O conteúdo a seguir dá continuidade à parceria entre o Estado da Arte e a Electra, revista internacional de pensamento e cultura contemporânea editada em Lisboa. Assinado pelo editor António Guerreiro, o texto foi publicado em sua íntegra no número 25 da revista, que teve a mentira como tema de seu dossiê. Como assinalam José Manuel dos Santos e António Soares no editorial da edição, a voz escrita de Kafka pode ser também um bom guia para pensar o assunto: “Podemos falar do nosso presente falando da mentira e do que a mentira é, representa, realiza e repercute. Deste tempo, Kafka também foi um arauto. Ele soube, na sua obra, captar as forças arcaicas que continuaram o seu caminho até nós e mostram a sua máscara sem rosto e a sua veste sem corpo”.

O texto aqui reproduzido — que mantém a grafia do português de Portugal — aborda a figura de Kafka a partir do descompasso entre a aparência de uma vida comum e a radicalidade de uma existência inteiramente atravessada pela literatura, um enigma que mobiliza intérpretes e leituras sem jamais se deixar fixar. Nesse horizonte, ganha destaque a monumental biografia do escritor por Reiner Stach.


Quem foi Kafka? Quem foi este homem que tinha um mundo imenso, monstruoso, na sua cabeça e cuja vida foi uma ascese na literatura e pela literatura? O mistério chamado «Kafka» está coberto pela película espessa de uma vida quotidiana banal, de funcionário de uma empresa de seguros, mas que na verdade era «feito de literatura», incapaz de ser outra coisa. Desde então, uma fila de intérpretes tem procurado decifrar o enigma, supondo que ele tem a forma de um abismo interior. Walter Benjamin, primeiro que todos, disse que o escritor checo tudo fez para tornar inacessível a resposta à questão da sua identidade: ele «teria quebrado a cabeça toda a vida para saber com o que é que se parecia, sem nunca ter percebido que existem espelhos». Na verdade, Kafka sempre se sentiu no exterior: estranho no seio da família, sem sentimentos de pertença a qualquer comunidade (seja a dos judeus de Leste, seja a dos escritores e intelectuais da Boémia), sem nada em comum, «nem sequer comigo mesmo». Elias Canetti disse que «Kafka teve a habilidade de se transformar no homem mais insignificante». No entanto, a massa de documentação diarística e epistolar é tão grande, os testemunhos dos amigos e contemporâneos tão abundantes, que a vida de Kafka, se avaliada só tem uma zona mais obscura: os anos de juventude, anteriores aos Diários. Desfiando os acontecimentos desta vida que durou quarenta anos e onze meses (1883−1924), ela mostra-se monótona e lisa: decorreu na sua quase totalidade no centro histórico de Praga, onde nasceu, estudou Direito e trabalhou, durante catorze anos (de 1908 a 1922), numa companhia de seguros. Exceptuando o Inverno de 1923/24, em que viveu com a sua última namorada em Berlim, Dora Diamant, nunca tinha passado mais do que alguns dias no estrangeiro nem vivido com uma mulher; permaneceu solteiro toda a vida, apesar de ter estado noivo por três vezes (duas delas, com Felice Bauer), e só aos trinta e um anos saiu de casa dos pais. Conheceu apenas as cidades de Berlim, Munique, Paris, Viena, Zurique e Budapeste, mais a região do Norte da Itália. O mar, só o viu três vezes.

Eis então a situação paradoxal de um escritor que parece fornecer escasso material biográfico, mas que é o objecto de uma monumental e muito elogiada biografia, cerca de três mil páginas, em três volumes, da autoria de Reiner Stach. Exaustiva e rigorosa, esta biografia do escritor checo não tem comparação com nenhuma outra anterior. Fornece-nos ela dados novos, grandes revelações factuais? Não, o que ela revela situa-se noutro plano. Reiner Stach perseguiu em Kafka uma «dimensão vertical» (que ele opõe ao curso «horizontal» da vida, na sua sucessão cronológica), isto é, o mundo interior. A sua metodologia consiste em sondar e perscrutar o que se desenvolve essencialmente num plano psíquico, interior, fora do plano horizontal dos acontecimentos e da paisagem social. O escritor que provocou grandes considerações de ordem moral e política pela sua atitude aparentemente «désengagée» (lembremos aquelas parcas palavras que escreveu no seu diário, a 2 de Agosto de 1914: «A Alemanha declarou guerra à Rússia. Depois do almoço, piscina») não esteve de modo alheado da realidade da guerra e até teve de se ocupar profissionalmente de algumas das suas vítimas — é o que defende, com fortes argumentos, Reiner Stach.

