Fotografia da minha autoria

«Quantas possibilidades perdi pelo caminho para me transformar nesta que sou agora?»

Avisos de Conteúdo: Violência, Negligência Parental, Referência a Suicídio

A linguagem do trauma tem uma melodia própria: nem sempre fácil de escutar, pelo desgaste emocional que provoca, mas sempre arrebatadora, quando nos enlaça nos seus acordes. No fundo, conserva um lirismo que só se reconhece nos sentimentos mais dolorosos. E é neste ritmo que descobrimos o novo livro de Aline Bei.

O PODER DEVASTADOR DAS RELAÇÕES HUMANAS

Pequena Coreografia do Adeus é a história de Júlia, uma mulher a tentar «juntar os cacos de um relacionamento destroçado». Aliás, diria que não foi apenas um, o que condicionou o seu crescimento, as suas vivências e os seus sonhos. Neste ambiente sufocante, ladeado por uma destrutiva negligência/ausência parental, a protagonista vai-se movimentando para se libertar das amarras que a impedem de voar.

«como recolheria os meus cacos se eles são invisíveis?»

A escrita da autora é crua, no entanto, parece uma dança sincronizada em compassos equilibrados, porque é melancólica e, ao mesmo tempo, bela, é leve e, ao mesmo tempo, intensa. E é através de um jogo de contrastes que nos mostra todas as emoções que habitam a personagem. Um aspeto que me fascinou foi mesmo a capacidade de ser delicada, elegante no relato, embora sejam maiores os destroços ao seu redor.

«o silêncio da casa era sempre uma fermentação»

Escrito em verso, este livro não nos permite ir embora, uma vez que nos alinha com as suas dores, as suas angústias e com as projeções num futuro que aparenta não ter espaço para si. Além disso, tem um discurso tão próximo, que é impossível não nos lermos nas suas palavras. A minha bagagem não se assemelha à de Júlia e, ainda assim, consegui reconhecer-me nela - em todas as circunstâncias que nos separam, só me apetecia acolhê-la num abraço, para que sentisse que há amor no mundo e que também é digna de o receber.

«o nosso jeito de conversar, diretora, é machucando-nos

não por mal, não somos maus

somos tristes e isso é o que fazemos com a nossa solidão»

O passado que continua a pesar nos seus passos, as sombras que persistem e a débil esfera familiar levam-nos até à sua infância/adolescência, como se procurasse compreender melhor os factos e colar os tais cacos que a devastaram. Por esse motivo, estamos perante uma narrativa intimista, de autodescoberta, onde as cicatrizes têm voz, mas onde também existem pedaços de luz a querer quebrar todos os recantos fragilizados.

«mas no fim o que cada um constrói com o outro

quando não estamos no recinto»

Pequena Coreografia do Adeus lê-se num sopro, mas vai-nos inquietando: pelo impacto dos afetos (ou da ausência deles), pelas pessoas que nos agregam, pela solidão e pelo amor que nasce e nos renova.

🎧 Música para acompanhar: Travessia, Milton Nascimento

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