Um por todos e todos por um!

Três coisas levaram-me a ler este livro neste momento: a primeira motivação foi fazer uma leitura conjunta com o meu melhor companheiro; a outra, a frustração com o Le Rouge et le Noir (que continua inacabado, em Lisboa) e querer provar a mim mesma que conseguia ler um calhamaço em francês; por último, a minha vinda para Paris.

A história será minimamente conhecida de todos, mais não seja por este enorme clássico:

Dartacão, Dartacão!

Portanto, as personagens deste romance são-nos familiares: D'Artagnan, o protagonista, oriundo de Béarn, na Gascogne (como quem diz, o País Basco francês); Athos, Porthos e Aramis, os três Mosqueteiros do Rei; o Rei Louis XIII e a sua esposa, Anne d'Austriche; o Cardeal Richelieu e os seus agentes. Dumas pega em personagens e eventos históricos reais e reinterpreta-os através da sua visão do mundo, que se divide entre personagens motivadas pelo amor, honra e amizade, e personagens cuja motivação vem do poder, dinheiro e ambição, algo relativamente comum em literatura francesa. Pode não ser a obra mais profunda da literatura - e eu digo isto sabendo que é um clássico aclamado -, mas é entusiasmante e consegue manter o interesse durante 1000 páginas. Porque é possivelmente a melhor aventura alguma vez escrita.

A bela Anne d'Austriche é rainha de França, pelo seu casamento com o fraco Louis XIII. Richelieu, o cardeal poderoso (primeiro ministro, no fundo, e principal conselheiro do rei), declarou-lhe o seu interesse, mas foi rejeitado - o coração da rainha pertence ao Duque de Buckingham. D'Artagnan e os três Mosqueteiros estão do lado do rei e lutam contra os esquemas do cardeal, que procura expor o romance de Buckingham com a rainha. E entretanto há uma revolta protestante no país. Ou seja, Dumas pega num Duque inglês que ama uma rainha francesa (que pertence à família real espanhola, então maior inimiga de França), fazendo com que todas as outras personagens pareçam girar em torno deste drama - que relações e ambições pessoais possam decidir a política de um continente como a Europa. Esta é apenas uma parte da história, aquela que foi popularizada nos desenhos animados (fora a paixão do cardeal, que descobri aqui) - e eu odiaria entrar em spoilers, pois o livro vai muito mais longe que os desenhos animados. E é muito mais complicado que isto.

Avant six mois, dit-il, si je ne suis pas mort, je vous aurai revue, madame, dussé-je bouleverser le monde pour cela.

Primeiro, porque os Mosqueteiros não são tão perfeitos assim - muitas adaptações demonstram o seu lado arruaceiro, e tenho a ideia que mesmo o lado mulherengo é representado - mas a forma como tratam mulheres, ou os seus próprios criados, por exemplo (Athos não deixa o seu criado falar); ou o facto de como muitos dos conflitos têm origem no alcoolismo ou propensão para apostas, e muitos dos conflitos são resolvidos escondendo-se atrás de M. de Tréville. Um deles é amante de uma mulher casada e ridiculariza-a, e aos seus presentes. O outro não sabe se quer ser padre ou ter amantes. Um deles tentou enforcar a esposa. E D'Artagnan, apaixonado por uma mulher casada, envolve-se fisicamente com duas outras mulheres.

Esta é uma história que é tão popular, foi adaptada de tantas maneiras, que muito do enredo se parece ter perdido - e é normal, porque o livro é enorme e é preciso simplificar a narrativa. E esta é, frequentemente, simplificada enquanto a história dos Mosqueteiros, ideais de coragem, honra e amizade. Quando é que Mosqueteiro se tornou sinónimo de honra e nobreza?

Nós vemos os Mosqueteiros, e vemos os seus erros e os seus crimes; não são personagens perfeitas, extremas - são personagens complexas, especialmente Athos, taciturno, alcoólatra e, sem dúvida, o meu Mosqueteiro preferido (segunda personagem preferida, como veremos abaixo). E isso é bom, mas no fim do livro fiquei com a sensação que estava a ler "o lado" dos Mosqueteiros, que pedia que eu torcesse por eles ao mesmo tempo que se vilaniza Richelieu e Milady.

Portanto, de um lado temos D'Artagnan, um jovem ambicioso que sonha ser Mosqueteiro. Tréville arranja-lhe um cargo como guarda, a rainha recompensa-o sem nunca saber quem a ajudou - é um herói anónimo e bem relacionado, no fundo. D'Artagnan tem três amigos. E, do outro lado, temos Milady, a loura e misteriosa espia de Richelieu. E se o título não me dissesse o contrário, eu diria que é Milady a protagonista, porque, por mais inspiradora que seja a amizade entre D'Artagnan e os Mosqueteiros, é ela que rouba a cena sempre que aparece.

D'Artagnan está apaixonado por Constance, mas, quando esta é raptada, começa a interessar-se seriamente por Milady. Vai visitá-la na sua casa no nº6 Place Royale, e finge ser outro homem para ir para a cama com ela. Honrado. E é isto que, basicamente, despoleta muita da segunda metade do livro.

