Luana Rodrigues

Crédito da imagem: Qui a tué mon père, peça teatral encenada e escrita por Édouard Louis, dirigida por Thomas Ostermeier durante sua estreia no Théâtre de la Ville Paris, em setembro de 2020. Foto de Jean Louis Fernandez.

A peça teatral Quem matou meu pai, de Édouard Louis, dirigida por Thomas Ostermeier e encenada durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) mostra o próprio autor em cena, Louis, diante de um notebook. À sua frente, há uma poltrona vazia. A poltrona parece esperar alguém que nunca chega. Esse objeto funciona como um signo bastante concreto da presença-ausência do pai, representando o lugar simbólico em torno do qual todo o discurso da peça se organiza. O questionamento que dá título à peça não funciona exatamente como uma pergunta. Ela opera primariamente como acusação.

O texto parte de um gesto aparentemente íntimo para produzir um deslocamento político bastante claro. O pai trabalhou durante anos em empregos físicos precários no norte da França e termina a vida com sérios problemas de saúde. A narrativa, então, estabelece uma relação de causalidade entre a vida (e morte) do pai e as políticas públicas que depletam o estado de bem estar social. Essa operação se constrói por meio de um paradoxo: a relação entre pai e filho, marcada na infância de Louis por homofobia, vergonha e violência simbólica (episódios que o próprio autor já havia narrado em livros como En finir avec Eddy Bellegueule) dá lugar a uma forma tardia de ternura. O pai que antes aparecia como figura de opressão é relido como produto de um contexto social muito particular: o de homens da classe operária de pequenas cidades industriais francesas, socializados em uma cultura masculina que associa virilidade ao trabalho físico, à dureza emocional e à rejeição da homossexualidade.

Em cena, Louis assume simultaneamente as posições de narrador, personagem e autor. É o corpo do próprio escritor que aparece como suporte da memória e da acusação. Em muitos momentos, a sensação não é a de assistir a um ator interpretando um personagem ficcional. O que vemos é alguém ocupando deliberadamente uma posição discursiva bastante reconhecível: a do intelectual que saiu de uma pequena cidade operária, tornou-se escritor e retorna publicamente à própria origem para denunciar as condições sociais que marcaram aquela infância. Assim, o palco funciona como extensão do próprio livro.

Esse deslocamento aparece também na forma como Louis utiliza o corpo em cena. Há momentos em que ele parece quase confessar algo muito íntimo à plateia. Ao fundo, projeções de fotografias ampliam esse efeito documental: imagens do lugar onde cresceu, fotografias do pai e registros da infância do próprio autor. Uma imagem chama particularmente a atenção: o pai nos seus 30 e poucos anos fantasiado de mulher no carnaval e com uma expressão genuinamente feliz. Na versão brasileira do livro essa cena aparece apenas como lembrança narrada; na peça, a fotografia é projetada diretamente no palco. Essas imagens funcionam como um pequeno arquivo autobiográfico projetado durante o espetáculo.

Em cena, instala-se uma tensão entre contenção e exposição. O corpo de Louis permanece quase sempre controlado: os gestos são econômicos, os deslocamentos são raros e a voz mantém um tom baixo e regular. Essa reserva, no entanto, é atravessada por momentos em que o autor tenta, e em certa medida consegue, recriar as performances extravagantes da própria infância, aquelas coreografias e gestos que, segundo ele mesmo relata, levavam seu pai a sair de casa envergonhado pelo comportamento do filho. Nessas passagens, o corpo parece momentaneamente escapar da disciplina que domina o resto da encenação. O efeito é ambíguo: a mesma presença que se mostra controlada deixa surgir breves lampejos daquela expressividade infantil que provocava desconforto no ambiente familiar.

O espetáculo mantém uma relação bastante próxima com a narrativa que acompanha o livro. A estrutura do relato permanece em grande parte intacta, e muitos dos episódios aparecem no palco de forma semelhante à maneira como são narrados no texto. Ainda assim, a encenação dirigida por Ostermeier introduz alguns recursos que deslocam esse material para uma dimensão propriamente cênica: o uso constante do microfone, por exemplo, aproxima o espetáculo de uma tradição de teatro político em que a palavra assume um caráter público, quase de tribuna. Em outros momentos, surgem efeitos de contraste mais inesperados, como sequências de lip-sync em que Édouard Louis dubla músicas associadas ao universo pop e gay, além de uma trilha sonora de tonalidade dramática que acompanha certas passagens do relato.

Esses elementos não alteram profundamente a estrutura do texto, mas criam pequenas rupturas que reorganizam o ritmo da cena e ampliam o alcance emocional de determinados momentos, sobretudo no desfecho da peça, quando Louis passa a nomear diretamente figuras centrais da política francesa responsabilizando suas reformas sociais e trabalhistas pelo agravamento das condições de vida de trabalhadores como seu pai. Nesse sentido, a encenação parece apostar menos em uma reinvenção radical da dramaturgia e mais na combinação entre relato autobiográfico e dispositivos teatrais tradicionais, capazes de sustentar o impacto político desse momento final.

Talvez seja exatamente nessa ambiguidade que reside o interesse, e também o limite, de Quem matou meu pai. A peça oscila constantemente entre dois registros bastante diferentes. De um lado, a denúncia política que transforma a biografia de um trabalhador francês em crítica às políticas liberais implementadas nas últimas décadas. De outro, a performance autoral que coloca o próprio escritor e sua história pessoal no centro do dispositivo teatral.