02
Fev24
Maria do Rosário Pedreira
Este ano (além dos 50 anos do 25 de Abril!), comemoramos o quinto centenário do nascimento de Camões, que é o nosso poeta maior, o herói que salvou a obra-prima das águas, escreveu uma epopeia inesquecível sobre a viagem do Gama, mas foi também um mulherengo incorrigível e um homem que praticou alguns crimes por que esteve preso. Vasco Graça Moura, que nunca gostou muito de Pessoa e da importância que lhe era dada lá fora, sempre defendeu Luís de Camões com unhas e dentes como o poeta-mor da pátria. E, realmente, o seu génio na construção de uma obra como Os Lusíadas é absolutamente insuperável, a menos que tenhamos do outro lado um Dante ou um Shakespeare. A biografia do mestre, assinada por Isabel Rio Novo, está anunciada e sairá ainda neste ano do quinto centenário, prometendo novidades. Eu, que adoro a lírica camoniana, homenageei humildemente Camões com um fado que Carminho gravou há muitos anos (mas que quase nunca se ouve, nem no rádio nem ao vivo, para grande pena minha) que pretendia ser uma «alusão» a «Amor é fogo que arde sem se ver», mas, claro, sem a genialidade do senhor Luís Vaz. Espero, de qualquer maneira, que gostem.
Vem essa coisa qualquer
Como seta despedida
Direita ao meu coração.
E eu choro e rio sem querer,
Nunca de mim tão perdida,
Pobre de mim, tão sem chão.
Que luz é essa que cega,
Que desatina, atordoa,
Que vem de dentro e me invade?
Que me transtorna se chega,
Mas quando parte magoa
Num alívio que é saudade.
Vem essa coisa tão estranha
Dar-me um laço que desprende
Tanta doçura que amarga.
E eu pequenina e tamanha
Num corpo que não se rende
A uma estreiteza tão larga.
Que graça é essa tão séria,
Que corrói até ao osso
E me arde de tão fria?
Dá-me tudo, até miséria,
Vem, meu amor, que eu não posso
Viver assim mais um dia.