Quantas ordens estamos executando nesse exato momento, no modo “piloto automático”? Alguém aqui já se questionou se o que fazemos, desde o momento em que acordamos até colocarmos a cabeça no travesseiro, é o que deveríamos realmente fazer?
Maria Paula Curto *
Sempre me perguntei como os alemães, “cidadãos de bem”, não perceberam o que estava acontecendo debaixo do nariz deles, nos anos que precederam ao estouro da Segunda Guerra mundial. Como eles não se deram conta do horror que se aproximava? Como eles não viram, ou pior, como eles não evitaram a ascensão do regime nazista? Claro, é fácil falar agora, sob uma perspectiva histórica, queria ver perceber ao vivo e a cores, na hora, no meio do rala e rola. Será que eu perceberia? Será que eu me revoltaria? Teria alguma indignação? Ou passaria batido, tocando o dia a dia como se não fosse comigo, como se todo o turbilhão que se anunciava – e olha que não eram poucos os indícios — fosse apenas fruto da loucura de alguns? Será que eu, pressionada por uma crise econômica, ia fazer vista grossa para atos e comportamentos violentos e dizer: tudo bem! Precisamos mudar o país. Precisamos de alguém com pulso forte. Será? Será que eu iria simplesmente tocar o barco em frente, buscando a “tranquilidade da ignorância”? Usar as velhas e gastas expressões do tipo: “Não gosto de me envolver com política”. “Nunca muda nada”. “Vai passar”. “Deixa quieto”. “Não vale a pena”. E se assim fosse, milhões de vida seriam perdidas pela minha – ou nossa – inação.
Como identificar o horror? Como perceber a sua aproximação? Costumo dizer que o problema do horror é que ele não se apresenta, necessariamente, como um monstro. Ele pode estar num ser humano qualquer. Aquele que caminha ao nosso lado. Ou dobrando a esquina.
Lembro de Hannah Arendt – filósofa alemã de origem judaica que escreveu grande parte da sua obra nos Estados Unidos, onde teve que viver, por conta da Segunda Guerra Mundial – que ao ser escalada, como jornalista, para cobrir o julgamento do Eichmann, um dos expoentes mais violentos e perversos do nazismo, encontrou, no lugar do monstro terrível que imaginava, apenas um homem comum, disciplinado, um seguidor de regras. O cérebro organizador da “logística do holocausto” foi um mero cumpridor de ordens. Para seus líderes, um profissional com excelente desempenho; para o mundo, o grande responsável por milhões de mortes de inocentes. Culpa? Responsabilidade? Remorso? Absolutamente. Ele simplesmente cumpria o seu papel e executava as ordens. Cegamente. Sem pensar. E talvez aí resida o grande perigo: não pensar.

Representante da “Banalidade do Mal”, Adolf Eichamann nada mais era do que um burocrata cumpridor de deveres. Foto: Acervo de Israel
Quantas ordens estamos executando nesse exato momento, no modo “piloto automático”? Alguém aqui já se questionou se o que fazemos, desde o momento em que acordamos até colocarmos a cabeça no travesseiro, é o que deveríamos realmente fazer? Estamos atento ao que está acontecendo no mundo? Não precisa ir tão longe. Estamos atentos ao que acontece no nosso bairro, na nossa rua, do outro lado da ponte ou da parede? Onde está nosso papel de cidadão? Quanta violência já banalizamos? A quantos chamados já atendemos? Ou estamos tão umbilicalmente envolvidos no nosso cotidiano que já nos tornamos surdos para o que realmente interessa? Qual o nível da nossa indignação? Ou será que nos anestesiamos maratonando séries violentas nos streamings da vida para evitar a violência em série que nos rodeia? Estamos falando o que nos incomoda ou engolindo sapos gigantes com maionese gourmet??
Se o horror não vem travestido de monstro, podemos ao menos perceber seus sinais. Perceber, por exemplo, que idolatrar torturador não pode ser boa coisa. Não combina com democracia, nem com paz e muito menos com liberdade de expressão e pensamento. Perceber que não faz sentido, em pleno século XXI, negar a ciência e afirmar que a terra é plana. Entender que o Estado deve ser laico e que Deus não está acima, mas no meio de nós. Que minimizar dor e sofrimento – quanto mimimi — é pura falta de empatia. Que o feminino não é uma fraquejada. Entender que nenhuma mulher, feia ou bonita, merece ser estuprada. Que não é a arma, mas os livros que realmente libertam. E liberdade é valor inquestionável. Ou, pelo menos, deveria ser.
Agora, um último aviso: O horror pode estar mais perto do que a gente imagina. E ser irreconhecível. Não tem nariz grande nem verruga no rosto. Nem é feito de pedaços distintos de carne. Ele pode ser até bonito. Aliás, ele geralmente é belo. E atraente. O horror não anda de vassoura nem de busão lotado. Pode vir ao volante de um Porsche prata. Último tipo. Não cheira a carne podre. Não se veste com farrapos nem arrasta corrente. O diabo pode vestir Prada. Ou estar por trás de um belo terno Armani. Ele até pode vir armado, mas não necessariamente será agressivo nem violento
Não à primeira vista.

Entender que o Estado deve ser laico e que Deus não está acima, mas no meio de nós. Que minimizar dor e sofrimento – quanto mimimi — é pura falta de empatia. Que o feminino não é uma fraquejada. Entender que nenhuma mulher, feia ou bonita, merece ser estuprada. Foto: Reprodução/ Poder 360.
Para nos conquistar, ele pode vir junto com um simpático tapinha nas costas ou um aperto de mão. Ele pode estar no sorriso do vizinho do 501. Num cidadão comum. E até nas boas intenções da cunhada, da titia e da vozinha de cabelos ralos e violetas. Tadinhas, tão inocentes. Muitas vezes ainda, ele pode vir disfarçado de super-herói e salvador da pátria. De guardião dos bons costumes e dos valores morais da sociedade. Portar uma bandeira verde e amarela e falar em ordem. E progresso. Mas cuidado, talvez ele resida mais no seu silêncio do que no berro dos revoltados…

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.