ilustração/Ligia Zilbersztejn
Li toda coleção da Mônica e do Tio Patinhas do ano, gastando o equivalente a uma, eu disse uma, revistinha.
Maria Paula Curto *
Educação foi sempre algo muito importante na minha família. Meus pais, que não tiveram muito estudo, faziam questão de que a filha, única, estudasse. O lema, lá em casa, sempre foi: objetos e riquezas vêm e vão, mas conhecimento é algo que ninguém tira de você. E isso ficou para sempre estampado na minha carne como uma tatuagem em formato de algum código de barras que me permitiria acesso a “um futuro melhor”.
Menina extremamente curiosa e “perguntadeira”, infernizei minha mãe a tal ponto que ela acabou decidindo que o único modo de ela ter algum sossego na vida seria ensinando aquela metralhadora de perguntas ambulante a ler e a escrever. O problema era como alimentar a tal criatura com os gibis que ela amava, mas que devorava em alguns dias. Não dava para gastar parte significativa do salário do pobre pai com a Turma da Mônica. Tive que ativar meu espírito negociador e conseguir jogar meu charme de criança sorridente e simpática – pois bela eu nunca fui, diga-se de passagem – e encontrei um jornaleiro que topou a seguinte barganha: eu pagaria pela primeira revistinha, leria com todo cuidado e carinho do mundo, sem dobrar, rasgar ou amassar qualquer página e trocaria com ele pelo próximo exemplar, sem custo! Não foi sensacional!
Li toda coleção da Mônica e do Tio Patinhas do ano, gastando o equivalente a uma, eu disse uma, revistinha. Pena que eu não lembre o nome desse jornaleiro para fazer algum agradecimento especial (lembro apenas que minha mãe comprou um belo presente de Natal para ele, muito merecido, por sinal), mas certamente ele foi um dos responsáveis pelo meu amor à literatura. Ok, você pode dizer que HQ não é literatura, o que eu particularmente discordo, mas há de admitir que é uma bela e suave porta de entrada.

Depois, migrei dos gibis para os livrinhos das Edições de Ouro (Eram clássicos da literatura infanto juvenil em formato de bolso, para a gente ler em qualquer lugar), livros de aventura como a coleção “Operação alguma coisa” (Operação Macaco velho ou Operação Fusca Envenenado), em que um bando de adolescentes sempre resolvia algum crime misterioso, além de ter derramado muitas lágrimas (cuidado, pois agora darei alguns spoilers…) com a morte de Dora em Capitães de areia ou a do Portuga em Meu pé de laranja lima ou ainda da cachorra Baleia em Vidas Secas. E não era uma tristeza pequenininha não. O nariz ficava vermelho como a rena do Papai Noel e era tanta lágrima que chegava a ondular as páginas. Ainda bem que nessa época, eu já tinha os meus próprios livros, ou o acordo com o jornaleiro teria se encerrado na primeira semana…
As estantes começaram a crescer e o gosto pelos livros só foi aumentando e se diversificando. Passei por muita Agatha Christie e Sidney Sheldon até chegar a Kafka e Dostoiévski. Por sinal, lembro até hoje de ter que me levantar e andar em círculos pela casa, para tentar aliviar um pouco a angústia que eu sentia junto com meu pobre, terrível e adorado Raskólnikov. Nada pode ser mais anti-heroico do que esse personagem. E tão incrivelmente humano. Esse Fiódor não é fraco não…
Depois, o mundo corporativo me fez trabalhar demais e me divertir de menos, e o meu tempo dedicado à literatura acabou reduzido aos finais de semana ou aos momentos de espera por alguma reunião. Devo confessar que eu até gostava quando o cliente atrasava. Ele, se enchendo de orgulho e importância por ter feito a consultora esperar e eu me deleitando com aquela pequena transgressão bem no meio da tarde. Nada me fazia mais feliz do que largar EBITDAs e fluxos de caixa livre em prol da insustentável leveza dos nossos seres. O problema era quando a leitura era envolvente demais e eu acabava entrando na reunião com os olhos inchados e vermelhos. Como explicar ao cliente que estava tudo bem comigo sim, e que a empresa não estava falindo e que aquela tristeza toda era por conta de Paula, da Isabel Allende? Alguns me olhavam bem torto e eu passei a escolher melhor o exemplar que carregaria comigo, antes de uma possível demissão por causas literárias. Ou por insanidade mental.

Mas isso foi bem antes da invenção dessas bolas de ferro escravizantes vulgarmente conhecidas como smartphones. Agora, não há mais tempo livre. Qualquer instante é momento de responder a algum e-mail urgente, ler todas as mensagens dos famigerados grupos de Whatsapp corporativos ou ainda para fazer uma reuniãozinha rápida via Teams ou Google Meet. Pior, antes da invenção do bendito Wi-fi em pleno voo (o que eliminou qualquer nesga de liberdade possível), eu ainda conseguia algumas horinhas de paz e tranquilidade, em voos. Pois enquanto eu me deslocava para Minas ou Mato Grosso do Sul, eu podia sentar e, pasmem, sacar um livro da bolsa e ler sem interrupção. A não ser quando o voo pegava alguma turbulência brava ou o passageiro ao lado estava carente e queria fazer alguma espécie de terapia comportamental aérea ou ainda quando ao meu lado viajava o próprio chefe querendo aproveitar o voo para decidir o orçamento mensal da área ou alguma nova contratação ou promoção.
Deus, por que as pessoas não conseguem relaxar um pouquinho? Só um pouquinho. Eu tenho certeza de que uma hora de desconexão não vai reduzir a produtividade de ninguém. Ao contrário. Pesquisas afirmam que se dar esses pequenos intervalos mentais enriquece o pensamento e aumenta a eficiência. Não sei se é fato, mas eu prefiro acreditar. E se meus momentos com os livros não aumentaram a minha eficiência, certamente me trouxeram um pouco mais de felicidade.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.