Milady. É uma mulher má, é uma femme fatale, é uma espia do Richelieu que passa a narrativa inteira a conspirar ou a tentar assassinar as pessoas por quem é suposto torcermos no livro, a tentar arruinar casamentos, a corromper padres e homens bons. Uma vez, ela enganou o Comte de La Fère. Ela é a vilã do livro, pior que o Cardeal para quem trabalha (que, na verdade, tinha medo dela). Milady é uma personagem extremamente complexa, que não só engana D'Artagnan mas é enganada e humilhada por ele; cujo passado sabemos, mas cujas motivações só sabemos por terceiros. Terá ela cometido realmente tantos crimes - ou terá sido ela uma vítima de circunstâncias, de paixões, uma simples espia ao serviço do Estado?

Aceito que Milady seja uma vilã, apesar de achar que há espaço para ambiguidade - mas não aceito que exista vilã melhor que ela na história da literatura. E adoraria ver uma nova versão desta história com Milady como heroína, o que não me parece assim tão difícil.

Milady é descrita como uma tigresa, demónio, serpente, leoa - é desumanizada a esse ponto. Também há vários momentos em que outras personagens falam da sua falta de feminilidade como enorme defeito (ou pecado). Possivelmente, porque os honrados Mosqueteiros nunca tratariam uma senhora como a trataram a ela. Há inclusive uma parte em que ela lamenta ser uma mulher, pelas possibilidades que lhe vê vedadas:

- Où irais-je? croyez-vous qu'il y ait un endroit de la terre où ne puisse atteindre le cardinal, s'il veut se donner la peine de tendre la main? Si j'étais un homme, à la rigueur cela serait possible encore; mais une femme, que voulez-vous que fasse une femme? Cette jeune pensionnaire que vous avez ici a-t-elle essayé de fuir, elle?

Ou seja: Milady tem noção de como nascer mulher influenciou a sua vida. Será ela, portanto, a sociopata que nos levam a crer, ou uma mulher que tem noção dos seus infortúnios e do que tem de fazer para se salvar, a que armas terá de recorrer? Claro que o uso da sexualidade para alcançar os seus objectivos é condenável e um péssimo exemplo; além de problemático, embora, lá está, outros tempos, outras mentalidades ao escrever um livro. Há acusações que nunca podemos provar, e há apenas um acto inequivocamente condenável. Porque nunca sabemos o seu passado senão por terceiros, porque, enquanto mulher, quando ofendida por D'Artagnan - e ela tem razões mais que legítimas para ficar ofendida -, não o pode desafiar para um duelo e tem de procurar vingança por outros meios. E finalmente porque, enquanto agente de Richelieu, está ao serviço de França e mandar assassinar um Duke inglês é um trabalho legítimo - era um inimigo de Estado.

Falemos também de Richelieu. Confesso que o meu conhecimento histórico não me permite compreender ao certo o porquê de este ser retratado como vilão: conheço o Richelieu que profissionalizou a diplomacia, o Richelieu raison d'état, o ministro dos negócios estrangeiros ultra-católico que estabeleceu relações diplomáticas com Marrocos para proteger o seu país, alienando outros países (mesmo os católicos) da sua esfera. E, de certa forma, percebo que isto possa ser visto como maquiavélico. No sentido literal da palavra, lá está. O Cardeal tinha mais poder ainda que o rei. E parte do encanto deste livro é tratar-se de ficção histórica com personagens muito reais: Richelieu, Louis XIII, Anne d'Austriche, e um homem chamado John Felton que assassinou o Duque de Buckingham.

Les Trois Mousquetaires não é o livro mais brilhante de sempre, ou o mais intelectualmente complexo, ou o mais complicado, apesar de longo. É ridículo em partes, divertido, empolgante. Há sarcasmo e duelos de espadas, há situações altamente improváveis, há a nomeação de D'Artagnan como Mosqueteiro umas duas ou três vezes ao longo do livro porque aparentemente Dumas se vai esquecendo do que já escreveu. Há temas como amor, amizade, orgulho, ambição e vingança; há aqui material para quem gosta de aventura, amor, sexo (sim), duelos, homens em capas, teorias da conspiração. Portanto: mil páginas? assustador, claro. Mas o conteúdo é adequado e simples o suficiente para qualquer leitor, mesmo para jovens (e sim, sei que há imensas versões reduzidas da obra com esse público alvo em mente).

"Je n'aurai donc plus d'amis, dit le jeune homme, hélas! plus rien, que d'amers souvenirs…"

Et il laissa tomber sa tête entre ses deux mains, tandis que deux larmes roulaient le long de ses joues.

"Vous êtes jeune, vous, répondit Athos, et vos souvenirs amers ont le temps de se changer en doux souvenirs!"

Este livro é especial por muitas razões.

E mesmo sendo um livro pouco complexo e pouco sério, existem várias vertentes, várias leituras que se podem fazer. Temos o romance: a aventura dos heróis Mosqueteiros contra os vilões, as lutas de espadas, o drama. Temos as dificuldades de ser Mosqueteiro do rei no séc. XVII em França, bem como a situação política tensa vivida na altura (este é, afinal de contas, um romance histórico). E temos as vidas pessoais de certos indivíduos a influenciar as vidas de outros, mas também os destinos de várias nações. Porque, por amor, um homem trai o seu país.

Perguntei entretanto no Facebook qual o próximo livro que devo ler do autor, e o consenso foi Le Comte de Monte-Cristo.

5/5

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