«Faut-il brûler Kafka?» [É preciso queimar Kafka?] foi a célebre pergunta feita em 1946 pela revista comunista Action. Ou seja: o que fazer com uma obra moralmente nociva, negra, de um intimismo estéril, abstraída de toda a crítica social? A esta pergunta respondeu Georges Bataille, em Outubro de 1950, com um artigo na revista Critique que tinha por título «Kafka devant la critique communiste». Bataille explicava então o pensamento que legitimava a questão: os comunistas punham a hipótese de submeter a obra de Kafka à aniquilação, porque a viam como uma forma de aceitação da realidade existente que torna inútil qualquer forma de revolta e contradiz os princípios essenciais da acção e da mudança. Juízo semelhante foi o de Lukács, que em meados dos anos 50 colocou Kafka em oposição a Thomas Mann: de um lado a decadência (embora «artisticamente interessante»); do outro «o realismo crítico verdadeiro como a vida».

O primeiro alerta para os perigos potenciais da obra de Kafka veio do filósofo Günther Anders, primeiro marido de Hannah Arendt. Numa conferência no Institut d’Études Germaniques, em Paris, em 1934, Anders definiu Kafka como um «autor filosoficamente e moralmente inutilizável, dotado de um narcisismo negativo, uma voluptas humiliatis», isto é, uma forma de masoquismo. E, ao mesmo tempo, apontava a recepção de Kafka, na Alemanha, como uma moda perigosa e chegava a sugerir que o escritor checo tinha antecipado o fascismo. Tão grande perigo só podia vir de uma obra grandiosa: disso não tinha dúvidas Günther Anders. Essa conferência constitui o núcleo de um volume publicado em 1951 com o título Kafka, pro und contra, que mereceu uma resposta de Max Brod, o grande amigo de Kafka, num texto intitulado «Assassínio de um fantoche chamado Franz Kafka». Segundo Brod, Anders tinha-se limitado a atacar um Kafka construído por ele, servil e derrotista, que nada tinha do Kafka real.

Max Brod foi o grande amigo de Kafka, seu primeiro biógrafo e editor póstumo. A Max Brod confiou Kafka, no leito da morte, a vontade de que os seus escritos fossem integralmente queimados. A expressão desta vontade fez, até hoje, correr muita tinta. E Max Brod foi objecto de todos os louvores por ter garantido a posteridade de Kafka, à custa de uma traição. Quem nunca aderiu a esta história foi Walter Benjamin. Segundo ele, Kafka tinha confiado tal disposição testamentária a quem ele sabia que jamais cumpriria a sua última vontade. A verdadeira fidelidade a Kafka, segundo Benjamin, ganhava então este aspecto contraditório: publicavam-se as suas obras e, ao mesmo tempo, a ordem testamentária para que elas não fossem publicadas. Em favor da tese de Benjamin, contribuindo para desfazer o mito do espólio literário destinado a ser queimado, Reiner Stach mostra que Kafka poderia ter cumprido essa tarefa e não o fez. E limita essa última vontade de Kafka às cartas e aos diários. Benjamin, nas suas críticas a Brod, foi mais longe: demoliu impiedosamente a sua biografia, acusando-a do pecado de falta de recuo, para o qual contribuía a tese de que Kafka estava no caminho da santidade. A atitude do biógrafo Brod, escreveu Benjamin, «é pietista pela intimidade que ela regista, ou seja, por uma atitude totalmente desprovida de piedade».   

Kafka deixou alguns avisos aos seus biógrafos. Por exemplo, quando escreveu a Felice: «O romance sou eu, as minhas histórias sou eu»; ou quando registou no seu diário: «Eu não sou senão literatura, e não posso nem quero ser outra coisa.» Reiner Stach encontra aqui razões suficientes para ver Kafka como uma personagem literária. E para destituir radicalmente o «mito Kafka». O mito Kafka nasceu muito cedo, em 1937, precisamente pela pena de Max Brod, que retratou o amigo como um santo, a boa alma, o profeta, o inatingível, o puro. E, por último — peça essencial da mitificação —, aquele que à beira da morte lhe pede que queime a sua obra. O mito Kafka comportava assim a dimensão heróica e abnegada de quem quer poupar a posteridade a uma herança carregada de profecias sinistras. Max Brod fixou durante muito tempo a imagem de Kafka transmitida à posteridade. Mas muitas outras imagens foram surgindo: anarquista, teólogo, cabalista, metafísico, ironista. A fortuna e a maleabilidade do adjectivo «kafkiano» é uma prova de que Kafka ficou sujeito a muitos usos.

E havia a imagem da solidão, que Reiner Stach reforça ao mostrar que há sempre uma não-sincronia em relação aos que foram amigos e contemporâneos. Essa solidão essencial foi formulada numa daquelas frases, típicas de Kafka, que parecem ao mesmo tempo dotadas de uma enorme leveza e de toda a gravidade do mundo. Foi quando o amigo Janouch lhe perguntou se ele se sentia só como Kasper Hauser e ele respondeu: «Muito pior do que Kasper Hauser, sinto-me só como Franz Kafka.»

