O caráter universal da obra de Brecht nos mostra que, mesmo nesse fim mais privado de sua vida, o fator histórico e dialético presente desde o início de sua carreira artística ainda está ali, de modo que podemos continuar acompanhando as experiências do autor.

Por Marcus Del Poente*

Bertold Brecht (1898 – 1956) foi um autor alemão de grande destaque, com uma produção multifacetada que passa por peças teatrais, óperas e romances. O catálogo de poesias de Brecht é imenso e nos mostra o desenvolvimento de um jovem que desde cedo escreve e ganha concursos na escola, até chegar em um autor mais isolado que não só questionava o mundo, mas sua própria existência. Esse movimento de transformação está impresso na obra do autor de modo que conseguimos acompanhar a história, suas transformações e problemáticas por meio da experiência de Brecht e de seu domínio da escrita, para que seus escritos se tornassem não apenas algo pessoal, mas sim uma obra que todos nós conseguimos nos identificar.

Nos poemas que abrangem o começo de sua carreira, observamos um aspecto antimilitarista muito forte, Brecht critica a guerra e seus desdobramentos assiduamente, recebendo repreensão das instituições por seu comportamento (repreensões que se acentuaram a ponto de provocar o exílio do poeta tempos depois). Suas aspirações revolucionárias o levaram a ter ódio da classe burguesa e, suas leituras de Fraçois Vilion e Andre Rimbaud, ambos autores franceses que questionavam a estrutura da sociedade, lhe conferiram posto de “libertário”, um artista que vai contra a ordem vigente e não aceita os padrões determinados, porém não se articula nem se filia a nenhum partido.

Após essa fase, Brecht se aproxima da obra de Marx e ali encontra o fio condutor de sua obra, o caminho que iria seguir. Ele seria um comunista e sua obra, que já era virada para tal assunto, se torna ainda mais combativa. O autor escreve em busca da revolução comunista, mas sempre com base na dialética e nunca sem deixar as críticas de lado. Isso se estende até 1947, quando Brecht volta de seu exílio nos EUA e vai para a Alemanha com certa dificuldade, pois não aceita muito bem a cisão de sua pátria. Assim, posteriormente, deu início às Buckower Elegien, conjunto de escritos de um Brecht mais deslocado e distante.

Percebemos um certo cansaço em Brecht e um incômodo com o partido que escolheu defender. Isso aparece na sua poesia, do mesmo jeito que o ímpeto revolucionário de um Brecht mais jovem também aparecia. Poemas como “Der Radwechsel” explicitam seu incômodo com o andamento do partido comunista, outros como “Als ich in weißem Krankenzimmer der Charité”, versam sobre a relação do autor com a própria vida, mostrando à primeira vista até mesmo um certo conformismo com a morte.

A Troca da Roda (Der Radwechsel)

Estou sentado à beira do caminho.

O condutor troca a roda.

Não gosto de estar lá de onde venho.

Não gosto de estar lá para onde vou.

Por que olho a troca da roda

Com impaciência?

Quando no Quarto Branco do Hospital (Als ich in weißem Krankenzimmer der Charité)

Quando no quarto branco do hospital

Acordei certa manhã

E ouvi o melro, compreendi

Bem. Há algum tempo

Já não tinha medo da morte. Pois nada

Me poderá faltar

Se eu mesmo faltar. Então

Consegui me alegrar com

Todos os cantos dos melros depois de mim.

Ainda que se considere a qualidade da tradução de Paulo César de Souza, exposta nos poemas acima, a passagem de uma língua para outra acaba por perder alguns detalhes que Brecht manuseava com maestria e tornava o simples em um enigma gigantesco a ser decifrado. Porém, mesmo com a tradução, as marcas de sua poesia que evidenciavam o caráter histórico e circunstancial de sua obra estão nítidas, com o não-lugar impresso em “Der Radwechsel” e a solidão de seus pensamentos junto aos pássaros (melros) em “Als ich in weißem Krankenzimmer der Charité.”

O afastamento no momento da escrita das Buckower Elegien, é mostrado no título, a própria escolha do nome se aproxima da palavra “bukolisch” que, traduzindo, seria algo bucólico e triste. Nesse contexto, Brecht vê no passado o medo que sofreu e toda a luta que realizou para chegar naquele ponto. O futuro se apresenta como o partido que, apesar de apoiado por ele, o estava desagradando com determinadas ações. Todo esse cenário é acompanhado pela troca da roda que Brecht anseia pelo fim da ação, apesar de não saber ao certo o porquê da ânsia.

Essa questão pode ser considerada superada no segundo poema [Als ich in weißem Krankenzimmer der Charité], com Brecht em seu quarto junto aos pássaros, sendo eles arautos da liberdade ou os próximos revolucionários que virão, cantando seus feitos do passado e levando novas esperanças para as gerações que estão por vir. Dessa maneira, a bela imagem privada de um eu lírico que supera o medo da própria morte, pensando na sua ausência desse mundo, se torna um quadro histórico impregnado pelas ideias de Brecht de um futuro melhor, ainda que o autor não possa acompanhar os resultados de sua luta.

O caráter universal da obra de Brecht nos mostra que, mesmo nesse fim mais privado de sua vida, o fator histórico e dialético presente desde o início de sua carreira artística ainda está ali, de modo com que podemos continuar acompanhando as experiências do autor, mas de jeito algum confundirmos com um contexto totalmente privado. A ligação de Brecht com a história, expressa em cada texto, é intensa e essa intensidade resvala em cada leitor, que se torna um pássaro a cantar os feitos de um revolucionário que agora descansa e não teme a morte, pois já não está mais aqui para temê-la.

*Pesquisador na área de literatura alemã na USP