Leia, clicando aqui, o início da A história de Elias
A moto no chão
Quando Elias e Samuel saíram da cena do crime, todos já haviam cumprido com o seu papel. Os dois policiais fizeram a averiguação e análise do corpo e cenário; o motorista da ambulância trouxe o médico e este atestou o óbito; o fotógrafo fez perguntas tolas e tirou várias fotos; e os muitos alguéns disseram muitas coisas e foram embora. Por último, recolheram o corpo, depositaram na ambulância e levaram-no ao Hospital.
A viatura percorreu pouco mais de três quilômetros de estrada. O policial ao volante tragava e melodiava à meia voz; Elias, no banco da frente, mantinha o olhar fixo na estrada e não dizia uma palavra. Atrás, Samuel, despreocupado, sereno, observava-os. Será preciso levar o corpo para o IML? ele perguntou. O policial tragou, virou o rosto, soprou a fumaça pela janela e disse O procedimento padrão, e tossiu. O procedimento padrão, e tossiu mais duas vezes. Contudo…
Contudo o quê?
Ele limpou o pigarro na garganta e então disse O esposo pode assinar um termo de compromisso na Delegacia e pedir a um dos médicos do hospital para assinar o atestado de óbito.
E quem daqueles poderia fazer isso… Tem amizade com algum médico do hospital, Elias?
Não. Mas eu peço ao prefeito e ele manda um na delegacia. Esquente com isso não.
O policial parou a viatura do outro lado da estrada e desligou o motor. Vamos, ele disse. Ajeitou o revólver no coldre e saiu e fechou a porta e atravessou a estrada. Ao se aproximar do terceiro e quarto policial, disse E então, descobriram mais alguma coisa?
Samuel ficou parado a poucos metros observando. Ficar por aqui mesmo, ele disse, e gesticulou com a mão como se dissesse Vão, podem ir.
Elias se aproximou dos policiais e acenou com a cabeça e fitou a moto no chão. Deus do céu, pensou.
É o senhor Elias? perguntou o terceiro policial que estava agachado.
Sim, sou.
Policial Otávio, ele disse, e se levantou, enxugou o suor da testa, limpou as mãos na calça e apertou a mão de Elias e se agachou novamente.
Elias conhecia o terceiro policial superficialmente e gostava dele o suficiente para jogar futebol no mesmo time todo sábado à noite. O quarto era novo na corporação. Havia sido transferido fazia três meses. Ele conversava com o único morador da região. Era um homem alto, nutrido, pele bem cuidada, com uma cabeça redonda embaixo do cabelo curto e preto, penteado de lado, como um âncora do jornal das oito. Tinha no rosto um ar de satisfação consigo mesmo. Usava botas de cano alto e um cinto de fivela grosso e parecia uma boa pessoa até abrir a boca. Tenha um bom dia, Seu Cinja. Vá com Deus.
Tenente Chris Welber, ele disse, e estendeu a mão.
Elias.
Que ano é essa moto?
83.
Vermelha.
Vermelha.
Antiga, mas bem conservada.
É.
Está emplacada?
Sim, está.
Não foi uma pergunta retórica. Foi mais a título de informação. Ele deu uma volta ao redor da moto e disse Então vejamos, o pneu da frente está careca, não é?
Bem observado.
O de trás tem um rasgão.
Elias olhou de relance para o policial e pensou Que cara idiota, então se agachou, tocou a mão no pneu e ficou matutando. O meu parceiro aqui acredita que isso tenha sido feito por uma arma branca, disse o Tenente. Uma faca ou um facão.
Concordo, disse Samuel ao se aproximar às costas.
Se o senhor me permite, disse Elias, o que aconteceu aqui foi queima de arquivo, só isso. Tudo premeditado. Vocês viram o tiro na cabeça. Apenas um. No meio dos olhos. Serviço bem feito e limpo. Sabiam que ela ia para a casa da mãe. Sabiam que ela estaria sozinha. Sabiam que ela ia passar justamente nesse horário e naquele corredor. Pegaram a moto e deixaram largada no aceiro e cortaram o pneu para dizer que ele estourou. Olhe esse corte. Alguém por aí quer desgraçar a minha vida, e achou que apagando a minha mulher ia me meter medo. Otários.
Calma, disse Samuel, melhor manter a calma.
Calma o cacete, porra. Sabiam que eu não ando dando as caras e se aproveitaram porque era mulher. Filas duma puta. Por que não vieram me encarar? Safados.
O tenente fez umas anotações mentais. Olhou a moto, a cerca, a estrada e os dois caminhos que levavam àquele ponto. Mediu distâncias com os passos, disse Humm, pode ser. Fez um esboço do cenário e do acontecido e então disse Realmente, você tem razão. Não foi um acidente. Foi crime premeditado. Elias fechou o punho para socá-lo, mas não o fez. Afastou-se e puxou Samuel pelo braço e caminhou até a viatura. Vamos para casa, ele disse. Preciso comprar o caixão.
E quanto à moto? perguntou o Tenente.
Enfie no cu, disse Elias, mas somente ele ouviu isso.