No seu mergulho no plano vertical, Reiner Stach demora-se longamente nalguns episódios da vida do biografado. A atribulada relação com Felice, que Kafka conheceu em 1912 em casa de Max Brod, é aqui acompanhada até ao epílogo, em 1917. A Felice, empregada berlinense, prometeu duas vezes o casamento e duas vezes fugiu à promessa. Numa delas, teve de passar pela cerimónia do noivado em casa dos pais dela. Do horror que foi para ele essa cerimónia, dá conta numa página do diário: «Se me tivessem colocado num canto, preso com correntes, não me teria sentido pior.» Mal também se sentiu Felice quando soube que os pais dele tinham mandado detectives investigar a família dela. E pior ainda se sentiu ele quando foi chamado a Berlim, ao Hotel Askanischer Hof, a 12 de Julho de 1914, onde foi submetido ao «tribunal» por causa da pouco inocente relação epistolar que mantinha com Grete Bloch, amiga de Felice. Com alguma ambiguidade, Grete tinha alimentado a correspondência, mas agora estava ali, no hall do hotel, com Felice e a irmã desta, Erna, para o julgar, enquanto ele permaneceu em silêncio.De qualquer modo, é fácil adivinhar porque é que as cartas a Grete são muito mais soltas do que alguma vez foram as cartas a Felice. Com Grete, não tinha nenhum compromisso; Felice, pelo contrário, era o rosto de uma ameaça — a do casamento —, da qual levou a vida inteira a fugir. Mas a relação foi reatada e, em Maio de 1916, estando em Marienbad em trabalho, convidou Felice para o ir visitar. Foi aí que deve ter ultrapassado algumas barreiras com que se tinha protegido de qualquer relação física. Escreveu então a Max Brod: «Mas agora vi o olhar de confiança de uma mulher e não me pude fechar». Dois anos antes, ambos já tinham estado num hotel numa pequena cidade de fronteira da Áustria com a Alemanha, mas o que Kafka fez foi ler-lhe, do manuscrito de O Processo, o episódio «Diante da lei». Pelo modo como descreve essa estada no hotel com Felice, é notório que não estava preparado para ter relações sexuais com ela.

Acontecimento importante, na sua biografia, é a hemorragia de Agosto de 1917, na sequência da qual lhe é diagnosticada a tuberculose pulmonar. Estava então a viver em casa da irmã preferida, Ottla, na Rua dos Alquimistas. Nesse momento inicial, ele chega a encarar a doença como um «alívio», pois ela liberta-o da obrigação do casamento com Felice. Em 1919, há a relação com Julie Wohryzek, de Praga, de quem esteve noivo, mas o pai também tratou de envenenar a relação. A célebre «Carta ao Pai» teria nascido daí.

Vem depois a relação com Milena, em 1920, e, já no último ano de vida, a relação com a judia de Leste Dora Diamant, com a qual viveu em Berlim durante seis meses, em condições muito precárias, por causa da saúde e de dificuldades financeiras. E temos depois os últimos dias no sanatório de Kierling, na Áustria, onde Kafka esteve sempre acompanhado por Dora e por um dos seus amigos, o médico Robert Klopstock, a quem solicitou a morfina que pôs termo ao sofrimento que se tinha tornado insuportável. Terminava assim uma existência marcada por um grandioso falhanço em todos os combates a que se viu obrigado: com o pai (cuja autoridade o assustava tanto que nem sequer era capaz de permanecer em pé diante dele), com a literatura, com o mundo das mulheres.

A longa e volumosa correspondência com Felice mostra bem como Kafka tendia a separar a imagem da amada, tal como a construía através da escrita, da figura real. O mesmo jogo entre imaginação erótica e recusa, entre desejo e temor de um encontro real, caracteriza a correspondência com Milena. Em vários momentos é notório que Kafka tinha medo da relação física. Numa carta a Max Brod, escreveu: «Tens razão quando dizes que a dimensão mais profunda da verdadeira vida sexual permanece escondida, para mim.» E numa carta a Milena: «Diante da maior parte das raparigas, fico desamparado.» No seu diário, poucos dias depois de ter estado com Felice em Marienbad, fala de duas mulheres que tinha conhecido: «A primeira era mulher, eu era ignorante; a segunda era criança, e eu estava absolutamente desorientado. Com F. eu só era íntimo por carta; humanamente, somos íntimos desde há dois dias.» A vida sexual de Kafka ter-se-á iniciado, como era comum na época, com prostitutas. Mas o sexo na relação com as mulheres que amou é algo muito mais complicado. A questão da relação com o sexo oposto é um dos temas da sua correspondência. E a sua atracção por raparigas jovens é considerada evidente. Certo é que há nele uma espécie de rejeição do corpo na sua dimensão sexual como algo, se não repugnante, pelo menos fastidioso. Daí o seu fascínio por uma vida ascética. A sua vocação foi o celibato e, sempre que estava iminente a conjugalidade, Kafka iniciava o movimento de recuo. 

Nota: Dora morreu em Londres, em 1952, antes de se poder instalar em Israel e depois de uma passagem por Moscovo ao lado do marido, que seria deportado; Julie Wohryzek faleceu num asilo de loucos; Milena terminou no campo nazi de Ravensbrück; Felice Bauer morreu em 1960, depois de ter vendido a correspondência com Kafka por uma fortuna.


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