

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2012-01-03 19:36

Literatura Fantástica, J.R.R. Tolkien, Linguística, Terra Média, Literatura Épica

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Hoje, 3 de janeiro de 2012, seria o aniversário de 120 anos de John Ronald Reuel Tolkien, um dos maiores escritores de literatura fantástica da história da literatura, tendo influenciado escritores, Rpgistas, desenvolvedores de jogos, diretores de cinema etc.

Tolkien nasceu na África do Sul, mudando-se para Inglaterra aos três anos. Era fascinado pela linguística desde criança, cursou a faculdade de letras, tornando-se mais tarde um dos maiores especialistas do mundo em Anglo-saxão, matéria que ensinava em Oxford, além de literatura inglesa. Foi grande estudioso da literatura nórdica, o que o tornou um dos maiores especialistas nos poemas Beowulf e Kalevala, tendo feito parte de várias sociedades de críticas literárias.

Foi grande amigo de C. S. Lewis, criador de As crônicas de Nárnia, mas sempre teve alguns problemas de ordem religiosa com este, pois Tolkien era católico, e Lewis agnóstico. Tolkien trabalhou muito na conversão do amigo, mas o máximo que conseguiu foi Lewis aderir à religião Anglicana.

Sempre apaixonado por línguas, foi claro um poliglota, e se baseou no finlandês e o galês para criar o seu idioma maior idioma: o Quenya, que tem uma gramática complexa e um vocabulário extenso, e hoje é estudado por milhares de fãs ao redor do mundo. Foi a partir das línguas que Tolkien criou Arda, cenário de O Hobbit, Senhor dos Anéis e O Silmarillion.

De minha parte possuo na estante 5 livros de Tolkien: O Senhor dos Anéis, O Hobbit, O Silmarillion, Contos Inacabados e As Aventuras de Tom Bombadil. E desejo para um futuro próximo os outros 6 já publicados no Brasil: Os filhos de Húrin, Roveramdom, Sobre histórias de Fadas, Mestre Gil de Ham, As Cartas de J.R.R. Tolkien e A Lenda de Sigurd & Gúdrun.

Esse ano vou ler o que já tenho e ainda não li de Tolkien, e reler o resto. Espero comprar/ ganhar ao menos mais um dele. E talvez começar a leitura de The Fellowship of the Ring, que ganhei ano passado de Reinaldo.

Obrigado por ter deixado esse grande legado, e que cada vez mais pessoas conheçam a Terra Média (e que ninguém mais faça comparações entre Arda e Westeros…).

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

O Pistoleiro – A Torre Negra Vol. 1, Stephen King

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2010-09-03 12:18

Literatura, Fantasia, RPG, Stephen King, Worldbuilding

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Terminei recentemente de ler a primeira parte da grande obra de King, A Torre Negra. O autor se influenciou, como ele mesmo afirmou, na Terra Média, no poema do escritor Robert Browning, Childe Roland to the Dark Tower Came, e outros elementos importantes, como o ambiente tipicamente western (embora seja um velho-oeste apocalÍptico), e demônios, drogas poderosas etc.

O universo é o que mais chama a atenção, ainda mais quando se joga RPG. Como muitos já sabem, o que mais me fascina em O Senhor dos Anéis é a Terra Média, a grandiosidade do cenário, os detalhes, a história, as florestas, os perigos. Aqui há, também, uma grandiosidade absurda. Não em detalhes, mas na concepção, na idéia geral do universo.

O livro relata a perseguição do pistoleiro ao homem de preto. Começa quando ele está vagando no deserto atrás de seu alvo, e acaba quando ele o encontra e consegue respostas. O mundo de Roland, como ele mesmo disse, “seguiu em frente”, é um mundo destruído, cheio de poeira e mutações, drogas e crimes, cultos religiosos extremistas, magia negra. Seu mundo outrora era protegido pelos pistoleiros, que eram uma espécie de homens da lei, fazendo o papel de polícia e juíz. Hoje ele é o último. O objetivo de Roland é encontrar a Torre Negra, sendo está a chave de controle de todo tempo e espaço, desta e de todas as dimensões.

