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Set24

«É A GUERRA». 1934. Diário da conflagração mundial. PARIS, Ano 1914.

Manuel Pinto

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PARIS/MCMXIV

SÁBADO, 19 DE SETEMBRO

«... A miuçalha que morre não é digna de ser memorado; o seu nome vai para baixo da terra com o corpo, se este não fica a apodrecer a céu aberto ou não oferece pasto aos corvos; mais tarde, quando muito, se escreverá em lápide de pedra a erguer no adro das igrejas.

A serenidade, a existir de facto, tem esta explicação; sabe-se que caem alemães em barda, pois o proclamam a cada passo os comunicados. Dos franceses, moita; caem do monte; e, como caem do monte, não se sabe; cada um, em particular, não sabe do seu filho, do seu irmão, do marido de Fulana, do cunhado de Beltrana, que são os que lhe falam ao sentimento; está inquieto; mas não alarma ninguém com lutos e prantos. Por isso, quando os jornais falam nos miasmas que se evolam dos mortulhos imensuráveis de Charleroi e do Marne, o francês tem a seráfica ideia de que semelhante fedor provém apenas de carcaças boches. Não cabe no seu raciocínio que à defesa ou ataque sangrento do inimigo corresponde, com leve diferença, igual morticínio nas fileiras dos seus. Não, lá caem por milhares; cá, por dezenas. Esta proporção algébrica está no âmago duma consciência que, ultrapassando as raias do sacrifício e da abnegação, assiste de venda aos acontecimentos. E eis como se demonstra que podem coexistir no mesmo povo, paredes a meias, nada contraditórios, um estado superior de civilização, gosto requintado, espirito egrégio, malícia, finura de maneiras, e o mais crasso sendeirismo, como enunciámos paralelamente quanto á Alemanha.

Reprimir as demonstrações da dor é virtude; estancar a dor, sublimando-se as almas até tirarem contentamento do holocausto, é literatura barresiana e mais nada. Os alemães podem ser diferentes dos franceses no génio, na bravura, no patriotismo; na dor são irmãos gémeos. Os centros nervosos procedem da mesma cepa ária; mais uns graus ao Norte, menos uns ao Sul, pode variar a capacidade de sofrer de maneira apreciável? Por cima das diferenças físicas a dor nivela o mundo; não são mais igualitárias as religiões.

Devido à cegueira em que anda mergulhado o povo francês quanto ao diagnóstico da guerra, nada mais furta-cores que o seu estado de espírito, amálgama provável de ansiedade, esperança, fanfarronada, transitórios frenesis, desesperos. Uns tantos algarismos e podia ruir o maravilhoso castelo da conformidade. O silêncio, nesta hora, é a grande razão de Estado. La lutte continue, e é quanto de barométrico se sabe da mortualha.»

publicado às 21:44