O livro não é apenas divertido, ou interessante. É realmente grandioso e ambicioso. Fico até pensando se não há por aí um RPG oficial do livro, por que há muitas possibilidades. Assim como a Galáxia, a Terra Média, ou até mesmo Hogwarts, não se encerra nesta aventura principal, o universo da Torre Negra se mostra com possibilidades infinitas, o que dá certa insegurança e curiosidade para saber onde Roland irá parar no próximo livro.

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Resenha – Mestre Gil de Ham – J. R. R. Tolkien

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2013-08-08 14:18

Literatura infantil, J.R.R. Tolkien, Resenha literária, Fantasia

mestre gil

Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

Livro bastante curto, e de certa forma diferente dos maiores trabalhos de Tolkien, onde há bastante profundidade em detalhes. Em Mestre Gil de Ham temos uma história infantil completa, criada por Tolkien apenas para divertir seus filhos. Uma história simples e despretensiosa, que se passa na Europa, em uma época antiga, antes das grandes monarquias, antes até do grande rei Artur ter nascido.

 A história gira em torno de Aegidius Ahenobarbus Julius Agricola de Hammo, ou simplesmente Mestre Gil de Ham, um simples e pacato agricultor que preza pela tranquilidade; tudo que mais gosta é de encher o bucho (Hobbits?). Ele vive com sua esposa e com seu cão, com o qual trava discussões interessantes conforme a história vai andando (sim, ele fala com o cão, e é bastante engraçado), em uma pequena, mas confortável fazenda em Ham. Mas toda essa tranquilidade é ameaçada quando um gigante entra em seus domínios, matando um de suas vacas e um punhado de ovelhas… A partir daí Mestre Gil acaba entrando, sem querer, numa vida de heroísmo que não tem mais volta, onde enfrentará Gigantes e Dragões…

Livro ideal para crianças de todas as idades, e para adultos que querem algo leve para descansar em meio a leituras mais pesadas. É bom frisar que não foi escrito para ser uma obra prima, seu objetivo é distrair e divertir, e nisso é muito bem sucedido.

Nota 3 em 5

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica

Livro: O Hobbit – J. R. R. Tolkien.

Por: umapaixaochamadalivrosblog

Fonte: Umapaixaochamadalivrosblog | Publicado em: 2022-09-10 20:44

fantasia, literatura clássica, resenha literária

Olá, leitores. O aclamado autor que eu nunca tinha lido me despertou interesse com esse livro. Li em e-book. Uma fantasia divertida e leve. Apesar de não ter me tocado, gostei de conhecer a história. Sr. Bolseiro é um ótimo personagem. Assim como todos os apresentados.

Inesperadamente, Bilbo Bolseiro, um hobbit de vida confortável e tranquila no Condado recebe a visita de 13 anões e Gandalf que o arrastam em uma jornada através das montanhas e das terras ermas enfrentando elfos, orcs, trolls, wargs, para o resgate de um tesouro muito bem guardado por Smaug, o Dragão. Bilbo se vê em diversas confusões e encontra algo que mudaria não só sua vida como de toda Terra Média.

#ohobbit #jrrtolkien #infantojuvenil #literatura #leiaautoresclassicos

Beijos e até a próxima 📚.

Texto originalmente publicado em Umapaixaochamadalivrosblog

Dia Internacional do Livro

Por: catalisecritica

Fonte: Catálise Crítica | Publicado em: 2010-04-23 11:14

Literatura, J.R.R. Tolkien, Fantasia, O Senhor dos Anéis

De minha parte dedico este dia a J.R.R. Tolkien. Seus personagens carismáticos, armados de honra, amizade e esperança em um mundo livre do mal, me cativaram totalmente. Os cenários magníficos, as canções élficas, a história, as guerras, os povos. Tudo é grandioso, e nunca perde a harmonia. Um grande livro que, mesmo não fazendo o gênero da maioria, deveria ser apreciado por todos.

O Senhor dos Anéis – J.R.R. Tolkien

Texto originalmente publicado em Catálise Crítica